Thursday, January 12, 2017

A COLCHA


Azul e cor-de-rosa.
Quadrados azuis e cor-de-rosa.
Quadrado sim, quadrado não, um boneco, melhor, um bicho bordado. Sei o ponto. Sou capaz de o bordar. Mas não lhe sei o nome.
A colcha para cama de criança está em Tibaldinho. Numa gaveta de uma das cómodas no meu quarto.
Os quadrados estão ligados por uma rendinha fina, daquelas de linha número 20 ou mais fina ainda, novelos que só vi em caixas de amostras que vieram de casa da minha Mãe.
À primeira, aquilo é piroso, quiche.
Isso é «à vista». E a vista não é nada. «Ver para lá da imagem»
A minha Mãe cortou os quadrados.
Desenhou-lhe os bonecos.
Bordou-lhes os bonecos e uniu-os todos com os pontos da rendinha.
Horas. Muitas.
Serões de palavras ou silêncios.
Uma criança ia nascer. Rapaz? Rapariga?
Não se sabia.
E depois a ternura que não cabe na gaveta.
O sonho que não cabe na gaveta.
A alegria
A vida do tamanho do mundo.
A colcha tem uma mancha enorme de argirol. Gotas para os olhos.
Hoje talvez ninguém saiba o que isto é. Argirol. Por isso é mesmo melhor deixar assim escrito.
A colcha. Para uma cama de criança. A colcha enorme. Como o amor da minha Mãe.

Como o Amor.

Friday, September 09, 2016

TERESA O NOME

TERESA
Quando eu era pequenita não gostava do meu nome. Não o detestava, mas não gostava muito.
Tenho quase a certeza que mo deram por causa da mãe da tia Ester que se chamava Teresa. Essa razão também não me agradava nada.
Os meus Pais tinham no oratório uma imagem de santa Teresinha de Lisieux e no meu quarto havia um quadro de moldura azul assim piroso, também com a mesma santa cheia de rosas e olhar submisso.
E era dessa submissão que me falavam como virtude.
Um dia, um padre carmelita pediu até à minha Mãe se me deixava vestir de santa Teresinha para eu ir na procissão. E lá fui. Cheia de medo de me portar menos bem.
Esta santa assim não dava comigo.
Foi muito mais tarde que o Manuel, entusiasmado, me trouxe um livro e esse sim revelava uma Teresinha de Lisieux revoltada e insubmissa e não menos santa por isso.
E foi também por essa altura que tanto me interessei por Teresa de Ávila. Pela sua lucidez. Por tantas noites. E por tantas dúvidas.
Uma santa capaz de pensar, de se interrogar e de sofrer a condição humana.
O meu amigo pe Mário Teixeira, com quem sadiamente tive tantas brigas, disse-me um dia ou mais que um dia «Tu e Teresa de Ávila»
Ficou em casa dele o vídeo da sua vida que me quis dar.
Dela quero lembrar e quero viver "Nada te turbe, nada te espante. Tudo passa.(…). Só Deus basta!"
Ao longo dos anos o meu nome tem vindo a fazer sentido.
No domingo passado, Teresa de Calcutá foi proclamada santa pelo Papa Francisco.
Dessa lutadora pelos mais pobres de entre os pobres, transcrevo as palavras
«Tantas questões não respondidas vivem em mim. Temo revelá-las por causa da blasfémia. Se houver Deus, por favor perdoe-me.»
Sim, gosto muito do meu nome.
Teresa.

A dúvida, a dor, a noite, a firmeza de alcançar a fé.

Saturday, August 27, 2016

UMA BENDITA ARAGEM

Saí para jantar com a Ana e o André.
E três netos, uma bela metade.
Guardo-lhes as palavras.Os sorrisos. O ataque esfomeado do António mal chegou o seu prato. As piadas do Manel, imensas. As queixas escondidas do Bernardo ao tio (é ele que vive comigo, pois).
Guardo a ternura dos presentes, como disse o André «da cabeça as pés» - um aparelho para cuidar mesmo dos pés e CDs de Aznavour com ajuda do Bernardo.
Guardo tudo com muita gratidão.
E ao sair do restaurante uma bela surpresa. A Ana encontrou uma amiga, apresentou-me. E a senhora « O António é tão parecido com a avó».
Rua fora, uma bendita brisa.
Passos benditos.
Vida

Monday, December 28, 2015

Que é a morte senão esse buraco escuro sem retorno?
E esse medo?
Esse medo que paralisa o dia?

Sunday, November 22, 2015

 O Amor há-de ser na vida como o ambiente de trabalho no nosso computador.

Tuesday, November 17, 2015