Monday, February 16, 2009

ENTRE A PRECE E O LOUVOR

É verdade que estou ainda com uma gripe ( as gripes atacam mais aos fins de semana, o que não se pode explicar)
É verdade que fiz duas sopas
lavei roupa
estendi roupa
apanhei roupa
experimentei uma receits de bolo de noz a ver se melhoro algumas competências culinárias
escrevi um texto pequeno (e o que me vinha à cabeça eram aquelas horas poucas, em que cheia de febre estava «para ali na cama» e só dormia ou não dormia e como isso me é desagradável)

Mas não vou para a cama sem escrever que há 45 anos levámos a Maria a baptizar.
Um embrulhinho branco, redondinho como ela
E como isso foi bom e tão bonito!

Quando levei os meus filhos a baptizar, sabendo que os quería cristãos, na verdade, não sabia nada ou quase nada.
Bem que logo ali rezámos com eles o Pai Nosso. Mas é tão tarde que a pouco e pouco vamos entendendo aquele «seja feita a Vossa vontade». Tão tarde e sempre de forma tão incompleta.

E reparo que escrevo sempre estas postasgens entre a prece e o louvor.
E assim me vou deitar.
Entre a prece e o louvor.

Wednesday, February 11, 2009

PORQUE GOSTO TANTO DO UNÚTIL

Às vezes, muitas vezes, pergunto-me se tenho direito a tanta coisa inútil com que teço a vida e de que gosto muito.

Coisas como fazer pegas de cozinha, casaquinhos minúsculos de bebés, andar aí pelo bairro porque é bom, ser uma avó que mais ou menos só serve para brincar e ser feliz, ser a mulher do Manel sem lhe cozer as meias, nem arrumar a carteira, nem a secretária, viver esta relação como um tempo de namoro, gostar de ver com ele um filme (ou também sem ele), discutir ideias e raramente estar de acordo, surpreender-me e sorrir (sorriso bem aberto) quando o vejo ao longe,fazer um chá para as amigas, ainda que os meus bolos geralmente caiam no chão, mas depois dá-se-lhes uma voltinha, tenho prática, escrever postais, mesmo postais,
por toda este gosto pela inutilidade, não resisto a transcrever do Pe Tolentino Mendonça o artigo que hoje encontrei. E fiquei bem contente. como se ainda precisasse que alguém me dissesse que o inútil vale.
E qual é a utilidade de um abraço forte?
De um beijo?
De uma mensagem para dizer Bom Dia?
De uma boa relação?
E as bananas que a A. foi comprar para o Manel só porque ele disse que gostava?
E os afectos?

Sei, sei mesmo que somos salvos e libertos pelo inútil.
A propósito, este sol.

Vou ao Jardim da Estrela. Devagar.
E agora alguns o tal artigo:

«O elogio do inútil

Porque é o inútil tão importante? Porque o inútil é o subtrair-se à ditadura das finalidades que acabam por nos desviar de um viver autêntico. E a inutilidade é um viver perto do ser. Ela dá-nos acesso à polifonia da vida, na sua variedade, nos seus contrastes, na sua realidade densa. A polifonia da vida é a sua inteireza, a sua globalidade. A renúncia à exclusividade do útil para abraçar o inútil abre-nos a ela.

Jesus é o Mestre do inútil! Quando lemos os Evangelhos a partir desta chave, encontramos o seu desenho contínuo nas palavras de Jesus. Ele reconduzia cada um a fazer do obstáculo uma oportunidade para o encontro: e, no fundo, para uma abertura fundamental a uma vida segundo o próprio ser. Por isso em Lucas 12,22, Jesus desafia os discípulos:

“É por isso que vos digo: não vos preocupeis quanto à vossa vida, com o que haveis de comer, nem quanto ao vosso corpo com o que haveis de vestir, pois a vida é mais que o alimento, e o corpo é mais que o vestuário. Reparai nos corvos, não semeiam nem colhem; não têm despensas nem celeiros, e Deus alimenta-os. Reparai nos lírios, como crescem. Não trabalham nem fiam, não são úteis; pois eu digo-vos: bem Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles”.

Temos uma vida espiritual muito burocrática. Vivemos como funcionários e quando morremos passamos a defuntos, isto é, aqueles que já não tendo função continuam a ser descritos a partir de uma função. R
Revemo-nos nos versos que Alexandre O’Neill escreveu em «Adeus português»:

“... nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver”.



Muitas vezes a oração surge ainda como espaço útil, e não como o lugar da abertura gratuita e essencial, (...). Não escapamos ao calculismo. Vivemos também aí, a nível da vida espiritual, de pé atrás. Como Sara, a mulher de Abraão, ficamos escondidos atrás do pano da tenda a sorrir baixinho, ironicamente, porque não acreditamos que seja possível a promessa. Adaptamos, mesmo a nível espiritual, um pragmatismo cheio de utilidade. Há uma página no Diário de Sebastião da Gama que nos aponta o dedo:

“A gente tem vergonha de beijar tudo; de amar as flores; de dar um passeio. Se beija uma árvore, é parvo; se traz uma flor na mão é maricas; se se enternece é fraco; se vai a qualquer parte para passear e ver o mundo, faz constar que foi em viagem de estudo ou em viagem de negócios; temos vergonha de ser sinceros, de que nos creiam parvos, ou maricas ou fracos, ou lúdricos, ou estroinas; e então perdemos o melhor da nossa vida; as nossas intenções, as nossas intenções mais belas”.

É preciso perceber como a inutilidade abre clareiras ao próprio ser e como precisamos delas para poder experimentar a plenitude.»

José Tolentino Mendonça

in O elogio da inutilidade

30.05.2008

Thursday, February 05, 2009

ENTRE TRINTA E UM DE JANEIRO E CINCO DE FEVEREIRO
















Dia Trinta e Um -
O André em Sta Marta. Aquela horrível notícia já «postada». «Pai, disseram que tive um enfarte.»
Eu fui andar.
Acontece que quase sempre me encontro com alguém.
Desta vez, na retrosaria e a propósito de lãs, destes trabalhos «este fio melhor que aquele para bebés», a senhora começou e de repente, já era a vida. «Desculpe estar a falar-lhe destas coisas todas, mas sabe, às vezes com os meus amigos é mais difícil, não posso dar parte de fraca, nem chorar». E eu, sem resposta.
O que é que se responde ao sofrimendo?

À noite - Um telefonema amigo e cheio de sabedoria duma amiga da minha mãe.
Que idade terá?
E que importa?

Dia Um -
Missa pela manhã.
O envolvimento maior de ser um amigo a celebrar.
À tarde - No hospital. «E a Teté?»
Fim da tarde - Outra vez à missa com o Manel. Sermos dois é um grande bem.
E dei pessoalmente os parabéns à Élia, grande Mestra, que fez anos.

Dia Dois - Nossa Senhora das Candeias
Teria feito anos a minha sogra (detesto esta palavra, já disse eu e já disse a Ana). Sempre lhe chamei «Mãe». Com gosto.
À tarde levei os Marias à catequese e doía-me de cada vez que falavam do pai. No fim do jantar, «Vá vamos ter com a mãe?» «Então não é o pai que nos vem buscar?»
Rapazes...

Dia Três -
Aniversário do nosso querido neto mais velho. O Bernardo. Dezoito anos. Já é maior.
Viva Bernardo!
Parabéns
Agarra a tua vida. Toda, meu amor. (ainda te vejo tão bebé , coisas de avó, já sabes)
Também eu recebi mensagens de parabéns de muita gente (que reencaminhei para a tua também super Mãe). Destaco a da tia Ana «Viva o Bibas.Viva a avó Teté com um neto maior em todos os sentidos.»
Na reunião da Bíblia, na paróquia, toda a gente fez uma acção de graças por este rapaz e um pedido de saúde para o André. E isto ajuda muito! A querida Maria do Céu «que ia já acender uma vela e fazer uma novena a Nª srª das Candeias. Fantástica.

Dia Quatro-
O André fez o cateterismo. O Manel, experiente e cuidadoso, telefona-lhe manhã bem cedo. Faz-lhe serenamente algumas recomendações.

Tentei que o Manel achasse que devíamos ir logo, logo. E ele «Mas para quê se não podemos entrar antes do meio dia?». Sempre mais ajuizado o meu marido.
Antes de sairmos de casa já a Ana nos telefonava. «Que já tinha acabado. E parecia que tinha corrido bem.»
No autocarro 74, porta a porta, de Campo de Ourique a Santa Marta, telefona-me o pe Vítor Gonçalves, grande amigo. « Vamos tomar um café». E também o André «Se eu lhe levava folhados da Aloma». Já não ia a tempo. Lá arranjei uns maus substitutos na Smarta. E o André zangado. Bom sinal.

Realmente o cateterismo tinha corrido sem problemas.
Gastei todo o meu saldo de telemóvel em mensagens.
A amizade compensa e merece tudo. E ainda p'ra mais uma boa notícia.

Deitei-me para a «sesta» lá para as quatro. Dormi até ao jantar.

Dia Cinco - O André voltou para casa.
Foi com a Ana buscar os meninos.

Louvado seja Deus!

E TOMA JUIZO, RAPAZ.
A gente tem que colaborar.

Hás-de ensinar isto bem ensinadinho aos vossos Marias. De certeza.

E AGORA, AO MESMO TEMPO QUE AGRADEÇO A TODOS OS AMIGOS, VOU TENTAR PÔR UMA IMAGEM EM HONRA DO BERNARDO E OUTRA EM HONRA DO ANDRÉ

Sunday, February 01, 2009

PATRIMÓNIO

O melhor património, Mãe, (e já o tenho aqui dito) foi essa coragem,
Esse viver a vida de frente e de pé
Sem queixas.

Ontem, quando soube do problema do André e vi o Manel «voar» para o hospital, achei que talvez fosse melhor dar-me um tempo para me encontrar e me «reconstruir».
Pedi ao Manel «Dá-me notícias, que eu vou andar». Eu bem sabia que tinha medo duma lágrima, dum vacilar qualquer. Andei pelo bairro.

Mas falava forte a tal coragem da minha mãe. Ela havia de me ter dito. «Que disparate, Teresinha. Vais e vais já. E nem uma lágrima.»
Também a minha cunhada Gaby quando da primeira operação do Manel me falou assim. «Vai. Aguenta-te».
E o que eu lhes agradeço.

Afinal é com surpresa que reconhecemos que guardamos em nós um tesouro de coragem. E isso é vida. Vida sempre.

À tarde fui.
Que bom foi ouvir o André perguntar ao pai «E a Teté?»
E eu estava lá.

Esta postagem é qualquer coisa entre uma prece e uma acção de graças.
É mesmo.

Sunday, January 25, 2009

EM LOUVOR DA VIDA

Faz hoje anos a A e a L.
Hesito.
A A não gosta de fazer anos.
Ou diz que não gosta.
Mas ousei. Peguei no telefone, quase a medo e surpreendi-me.
Estava feliz. Voz aberta e franca.

E disse-me «Olha, até já dei graças por mais um ano».
Boa!
Parabéns redobrados.

Por causa destas coisas que fazem a vida e parecem coisas de nada, é para ela, é para todos que deixo o poema de Torga, de que sempre gostei tanto:

BUCÓLICA

A vida é feita de nadas
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.


S. Martinho de Anta, 30 de Abril de 1937

Friday, January 02, 2009

NATAL EM JEITO DE COMPAIXÃO

De Adília Lopes,
porque diz «Natal» em jeito de compaixão:

«Amar uma pedra, um cão, uma osga, uma barata.
Amar uma pessoa que não gosta de nós.
Amar uma pessoa de quem não gostamos.
O amor é mais difícil do que a mecânica quântica.
Fernando Pessoa, num poema em que caridade rima com electricidade,
diz que não tem caridade.

Às vezes, aquilo a que chamamos amor não é amor:
- é exigir em troca
- é dar para que dês

Amar alguém é confiar nessa pessoa, não estar de pé atrás,
Acreditar nessa pessoa. Gostamos pouco uns dos outros,
Disse Tonino guerrra.
Quero amar e ser amado, dizia Jorge Luís Borges, é muito
Ambicioso, não é humilde.
Acho que devemos pedir só para amar.
É fácil amar quando a vida nos corre bem.
Quando a vida nos corre mal, insultamos o mundo e, às
vezes, insultamos Deus. Acreditar então nas coisas mais queridas,
mais pequeninas:
- as medalhinhas do nosso Baptismo, que entretanto foram roubadas,
se perderam..
- a imagem de Nossa senhora de Fátima comprada na loja dos 300.
- dois versos de uma oração de que esquecemos o resto.

Às vezes, a vida corre-nos muito bem e esquecemo-nos da
compaixão. A compaixão é o amor. Só a compaixão salva. Só
a compaixão é eterna.
O sofrimento nem sempre se vê. E o sucesso, como o desespero,
pode cegar.

Às vezes, temos grandes amigos e não sabemos. A padeira do
nosso, o vizinho do nosso prédio. Anos e anos a dizer:
«Bom dia! Boa tarde!», mais nada, e essas palavras bastaram.

O amor nem precisa de palavras. Mas as palavras sabem bem.»

Sunday, December 28, 2008

COMO NESSA VÉSPERA DE 29 DE DEZ DE 1962....

A mesma alegria
O mesmo sol
O sorriso que nos vem de dentro e tudo invade
Esse não temer
Essa serenidade que permite o abadono
A comunhão do corpo para lá do corpo
Esse tocar a eternidade

Por cada um dos dias da vida partilhada
Com tudo
Tudo mesmo o que a vida tem dado
Esse sempre «de mãos dadas»

Hoje
como nessa véspera de 29 de Dezembro de 1962
Hás-de dar-me uma rosa numa porta a transpor

Louvado seja o dia.

Friday, December 26, 2008

ESTRELAS...

Hoje, entre idas e vindas, encontros, palavras e ausências, vim até aqui, quase culpabilizada «pelo tempo que nunca me chega». Mas é mais forte do que eu. Carrego primeiro na «Caixa de Costura» do André ( o André é meu filho ) e depois não resisto. Carrego na «leitaria».
Acontece que encontrei uma estrela. A Inês.
Bem haja, Inês.
Tomaremos o chá, qualquer coisa. Proponha. Havemos de conseguir.
Qualquer coisa há-de dar. Para tecer os laços, termos rosto e termos voz.

E esta boa surpresa que tive, faz-me contar como os gestos mais banais podem ser «estrelas».
No Natal ou na vida.
É uma senhora que só conheço do cabeleireiro.
Viúva muito cedo.
Depois uma ligação de que fala abertamente. «Com o engenheiro».
Há uns anos, «o engenheiro» morreu.

No sábado disse-me que no dia seguinte fazia anos. Pedi-lhe o telefone e «se não se importava que lhe telefonasse. Mas não queria incomodar»
Já eram dez da noite. Telefonei. Palavras rápidas. Quase circunstanciais.

Quando a voltei a encontrar, disse-me que costumava desligar o telefone para descansar, mas que tinha tido um pressentimento. E eu toquei.
Que quando desligámos,lhe tinham saltado umas lágrimas.
«É que bem vê, estou muito só. Passei a tarde no Estoril. Depois, p'ra casa...»

E a mim, que não me esforço mesmo nada em fazer um telefonema, doem-me as omissões.Tantas as omissões.
E uma estrela é tão fácil.
No Natal.
Em cada dia.
Pode dar ânimo.
Vida que nasce.
Como o Menino de Belém.
Como cada vida.
Como as palavras da Inês.

Sunday, December 21, 2008

O NASCIMENTO

Aí vem a estrela! Aí vem, sobre a montanha,
Rompendo a sombra etérea do crepúsculo!
A paisagem tornou-se mais estranha,
Mais cheia de silêncio e de mistério!
Dormem ainda as árvores e os homens,
E dorme, em alto ramo, a cotovia…
E, se ergue já seu canto, é porque sonha
julga ver, sonhando, a luz do dia!

E, pelos negros píncaros, a estrela
É divino sorriso alumiante.
Oh, que esplendor! Que formosura aquela!
É lírio de oiro aberto! É rosa a arder!

Aí vem a estrela! Aí vem, sobre a montanha,
Tão virginal, tão nova, que parece
Sair das mãos de Deus, a vez primeira!

E como, sobre os montes, resplandece!

Persegue-a o sol amado… No oriente,
Alastra um nimbo anímico de luz.
E a antiga dor das trevas, suavemente,
Ondula, em transparência e palidez.

Aí vem a estrela, alumiando a serra!
E os olhos encantados dos pastores
Voltam-se para a estrela… E cá na terra
Há mágoas e penumbras, a fugir…

Como ela voa, cintilando e rindo
Aos penhascos agrestes e desnudos!

E os pastores, atentos, vão seguindo
A direcção etérea do seu voo…

E a quimérica estrela deslumbrante
Parou sobre a capela, onde a Saudade
Agasalhava o Deus recém-nascido,
Com seu manto de amor e claridade.
E, amparando-o nos braços, lhe estendia
Os seios maternais. A criancinha
Mamava. E a Saudade lhe sorria,
Num enlevo, num êxtase sagrado.

A primavera, errante no Marão,
Veio cobrir de lírios e de rosas
O berço do Menino. E veio o outono,
E vieram ermas sombras dolorosas.
Logo, o outono rezou a sua prece

De cinzas e de bruma. E o lindo sol,
Entrando pelos vidros, aparece,
Junto ao pequeno berço. E toda a luz
Do céu veio com ele! E veio a noite.
Vieram as avezinhas, que deixaram,
No recôndito ninho, abandonados,
Os filhos ainda implumes. E cantaram
Em louvor do Menino e da Saudade.

E Marânus sentia, mais alegre,
Tornar-se vida, amor, fecundidade,
A sua antiga e mística tristeza.

E, ao ver a própria alma da sua raça
Criar a Virgem Mãe dum novo Deus,
Eis que à flor dos seus lábios esvoaça
O sorriso supremo da vitória.

E a Saudade, num casto e luminoso
Gesto de amor, tomando, novamente,
O Menino nos braços, o embalava.
E sobre ele inclinava docemente
A fronte aureolada. E uma canção,
Que era feita de todas as cantigas,
Mais num murmúrio brando de oração

Que em voz alta, cantava. E o Deus menino,
Com os olhos abertos, num espanto,
Recebia do mundo a clara imagem
E o seu nubloso e misterioso encanto…

Também o bom pastor, a quem Marânus
Havia prometido o Nascimento,
Sentia em seu espírito surgir,
Envolto num astral deslumbramento,
Estranho e novo ser, que dissipava
O seu velho crepúsculo interior,
Onde um fantasma, trágico e nocturno,
Aparição do medo e do terror,
Furibundo, reinava, desde os séculos!

O Menino crescia, como a aurora
Que, sendo esparso vulto de mulher,
Na linha do horizonte, que descora,
Lembra a auréola dum Deus anunciado…

Em volta dele, as coisas se animavam
Dum sentido mais belo e verdadeiro;
E a sua alma oculta desvendavam,
Como na luz primeira da Existência.

Mundo transfigurado! Ó terra santa!
Ó terra já divina e toda erguida
Àquela altura ideal da Eternidade,
Mais uma vez, a morte foi vencida!

Alguns dias passaram. E Marânus
Disse que ia partir à sua Esposa,
E que se entregava ao casto amor, tão puro,
Desta leal paisagem montanhosa.
E, chorando, abraçava-a, e repetia
Que tinha de partir; mas, dentro em pouco,
Por uma clara noite, voltaria.

E a trágica Saudade, sufocada:

«Eu bem conheço a voz que te chamou!
Voz que ilumina as árvores e as nuvens,
E que meu ser antigo transformou
Neste meu ser anímico e perfeito.»

E, mais serena e resignada: «Vai!
Cumpre a sua vontade. É teu destino…»

E beijando-o nos lábios, e tomando
Em seus braços de imagem o Menino,
Subiu a um alto píncaro escarpado,
De onde ela, por mais tempo, contemplasse
O esposo e companheiro bem amado.

E, sozinha, de pé, sobre um rochedo,
Disse-lhe um longo adeus.
E, já distante,
Marânus, ansioso, para trás
Volvia a face triste, a cada instante.
E parava, cismando…
Mas, ao longe,

O corpo da Saudade, vago e incerto,
Perdia-se, no ar que se turbava…

Anoitecia. A serra era um deserto.
E Marânus seguia o seu caminho.

Teixeira de Pascoaes

Friday, December 19, 2008

Porque ontem nos lembrámos e dissemos de cor...

NATAL E NÃO DEZEMBRO

Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.


David Mourão-Ferreira

Sunday, December 14, 2008

NATAL

Faz amanhã anos o nosso neto Francisco.

O Francisco
O Quico
O nosso segundo neto
O segundo filho da Maria e do Paulo

Por causa da operação ao peito é o único a quem não fiz o casaquinho de nascer.
Comprei-lhe. E não ficou mal, que o rapaz era um lindo bebé.
Salvou-se a manta em malha grossa debruada a fita de xadrês. Ainda tenho ali um restinho dessa fita em seda de xadrez.

Com o Francisco aprendi o gosto pelas bruxas. Lembras-te, uma caixa com sseis bruxas que recebeste num Natal?
Os passeios exaustivos ao Chiado
os museus
o convento do Carmo
e...
e...
e...

Hei-de aprender muito mais com o Francisco.
Ele elogia as minhas malhas
e estou-lhe a dever uma manta para a cama (agora enorme, claro)

O Francisco é escuteiro

O Francisco é
e vai ser
muito mais


Faz treze anos.
Entra nos «teen»

Parabéns, rapaz.
Agarra a vida.
É amanhã o teu Natal.

E AINDA ASSIM, SERÁ NATAL

LADAINHA DOS PÓSTUMOS NATAIS


Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito


David Mourão-Ferreira

Thursday, December 11, 2008

NATAL

Velho Menino-Deus que me vens ver
Quando o ano passou e as dores passaram:
Sim, pedi-te o brinquedo, e queria-o ter,
Mas quando as minhas dores o desejaram...

Agora, outras quimeras me tentaram
Em reinos onde tu não tens poder...
Outras mãos mentirosas me acenaram
A chamar, a mostrar e a prometer...

Vem, apesar de tudo, se queres vir.
Vem com neve nos ombros, a sorrir
A quem nunca doiraste a solidão...

Mas o brinquedo... quebra-o no caminho.
O que eu chorei por ele! Era de arminho
E batia-lhe dentro um coração...

Miguel Torga

Wednesday, December 10, 2008

ENTRE PARÊNTESIS NOS POEMAS DE NATAL(e tão importante...)

Às vezes, poucas vezes,
percorro os blogs dos que me visitam e que visito.
Entre a alegria e a vergonha, li o comentário de eMe e eMe.

E lembrei-me de TEACHER SIMPLE PAST.
Encontrei, mas não consigo comentar.

ONDE/COMO ESTÁ Înês?

P'ra já, um beijo
com saudades.

Quem diria.
Tanta ausência!
Tanto mar!

NATAL À BEIRA RIO

É o braço do abeto a bater na vidraça?

E o ponteiro pequeno a caminho da meta!

Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,

A trazer-me da água a infância ressurrecta.


Da casa onde nasci via-se perto o rio.

Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!

E o Menino nascia a bordo de um navio

Que ficava, no cais, à noite iluminado...


Ó noite de Natal, que travo a maresia!


Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.

E quanto mais na terra a terra me envolvia

E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.


Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me

À beira desse cais onde Jesus nascia...


Serei dos que afinal, errando em terra firme,

Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?



David Mourão-Ferreira, Obra Poética 1948-1988

Tuesday, December 09, 2008

NATAL CHIQUE

Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na minha pressa e pouco amor.

Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.

Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado...
Só esse pobre me pareceu Cristo.

de Vitorino Nemésio

Monday, December 08, 2008

A CADA DIA UM POEMA QUE TE DIGA

Hoje de Miguel Torga:

«Leio o teu nome na página da noite,
Menino Deus ...
E fico a meditar
No milagre dobrado
De ser Deus e menino.

Em Deus não acredito.
Mas de ti como posso duvidar?

Todos os dias nascem
Meninos pobres em currais de gado.
Crianças que são ânsias alargadas
De horizontes pequenos,
Humanas alvoradas ...
A divindade é o menos.»

PARA O ANDRÉ E PARA TODOS OS QUE SE ZANGAM COM O NATAL

De Jacques Prévert

«Noël des ramasseurs de neige»

«Nos cheminées sont vides
nos poches retournées
ohé ohé ohé
nos cheminées sont vides
nos souliers sont percés
ohé ohé ohé
et nos enfants livides
dansent devant nos buffets
ohé ohé ohé
Et pourtant c’est Noël
Noël qu’il faut fêter
Fêtons fêtons Noël
ça se fait chaque année
Ohé la vie est belle
Ohé joyeux Noël
Mais v’là la neige qui tombe
qui tombe de tout en haut
Elle va se faire mal
en tombant de si haut
ohé ohé ého
Pauvre neige nouvelle
courons courons vers elle
courons avec nos pelles
courons la ramasser
puisque c’est notre métier.
ohé ohé ohé
jolie neige nouvelle
toi qu’arrives du ciel
dis-nous dis-nous la belle
ohé ohé ohé
Quand est-ce qu’à Noël
tomberont de là-haut
des dindes de Noël
avec leurs dindonneaux?
ohé ohé ého !»

E se se lembram, este poemaestá musicado.
Cantávamos.
Cantamos.

E faz pensar.
Que é preciso que o Natal não «seja só isto»ou «não seja isto».

Transportamos a pergunta final do poema:
«Quand est-ce qu'à Noël
tomberont de là-haut
des dindes de Noël
avec leurs dindonneaux»

E é só nossa a resposta.

De cada um.

Beijo para todos.

E «um outro Natal»

DIA DA MÃE

Sei que gostava de escrever uma postagem mais longa.

Mas, ainda que já tão tarde,
deixo estas palavras, memória e também vida
do dia de hoje

que sempre foi e é
o dia da Mãe.

Em 8 de Dezembro

Thursday, December 04, 2008

DIZER A ESPERANÇA

Retirado do site da Pastoral da Cultura
com o aplauso de quem sabe que só a Esperança nos sustém.

Sabemo-lo todos, creio.

«A fé que mais amo, diz Deus, é a esperança
A pequena esperança avança no meio das duas irmãs mais velhas e nem sequer se repara nela.
No caminho da salvação, no caminho carnal, no caminho áspero da salvação, no percurso interminável, no percurso, entre as duas irmãs a pequena esperança
Avança.
No meio das irmãs mais velhas!
A que é casada.
E a que é mãe.
E só se dá atenção, o povo cristão só dá atenção às duas irmãs mais velhas.
A primeira e a última.
Que acodem ao urgente.
Ao tempo de agora.
Ao momentâneo instante que passa.
O povo cristão só vê as duas irmãs mais velhas, não tem olhos senão para as duas irmãs mais velhas.
A que está à direita e a que está à esquerda.
E a bem dizer não vê a que está no meio.
A pequena, a que ainda anda na escola.
E que caminha.
Perdida nas saias das irmãs.
E facilmente crê que são as duas grandes que levam a pequena pela mão.
No meio.
Entre elas duas.
Para a fazerem percorrer esse caminho áspero da salvação.
Cegos que pelo contrário não vêem
Que é ela que no meio arrasta as irmãs mais velhas!
E que sem ela elas nada seriam
Senão duas mulheres já idosas.
Duas mulheres de certa idade
Amachucadas pela vida.
É ela, essa miúda, que tudo arrasta.
Porque a Fé só vê o que é.
E ela, ela vê o que será.
A Caridade só ama o que é.
E ela, ela ama o que será.»

Charles Péguy (1873-1914)