Tuesday, April 21, 2015


Digo-tos, Senhor,
esses setecentos migrantes que atravessavam o mar rumo a Itália.
E que naufragaram.
Bem sabes
que eram homens e mulheres como eu.
Eram teus filhos
 Eram meus irmãos.
Vinham guiados pelo sonho de uma luz ou de uma estrela que rompesse a escuridão dos dias.
Guiados pela esperança de uma mão solidária e de um pão repartido.
Guiados pelo vislumbre de um lugar à mesma mesa.
Eram vítimas de guerras.
Vítimas de uma vida sufocada,
perseguida e faminta.
De uma vida ferida e expIorada.
E o que procuravam, Senhor, era apenas uma vida melhor.
Não procuravam uma vida fausta nem riqueza.
Nem poder.
Apenas uma vida melhor.
O seu lugar, o seu quinhão no mundo que para todos criaste.
Igual.
Atravessaram esse mar de esperança,
E naufragou a esperança num grande mar de morte.
E naufragou a esperança num grande mar de dor,

Digo-tos, Senhor, a esta hora.
Digo-tos sempre.
E entrego-te na noite as minhas mãos
que por dom de todos se fazem companheiras.




Saturday, December 27, 2014

 NATAL

Um Natal mesmo Natal,
pequenino e humilde
como tudo o que foi acabado de nascer
primicias de seara
passo primeiro
olhar de espanto
Natal

Thursday, November 20, 2014

URGENTE OS SORRISOS

Morreu no meu bairro aquele senhor, que percorria as ruas de bicicleta com um radio que tocava música.
Faz-nos muita falta.
Era o seu jeito de dizer que existia.
E que o olhássemos.
Era o seu jeito.
Faz-nos falta.


Há uns anos já escrevi sobre ele. Assim:


URGENTES OS SORRISOS
«São urgentes os sorrisos.
Corroem-nos dores, dúvidas e tantas incertezas.
São urgentes, Senhor, sorrisos ou palavras, que digam Alegria.
Por tudo isto quero nesta manhã louvar aquele senhor que numa bicicleta velha com um rádio ligado no volume mais alto, percorre firme e convicto as ruas do meu bairro e as vai enchendo de canções.
Oiço pequenos grupos às esquinas. Quem é este homem? Deve ter um problema qualquer. É LOUCO.
Bendigo, Senhor, esta loucura.
Tantas vezes os profetas foram chamados loucos.
Os poetas também.
E são deles os gestos essenciais.
Os nossos dias, agora tão cheios de sol, estão prisioneiros de medos e mais parecem noites de pesadelo.
Este senhor insiste e como por milagre enche as ruas de música e alegria. Finalmente sorrimos.
Louvados sejam, Senhor, todos quantos Te anunciam assim e
dizem a Alegria contra todas as correntes.»

Saturday, November 08, 2014

PORQUE QUERO TANTO SER ARRASTADA PELA ESPERANÇA


Encontrei hoje estas palavras de Péguy sobre a Esperança:
«A pequena esperança avança no meio das duas irmãs mais velhas e nem sequer reparamos nela.
Só damos atenção às duas irmãs mais velhas
Que acodem ao momentâneo instante que passa.
Só temos olhos para as duas irmãs mais velhas.
E não vemos a que está no meio,
a  pequena que caminha.perdida nas saias das irmãs.
Facilmente acreditamos que são as mais velhas que levam a pequena pela mão.
Cegos não vemos que é ela que arrasta as irmãs mais velhas
E que sem ela, elas nada seriam
senão duas mulheres idosas,
amachucadas pela vida.

É ela, essa miúda, que tudo arrasta.

Porque a Fé só vê o que é.
E ela vê o que será.
A Caridade só ama o que é.
E a Esperança ama o que será.»

Nesta noite, Senhor, tanto Te imploro o dom da Esperança.

Da humilde Esperança.

Friday, October 31, 2014

Monday, October 27, 2014

A HORA QUE MUDOU, UM QUARTO DE HORA A MAIS

Sempre que a hora muda, lembro as palavras de Sebastião da Gama que me deu a conhecer a sempre minha professora Manuela Granés.

Assim:

«Que bom ter o relógio adiantado!...
A gente assim, por saber
que tem sempre tempo a mais,
não se rala nem se apressa.
O meu sorriso de troça,
Amigos,
quando vejo o relógio
com três quartos de hora a mais!
Tic-tac, Tic-tac
(Lá pensa ele
que é já o fim dos meus dias.)
Tic-Tac, ...
(Como eu rio, cá p´ra dentro,
desta coisa divertida:
ele a julgar que é já o resto
e eu a saber que tenho sempre mais
três quartos de vida.)

Saturday, October 11, 2014


FIO QUE DESLIZA

Não consegui encontrar imagens das quintas que o meu avô cultivava no Campo Grande.
Também nelas vivi, criança e menina.
Feliz e livre.
Uns quatro anos mais tarde já não havia quintas,
Não mais esses lugares onde crescera entre papoilas, vacas, hortaliças.
E aí voltei entusiasmada e estranha, quando entrei na faculdade, o primeiro ano de Letras, de Direito, de Medicina, no Santa Maria.
Para vir para Campo de Ourique tomávamos um autocarro (verde) numa paragem na grande rua.
Entrei num mundo outro, que estranhei e amei.
Num caderninho de poemas de 58 leio esta estranheza em metáfora de autocarro.
 Assim :
" Que estranho é estar impaciente
à espera que passe um autocarro verde.
Como se ele não tivesse que vir
e não fossemos levados como os outros
e sentados depois num banco sempre igual p´ra cada um,
um banco que não é azul,
mas verde
como a realidade verde
dum autocarro-vida que desliza.»

Bom seria voltar a esta unidade.
A infância, uma quinta.
A juventude, a novidade de uma paragem de autocarro-vida que desliza.
Que sempre desliza.

 E agora volto a esta malha, prece de afecto e de ternura. E julgo que desvendo o mistério.
 Fio / Vida que desliza e se firma.
 Sempre em pontos de afecto.
 Lançado na infância
Parte inferior do formulário



Sunday, July 06, 2014

O TELEFONE

Só assim nestas coisas, e na bengala que tem que ser, nos pesos que não consigo carregar, em tantas outras debilidades a que procuro não vergar, é que me dou conta que tenho já muita história, isto é, muita idade. Este blog tem estado abandonado. Hoje, resolvi dar-lhe um soprozinho. Por causa de um telefonema que animou a manhã «não quer sair?», é que eu quis escrever sobre o telefone. E deixo de lado o telemóvel. Vivi uns treze anos sem telefone em casa. Só o da Leitaria, onde mais ou menos toda a gente de Campo de Ourique ia telefonar. Um dia, veio p´ra nossa casa um telefone. Preto, com os números nuns buracos que tínhamos que discar. Uma festa! Foi assim que conheci a minha grande amiga Carlota. Sozinha em casa, eu ia telefonando. Tinha até descoberto como se abria a caixa onde caíam os cinquenta centavos! Portanto eu telefonava sem gastar. Muito o Manuel e eu namorámos ao telefone. Poemas de cá para lá. Vida de lá para cá. Ideais de cá para lá. Projetos, tantos … Quando casámos na nossa casa houve sempre telefone. Chegou rapidinho, talvez à conta dum jeitinho do António. Hoje, é um objeto, não, não é um objeto, é um ser íntimo que aqui habita e me habita. Tão longe da forma original! Tão longe do uso original! É um grande companheiro o telefone. Um companheiro que manejo como quero. Atendo ou não atendo. Dou mais ou menos tempo à voz do outro lado. Exercito o silêncio. Ou digo uma palavra. Ou digo muitas palavras. Oiço e às vezes não oiço. Por aí… Todas as circunstâncias da vida num telefone. E toda a vida num telefone. É mesmo muito bom ter um telefone.

Thursday, January 23, 2014

À NOITE

Só agora consigo sentar-me assim na sala. Enfim tranquila. Olho a televisão enorme. A parede ao fundo. Uma planta verde que cresce sei lá como. E gosto. Não tocam os telefones. Gosto deste silêncio. Gosto da planta verde. Gosto enfim de estar assim na sala. E gosto enfim de estar assim sozinha.

Friday, November 22, 2013

MÃE

Lembrei-me, sim. E é sempre a festa. E a firmeza. Os bordados de Tibaldinho. A arca. A casa. A Leitaria Ecila. A gargalhada. A estrutura que a cada instante me diz VAI.

Saturday, October 12, 2013

BLUE JASMINE

Uma coisa tão boa deste dia. fui ver «Blue Jasmine». Sempre atraída por Woody Allen. E gostei tanto. Tudo para pensar. Tudo para reflectir. Revi-me em muitas situações. Revi-me e «colei-me» a tantas situações.E bom, mesmo bom foi a companhia. Amiga que como eu gosta de se sentar para dar dois dedos de conversa. Trocar impressões. Sentámo-nos e o filme ficou dentro.

Tuesday, October 08, 2013

ESTOU AQUI À ESPERA DE NADA

Ouvi esta frase/oração que me parece tranquilizar a vida, os dias, todos os sobressaltos, as tantas tarefas que julgo sempre que me cumpre realizar(!!!). Esta frase/oração que há-de ajudar-me a uma entrega enfim confiante. Por fim confiante. "ESTOU AQUI À ESPERA DE NADA." Quero dizê-lá. E voltar a dizê-la. E voltar a dizê-lá.

Sunday, September 29, 2013

RESISTENTES

Às vezes, muitas vezes, a chuva é a serenidade por fim poisada nos dias. Hoje, dia de votações autárquicas, a chuva é mais uma razão inventada para não ir votar. Bem ao contrário, um casal muito idoso, talvez com poucas posses e muitas despesas de saúde, afirmou-me ontem convicto no supermercado "Vamos votar. Vamos, claro. Não ficamos mais pobres por ir de taxi". E de certeza, vão. Que indiferença, que inércia deixa p'raí tanta gente sentada e adormecida no sofá da sala? A televisão serve. Prende-nos numa gaiola QUE NÃO É A VIDA. A vida hoje está na rua. Ainda que com muita abstenção. MAS RESISTENTE.

Saturday, September 28, 2013

VOU VOTAR, MAS NÃO É UMA FESTA

Vou votar. Vou votar mesmo. Luto académico de 62. Desde sempre a Vida se teceu em causas. Em valores. Em muita teimosia. E muita convicção. Hoje ir votar é uma consciência. Mas não é uma Esperança. Não é uma Alegria. Como estarão amanhã as ruas do meu bairro?

Wednesday, September 25, 2013

GOSTAR DE FRANCÊS

Não é difícil encontrar uma boa notícia em cada dia. No sábado, foi tão inesperado. A Mãe tinha-me dito que o Manuel estava a gostar de Francês. Com sorrisos, o do rapaz é mesmo lindo, provoquei-lhe duas frases. Boa pronúncia mesmo. E na segunda-feira lá estava eu no Instituto Francês a subir uma escada, com a minha linda bengala e o entusiasmo dos meus dezasseis, dezassete anos para comprar um livrito ao Manuel.Nesse dia e no outro e no outro talvez, tu foste, no és também o meu alento. UMA BOA NOTÍCIA.

Sunday, September 22, 2013

OUTONO

Estamos tão cansados deste calor. Estamos mesmo tão cansados. De viver assim. Amanhã ou hoje mesmo é sempre um dia tão incerto e tão difícil. Cansam-me até as ruas do meu bairro. Os rostos sem sorriso. Espelho dos meus. A vida sem Esperança. Ou quase. A vida sufocada. E chega assim o Outono. Quase certa é a alegria de poder pisar as folhas secas. E agarrar a serenidade de um qualquer vento fresco. Que há-de vir.

POR UM QUILO DE CENOURAS

No fim de semana passado fui ao encontro do Pedro Nunes - o euro, Portugal, a Europa. E o meu liceu. Aí fui aluna. Uma década depois fui professora. "Estou em casa". Mas, o assunto desta postagem é o euro. Foi para mi uma aprendizagem muito básica. Eu tinha ido à praça na véspera. As cenouras custavam 80 escudos. O euro passa a ser a nossa moeda. Volto à praça. As cenouras custam 80 cêntimos. Insurjo-me. A resposta que recebo é "Mas é muito barato. Nem custa 1euro."Não sei se esta é a razão por que estamos neste estado. Mas é também uma razão. Pensar não é coisa muito complicada. Parece-me. Não, tenho a certeza.

Tuesday, September 10, 2013

Sunday, September 01, 2013

NO FUNDO DA GAVETA, UM POEMA

Em Tibaldinho, entre tarefas bem pouco agradáveis, tarefas que me passavam ao lado porque alguém as fazia por mim, há pequenos/grandes milagres em gestos de nada como por exemplo abrir uma gaveta. Foi naquela da mesa da televisão que encontrei, como recordação do casamento da Cláudia e do Luís, este poema de Eugénio de Andrade. Deixo-o aqui. O meu sustento de poesia. Hoje. "Aqui e estão as mãos./ São os mais belos sinais da terra./Os anjos nascem aqui:/frescos, matinais, quase de orvalho,/ de coração alegre e povoado.(...)/Alguns pensam que são as mãos de deus,/ - eu sei que são as mãos de um homem,/trémulas barcaćas onde a água,/a tristeza e as quatro estações/penetram, indiferentemente./ Não lhes toquem:são amor e bondade./Mais ainda:cheiram a madressilva./São o primeiro homem, a primeira mulher./E amanhece."

Thursday, August 29, 2013

ANDRÉ

Esperámos-te na noite. Há quarenta e seis anos. Ansiosos. Felizes. O Pai e a Avó Alice ali comigo. Não foi um parto só da Mãe. Também no nascimento da tua irmã lá estavam os dois. Sem falar nos Avós. No Tio João. MEU AMOR. E inconscientes sonhávamos, supúnhamos que nascias para uma Vida sem dor. E que te havíamos de dar a eternidade. Demos-te a Vida. A tua Vida. A condição humana. E em tudo o que podemos, partilhada. Nesta noite teço os teus dias em contas de oração. E de louvor. E onde quer que o Pai esteja, ele está perto.

PUDÉSSEMOS NÓS INVERTER A CORRENTE

Ontem recebi um mail que dizia "O dia que Albert Einstein tanto temia chegou". A seguir seis imagens com situações várias em que cada pessoa tinha um telemóvel e, ainda que rodeada de outras pessoas ou de paisagens, só o telemóvel era o seu comunicador. Fala-se com o telemóvel, ainda que ao lado esteja o amigo, o namorado, quem quer que seja, ou se esteja à mesa, na praia, num museu! Sim, chegou o dia. O mail enviava também o texto de Eintein "Tenho medo do dia em que a tecnologia se vai sobrepor à interação humana. O mundo terá uma geração de idiotas." Sei o que é a dependência do telemóvel. Faço uma ligação, envio um SMS, trago-o na carteira. Se o esqueço em qualquer lado, fico inquieta. Realmente ...que cadeias prendem a vida! Estou em Tibaldinho, a aldeia da vida toda. Sempre escrevi postais. É um impulso quase obsessivo ou mesmo obsessivo. Dantes algumas senhoras de Campo de Ourique, quando eu voltava de férias, diziam-me "Sabe, tenho os seus postais numa gaveta com uma fitinha."Isto era muito bom. Agora ainda escrevo alguns. Poucos. Vou a Mangualde ou a Viseu, entro no Museu de Grão Vasco ou numa papelaria, pergunto por postais, é quase estranho. Espero. E lá aparecem alguns. Neste pequeno gesto, julgo que rumo contra a maré. Com palavras escritas p'lo meu punho, um postal procurado, um sêlo que é preciso comprar. Tempo. De ser pessoa. Para outra pessoa. E acho que vale.

Thursday, August 22, 2013

DE COMBÓIO

Volto a Tibaldinho. De combóio. Já não é "o pouca-terra, pouca-terra", nem tem fagulhas que nos sujem. Mas tem a mesma serenidade, suspeita dos pinhais, do verde que sempre procuramos. Que nos hão-de suportar em todos os ruídos. Em todos os gêlos. Suportar? Não, "que hão-de ser antes a essência dos dias." De todos os dias.

Monday, August 19, 2013

8 837, 09 euros de IRS

Acabei de pagar. Aí há duas horas. Alguém é capaz de fazer umas apostas sobre quanto é que eu recebo em cada mês, ainda que "para o mês que vem, nunca se saiba"? Sabia o que me esperava e fui juntando ao cêntimo. Lá paguei, ainda que tenha feito uma reclamação. Gosta de perceber o que é que realmente eu estou a pagar. E a quem?

Friday, August 16, 2013

"SABEMOS PARA ONDE QUEREMOS IR" Pedro Passos Coelho

Já ouvi "isto". Tenho idade. Tenho memória. Sei quando é que ouvi. A quem ouvi. Em que situação ouvi. E é uma muito má memória. Senhor primeiro ministro, tenha idade e vida para lhe pedir que tenha respeito pelos portugueses.

Thursday, August 15, 2013

UMA FOTOGRAFIA

A força das palavras do Manuel, lembradas e escritas tantas vezes pelo André julgo que como metáfora da sabedoria, têm sido, para mim, palavras presentes, palavras reflectidas, palavras fortes pela vida dentro. «Ver a imagem para lá da imagem». Mas foi no dia 8 (73 anos, graças a Deus), que sabendo que por cá havia de aparecer alguma família, alguns amigos, desdobrei-me em mesas e loiças, e de repente, à procura de uma fotografia dos meus sobrinhos e dos meus filhos para mostrar «como cresceram», encontrei uma lindíssima em que o André está no quintal de Tibaldinho, coberto de mal-me-queres rasteirinhos, pela Páscoa, 7, 8 anos, um sorriso enorme, feliz, agarrado a um cão de sonho, talvez um serra da estrela. Mostrei-a. Feliz também. E o André «Mãe, esse foi um dia muito triste para mim.Chorei tanto, mãe» E eu sem perceber nada. Explicou «Vocês proibiram-me de andar com aquele cão». Como é que palavras tantas vezes impensadas podem matar a felicidade? Raramente temos consciência «do que está nas nossas mãos» quando somos pais, professores, amigos ....É importante deixarmo-nos surpreender mesmo que seja aos setenta e três anos (confesso que me tenho surpreendido muito mais nestes últimos anos). «Ver para lá da imagem» não é sempre possível. Bem que o Manuel o dizia com dor quando falava da sua arte de realizador a que se referia como sendo «aprendiz de feiticeiro». Bom que eu tenha encontrado a fotografia. Bom que tenha percebido ou tenha começado a perceber (aprendizagem longa) que tantas vezes uma fotografia não diz a vida. A dor não costuma ser fotografada quando se trata de um album de família.

FILME DE TERROR - REALIDADE DE TERROR

Chego a casa. Ligo a televisão. Notícia - UM ÚNICO SERVIÇO DE URGÊNCIA EM LISBOA. E não é um filme. É no meu país. Na minha cidade. E no meu país, na minha cidade, há homens e mulheres?

ESPLANADAS SEM ABRIGO

Vou muitas vezes a uma esplanada. Obrigo-me com gosto a estar numa esplanada. É-me mais fácil ler, escrever. Vivo também e respiro de ler e de escrever. Numa esplanada só sou interrompida se quiser ou se deixar. Posso "fazer o meu horário" (sempre a Escola ... ). Às vezes, muitas vezes, interrompo tudo para trocar palavras. E oiço vidas. Narro a vida. Trocamos um sorriso. Um endereço de mail. E cada vez mais amiúde decido p'lo silêncio. É então que procuro esse jeito difícil de ver para lá de todas as imagens, de ouvir para lá de todas as palavras, de todos os gritos. De todos os silêncios. E vai-me parecendo que tantos de nós, homens e mulheres ali na esplanada, me parecem homens e mulheres sem-abrigo. Ou não será que não somos todos sem-abrigo? Sim, sem-abrigo. A condição humana. Assim

Sunday, July 28, 2013

O QUE NÃO ALCANÇAMOS

Voltar a Tibaldinho, voltar a um qualquer lugar ou apenas ir a um qualquer lugar, pode parecer e tantas vezes parece que "há-de estar lá" tal móvel, tal jardim, tal árvore, tal janela, quiçá o prato e o talher da infância ou o que resta da trave do baloiço. E pode acontecer que o móvel ainda é "aquele móvel", que o jardim lá continua e também a árvore, mais seca ou mais frondosa. Assim como a janela. E o prato e o talher e até a trave do baloiço. Mas as pessoas não. A vida. A liberdade. O pensamento. O querer tão só de cada um. As pessoas são todas o mistério. O inesperado. O insondável. As pessoas são tudo o que não cabe no móvel, não cabe no jardim, nem na árvore. Nem na janela, nem no prato ou na colher. As pessoas não cabem na trave do baloiço. As pessoas são o que não alcançamos. E que havemos de amar. Assim. Tal qual. Na aceitação do que sempre há-de ser desconhecido.

Saturday, July 27, 2013

TIBALDINHO

Estou em Tibaldinho. Mais um dia talvez. A intenção é voltar breve. Aproveitando as pausas que só tenho aqui, reli alguns textos do início deste blog. A certa altura, a propósito de um amigo que ia para Roma, escrevi qualquer coisa como "Tenho saudades de Roma. (...) De certo modo estamos sempre nos lugares que amamos." Estamos. Sempre nos lugares que amamos.

Thursday, July 25, 2013

VAMOS À NOSSA MERENDA, PRIMO FERNANDO ESTEVES?

Esta foi a última pergunta/convite que me fez, primo Fernando. E suspeitávamos os dois que era a última. Engano enorme. Nenhuma das suas palavras, nenhuma das suas causas, dos seus afectos, dos seus sorrisos será último. Bem-haja, como sempre disse. Bem-haja por tudo. Parece que vou amanhà ao seu enterro em Tibaldinho. Só parece. Da janela do escritório, suspeito sempre a vida da sua casa. Ao alcance do abraço. Do sorriso tranquilo. Da novidade de todas as manhãs de Tibaldinho. Sempre

Saturday, July 20, 2013

DE CONSCIÊNCIA TRANQUILA

No meu país, através da televisão ou das rádios, oiço perplexa cada um dos dirigentes partidários ou dos seus porta- vozes que TODOS ELES ESTÃO DE CONSCIÊNCIA TRANQUILA. E realmente não consigo ver, não consigo medir, não consigo pesar a consciência de ninguém. Mas consigo vislumbrar a falta, a fome, a inquietação, o desespero, o nada. O nada aonde chegou o meu país. Aonde também eu deixei chegar o meu país. E NÃO ESTOU DE CONSCIÊNCIA TRANQUILA.P

Thursday, June 27, 2013

Sunday, June 16, 2013

PRONÚNCIA FRANCESA, OBRIGATÓRIO

E se António José Seguro aprendesse um pouquinho só de pronúncia francesa? Verdade que nunca tive assim nenhum aluno! É claro que não.

Monday, June 10, 2013

CASA DO ALENTEJO

Pois foi uma surpresa cheia de emoção quando hoje vi e ouvi que «A Casa do Alentejo» comemora hoje 90 anos. Verdade que foi aí, há cinquenta anos e uns meses, a festa do nosso casamento. Uma bela notícia. Uma bela festa. O início de uma bela vida. E a casa é linda. Nós gostámos.

Sunday, June 09, 2013

QUANDO SE TRANSFORMA O AMADOR NA COISA AMADA

Para reflectir que acontece, que pode acontecer "quando se transforma o amador na coisa amada"?

Saturday, June 08, 2013

O HOSPITAL E AS SARDINHAS

P'ra levar um sorriso a uma amiga, fui ao hospital, como se fosse a primeira vez depois "daquilo tudo". Naturalmente, há-de ser sempre a primeira vez depois "daquilo tudo". Bem me parece que hoje preciso muito de rir e de sorrir. Talvez umas sardinhas na "Cervejaria Europa". Deve ser isso mesmo. Umas sardinhas ...

Saturday, June 01, 2013

TOMARA QUE A SENHORA NÃO PERCEBA

Um dia fantástico. Sair de casa é vital. Um café e uma água no Ruacaná. A seguir vou fazer uns pagamentos na CGDepósitos. Entro. Uma senhora bem idosa e bem perdida. Que o neto lhe tinha levantado a pensão. Mas que já não tinha senão umas moedas . A caderneta na mão. Ilegível. Amachucada. Não consigo metê-la na ranhura. Percebo que a D Augusta sobrevive, nem sei como, dos roubos dos netos. "São muito bons" afirma. E volta a afirmar. "São muito bons". E vive os dias.

Thursday, May 30, 2013

28 de Maio de 1926

Um conselho, sobretudo para mim. Uma viagem até 28 de Maio de 1926. A História que é bom lembrar. Para melhor percebermos. Para melhor nos percebermos. E interrogarmos.

Wednesday, May 15, 2013

FESTIVAL DE CANNES

O Festival de Cannes em nossa casa é e foi sempre um vôo de alegria, janela para esse outro olhar a que o cinema sempre nos convida. Nunca fomos. Nem o Manel. Nem eu. Mas foi sempre «como se...». Hoje inicia-se este Festival. Hei-de acompanhá-lo de perto. E, na aparente estranheza das palavras, tenho muitas saudades do Festival de Cannes.

Saturday, May 04, 2013

CAMILO PESSANHA, em véspera do Dia da Mãe são estas as palavras que aqui quero deixar

"Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho/onde esperei morrer, - meus tão castos lençóis-?/Do meu jardim exíguo os altos girassóis quem foi que os arrancou e lançou no caminho?/Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)/ A mesa de eu cear, tábua tosca de pinho?/ E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?/ - da minha vinha o vinho acidulado e fresco.../ Oh minha pobre mãe!...Não te ergas mais da cova./ Olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova .../ Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve./ Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais./ Alma da minha mãe ...Não andes mais à neve/ de noite a mendigar às portas dos "casais"."

Thursday, May 02, 2013

Esperamos o quê do comunicado de Passos Coelho?

Não espero nada. Temos mais que razões para não esperarmos nada. Este senhor ainda espera a nossa boa vontade? Não pode esperar. Não pode. Há uma espécie de loucura avulsa e sem rumo que nos impóe cortes, cortes, cortes ... Para quê? E até hoje para quê? País sem luz.

VIDA

Realmente, André, o tempo não é nada. Entrelaçamos a Vida. Sustêm-nos os laços.

Friday, April 26, 2013

SILÊNCIO

Finalmente, gosto do silêncio. É enfim que escrevo. Leio. Penso. Devagar. Fundo. Fazes-me tanta falta, sim. E tão tarde aprendo o silêncio. Onde te escuto. Nos escuto. Falamos como sempre. Os dois. E é muito bom.

Thursday, April 25, 2013

25 ABRIL I

Com uma ânsia semelhante àquela com que liguei a rádio na madrugada de Abril, logo de manhã carrego no comando da televisão e vejo, revoltada, como primeira notícia, A PRISÃO DE ISALTINO MORAIS. Até parece que dá jeito. E ENTÃO EM SEGUNDA NOTÍCIA,ENVERGONHADA, «COMEMORA-SE HOJE O 25 DE ABRIL». Pois...

Friday, April 19, 2013

ANTÓNIO MARIA

António, quando tudo e todos se preparam para festejar contigo a tua Primeira Comunhão, quero dizer-te que sempre é verdade que "O mistério está todo na infância". A avó Teté, só ao fim deste tempo todo, é que acredita nisto. É uma descoberta que se faz muito devagarinho."O mistério está todo na infância." E envolvemos-te de amor e ternura. Que bom, António!

Monday, April 15, 2013

DUAS NOTÍCIAS

Notícia 1 A filha do presidente de Angola é a primeira mulher bilionária africana (1000 milhões de dólares)./ Notícia 2 A UNICEF precisa de 4 milhões de dólares para salvar as crianças angolanas subnutridas.

Saturday, April 13, 2013

SÓ A FOTOGRAFIA ..

É no rosto que se vê. Eu teria apostado que estava tudo igual. O mesmo sorriso aberto. Brilhante. E só quando um amigo me deu uma fotografia deste tempo-agora, percebi "que não estava tudo igual". Um sorriso sim. Sereno. Num olhar a que falta/a que faltas. Procuro e encontro a vida. Nas ruas que percorro. Nas pessoas que as cruzam. No gesto. No abraço. No livro que vou lendo como se alguém fosse ouvir um comentário. E no filme que vejo. Aí guardo as palavras. Onde guardo as palavras? A vida vale. E muito. Só que tudo parece o arroz doce que a minha mãe fazia. Procuro ser eu agora. E ponho os mesmos ovos. O mesmo arroz. O mesmo leite. O mesmo açúcar. Mas não sai o mesmo doce.

Tuesday, April 09, 2013

E SE NOS FALTASSE O QUE NÃO É NECESSÁRIO?

A propósito de um telefonema que um dos meus filhos fez movido pela amizade, alguém me disse que não lhe parecia que tal telefonema tivesse sido necessário. Não vou aqui, nem em lado nenhum, imaginar o que leva uma pessoa a tal comentário. Mas deixo a todos esta pergunta - COMO SERIA A VIDA SE NOS FALTASSE O QUE NÃO É NECESSÁRIO? O amor, a amizade, a memória, uma flor, uma carta, uma fotografia, um filme, a música, o sino, um nome, o céu, a Via Láctea, o cheiro, um sorriso, uma lágrima.... o que é que é necessário?

Sunday, April 07, 2013

BOUTIQUE DOS LEITÕES EM CAMPO DE OURIQUE

Não consegui postar uma fotografia. Mas é mesmo tão giro. Aqui. Em frente à nossa casa. Eu ia vendo o espaço que se remodelava. Nao sabia o que iria aparecer. Ontem abriu. Boutique dos Leitoes. Três mesas cá fora. Cadeiras. Apetecível. Não fui, que estas coisas quando abrem, bem ... Hoje entrei. Julguei que nao podia comer nada, mas uma senhora logo me ofereceu um pãozinho com recheio de leitão. E eu que sou difícil, achei mesmo muito, muito bom. Comprei uma caixinha com oito destes pãezinhos congelados. Ficam na arca. Depois, p´ra se comerem, uns minutos no forno. Não tenho nenhuma cota nesta boutique. Mas tenho no meu bairro. CAMPO DE OURIQUE. Aconselho uma visita.

Tuesday, March 19, 2013

TESOUROS

Hoje, Dia do Pai, quero dizer o meu Pai, o meu sogro, realmente um Pai e o Manuel. Entre papéis pequeninos, encontro um poema que um dos nossos filhos escreveu ao Pai. E partilho-o: « O pano cai,/ ao fundo o sonho,/ ao lado alguém/ com ele caminho/ o sonho mais perto/ com ele pressinto/ o fundo decerto/ não pode fugir,/ não pode sair/ e não sai./ No sonho entrámos./ E ao lado? Meu Pai.»

Tuesday, March 12, 2013

O INÍCIO DO CONCLAVE

Sim, emocionei-me ao ver e ouvir o colégio dos cardeais quando cantaram a Ladainha de Todos-os-Santos mesmo antes de iniciarem o Conclave. Aí somos muitos. Somos todos. Tanto o Manuel e eu gostávamos e gosto de festejar a Festa de Todos-os-Santos. Sim. Acrescentei «S Manuel Frazão, rogai por nós». E tantos. Tantos

Wednesday, February 27, 2013

POEMA A GALILEU

Tão actual. Sempre a distracção parece sedutora. Pensar, procurar, buscar a verdade parece incómodo, irritante. A ver se consigo postar um vídeo de António Gedeão (Rómulo de Carvalho) que diz o poema E não consigo ....

CORAÇÃO DE MISERICÓRDIA

Transcrevo a Oração da RR do pe António Rego. Aplaudo-a. Bem preciso, bem precisamos que se faça nossa. «Prontos para apanhar as pedras foram cercando a pecadora A morte era o castigo justo pelo pecado Condenar, condenar à morte mesmo antes de qualquer sentença ou melhor, a sentença foi dada antes da confirmação de qualquer transgressão. É réu. E basta isso para condenar à morte. Em boa verdade, o que falta aqui é apenas um coração de misericórdia. E quem sabe em verdade o que é a misericórdia és tu. Apenas tu. Todos os nossos corações estão viciados pela justiça estreita que acaba por não ser justiça por lhe faltar a medida da misericórdia. Tem piedade de todos. Sobretudo dos que não se aceitam como pecadores...» Pe. António Rego

Monday, February 25, 2013

A NOITE DOS ÓSCARES

Sempre esta noite assim. Faz-me falta o teu entusiasmo. Só que o cravaste em mim. E, é claro, fico. Sei que antes do final, eu hei-de adormecer. Foi sempre assim. De manhã, carrego no comando se tiver apagado a televisão. Num relâmpago, a imagem. E como disseste ao André e hás-de dizer-lhe sempre e hás- de dizer-nos sempre "vê para lá da imagem". É bom que o nosso neto Francisco fique a ver! Todo o passado e todo o presente nos diz a eternidade.

Sunday, February 24, 2013

A VIDA

"A maravilha que é estarmos entre os vivos, na vida" David Mourão Ferreira" Oiço-o, vejo-o, leio-o, digo-o verso a verso, cheiro-lhe o cachimbo e a voz. E quanto aplaudo!

Saturday, February 23, 2013

FOGUEIRAS DA INQUISIÇÃO

Não, não é só a comunicação social ( a revista Visão deve ter vendido muito bem. É desonesto) As fogueiras da Inquisição existem. Para calcar. Para destruir. Para matar. E o senhor, D. Carlos Azevedo, lembra-me Galileu. Com dor.

Thursday, February 21, 2013

D. Carlos Azevedo

Sempre admirei D Carlos Azevedo. E admiro. Não há sensacionalismo mediático que possa destruir a pessoa de D. Carlos, creio. Em que inferno deixamos que nos lance a comunicação social?

Monday, February 18, 2013

PRÓS E CONTRAS

Ontem, João César das Neves, exaltou-se e prestou um muito mau serviço à Igreja. Na verdade, cada vez mais tenho a certeza de que a Igreja só precisa procurar ser mais e mais semelhante ao seu Senhor, Jesus Cristo. João César das Neves queria impor a sua razão. Porquê? Queria ganhar o quê?

Sunday, February 17, 2013

de Clarice Lispector

«Corro perigo Como toda pessoa que vive E a única coisa que me espera É exatamente o inesperado»

Thursday, February 14, 2013

UM SOL SOBRE AS NOITES

Senhor, dá a todos nós, o dom do sol e da paz sobre as dores tantas, que sufocam a vida.

QUARTA-FEIRA DE CINZAS de T S ELIOT

Havia de ter postado ontem.Sempre alguns atrasos na condição humana...E que importa? QUARTA-FEIRA DE CINZAS (...) Porque sei que o tempo é sempre o tempo E que o espaço é sempre o espaço apenas E que o real somente o é dentro de um tempo E apenas para o espaço que o contém Alegro-me de serem as coisas o que são E renuncio à face abençoada E renuncio à voz Porque esperar não posso mais E assim me alegro, por ter de alguma coisa edificar De que me possa depois rejubilar Porque estas asas de voar já se esqueceram E no ar apenas são andrajos que se arqueiam No ar agora cabalmente exíguo e seco Mais exíguo e mais seco que o desejo Ensinai-nos o desvelo e o menosprezo Ensinai-nos a estar postos em sossego. Rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte Rogai por nós agora e na hora de nossa morte.

Wednesday, February 06, 2013

JOANA

Obrigada, Joana, pela atenção. Pelas palavras. Pela empatia. É tudo bom.

CAMPO DE OURIQUE. FIM DA TARDE

Saio quase noite. Perto do Pingo Doce, uma senhora que encontro no café. Cabelo preto. Pintado. Corte moderno. Traz até hoje a vida que talvez tenha tido e que queria. Exageradamente zangada, mesmo irritada, fala-me de «uma amiga tão teimosa» que nem queria ir ao médico das varizes. Bem precisamos de uma razão para os dias. De uma amiga «teimosa que não vai ao médico das varizes. E eu «não convencemos ninguém». E logo a seguir também eu«Até amanhâ» . Porque consumimos a curta vida em tanta pressa? O bairro é assim. Sempre a Esperança de um amanhã.

Monday, February 04, 2013

APONTAMENTO

Ontem a dor no sobressalto de um gesto. É que quando à noite entramos na casa de Tibaldinho, tiramos para dentro as chaves que penduramos naquele fecho do vidro. Há quanto tempo? Há todo o tempo. Todo o tempo, linha infinitamente horizontal. No dia seguinte, olhei todos os caminhos, percorri todos os caminhos. E verdade que «te não vi em Babilónia». Mais parece que não vi ninguém em Babilónia. Está lá,sim, o prato com a Branca de Neve e os sete anões. E as birras p´ra comer. E as cantigas da Tota até que a Ni e eu acabássemos a sopa. E a colcha da cama. E outra colcha da cama. E até está a televisão que não condiz. E todos os medos do corredor comprido. E o meu Anjo da Guarda. Está lá a bicicleta do André que logo lhe diz o sorriso e os olhos grandes. Está lá um armarinho de miniaturas da Maria. E um peixe de pano que ela fez, As oliveiras que entram p´las janelas e que têm sapatos pendurados. E a Ursa Maior apontada p´lo meu Pai. E a Estrada de Santiago apontada p´lo Manel. Mas tu não.

Saturday, February 02, 2013

O ESPELHO

Gostei sempre de chamar «Mãe» à Mãe do Manel. Gostei, sim. Muito. Não é que eu tenha sido fácil,... Feitiozinho Chamar-lhe «Mãe» foi tão natural. Nem vagamente me passou pela cabeça «que a minha Mãe sentisse isto ou aquilo». Estávamos as três de acordo e tranquilas. E era giro. A minha Mãe sempre «Teresinha devias assim, devias ...». A senhora «Oh Alice, ela tem pouco tempo, ela ...». E eu a respingar. Faz-me falta. E muita. A ver se aprendia de si essa sabedoria milenar que as famílias vão acumulando. Tenho cá a sua cómoda do quarto. Pedi aos meus cunhados se me podiam dar o espelho. E está ali, em cima da cómoda como dantes. Esse espelho onde tanta vez a vi ajeitar o bâton sempre discreto. Às vezes, olho-me no espelho e dou um toque ao cabelo. Não é bem a mesma coisa. Mas vá lá. É assim. De geração em geração.

Thursday, January 31, 2013

PALAVRAS

Gosto das palavras. Gosto muito. Fui aprendendo a gostar. Quero não ouvir aquelas que me ferem. Exercício difícil. Tão difícil. Vamos lá tentar.

Tuesday, January 29, 2013

FUNDO SEM POÇO?

Esta manhã, ouvi a Miguel Relvas «Não há fundo sem poço.» Realmente, nem curso, nem primeira classe, nem cabeça. Que ouvi, ouvi.

Saturday, January 26, 2013

APONTAMENTO P´RA PARAR COM O SILÊNCIO

Fez hoje anos. Telefonei-lhe. Disse-me que devia estar contente e bem disposta, mas não estava. Disse «isto» como se de um pecado se tratasse. Como é que ainda «se deve» ou «se não deve» isto ou aquilo???? Que forças nos espartilham, sem porquê?

Thursday, December 06, 2012

MEU PAÍS DESGRAÇADO Sebastião da Gama

Meu país desgraçado!... E no entanto há Sol a cada canto e não há Mar tão lindo noutro lado. Nem há Céu mais alegre do que o nosso, nem pássaros, nem águas … Meu país desgraçado!... Por que fatal engano? Que malévolos crimes teus direitos de berço violaram? Meu Povo de cabeça pendida, mãos caídas, de olhos sem fé -- busca, dentro de ti, fora de ti, aonde a causa da miséria se te esconde. E em nome dos direitos que te deram a terra, o Sol, o Mar, fere-a sem dó com o lume do teu antigo olhar. Levanta-te, Povo! Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres, a calada censura que te reclama filhos mais robustos! Povo anémico e triste, meu Pedro Sem sem forças, sem haveres! -- olha a censura muda das mulheres! Vai-te de novo ao Mar! Reganha tuas barcas, tuas forças e o direito de amar e fecundar as que só por Amor te não desprezam! Sebastião da Gama

Friday, November 30, 2012

30 de NOVEMBRO, DIA DE SANTO ANDRÉ

Bem contente por este dia. Vou aos anos de um amigo. Bem gentil em me ter convidado. Importante, importante também é que é o dia de santo André, nome que o Manel quis dar ao nosso filho. Certinho. O rapaz, melhor, o senhor gosta. Parece que sempre gostou. E que toda a gente gosta. ANDRÉ.

Thursday, November 29, 2012

A VANTAGEM ECONÓMICA, O BEM MAIOR. SURPREENDO-ME, NÃO QUERO ACREDITAR. MAS É TAL QUAL

Do Arcebispo de S. Paulo, Brasil, transcrevo «Eu teria preferido escrever sobre outro assunto nesta semana, mas o leilão da virgindade de uma jovem brasileira, amplamente divulgado pela imprensa, requer uma reflexão. É um facto chocante e, ao mesmo tempo, parece tão banal que, talvez, só chamou a atenção porque o leilão aconteceu de maneira aberta, pela internet, e porque o valor da licitação foi alto. (...) Chocar, por quê? O novo é que, sem nos darmos conta, estamos a assimilar uma cultura do mercado, na qual o factor económico passou a ser o referencial maior: de uma cultura de valores éticos e morais, para uma cultura do valor económico; o bem maior parece ser a vantagem económica, que tudo permite e legitima, amolecendo qualquer resistência do senso moral. Tudo fica justificado se há vantagem económica. Onde vamos parar?» Temos tantas razões para pensar. Urge fazê-lo.

Friday, November 02, 2012

«OS AMANTES DE NOVEMBRO» de O´Neill

Ruas e ruas dos amantes Sem um quarto para o amor Amantes são sempre extravagantes E ao frio também faz calor Pobres amantes escorraçados Dum tempo sem amor nenhum Coitados tão engalfinhados Que sendo dois parecem um De pé imóveis transportados Como uma estátua erguida num Jardim votado ao abandono De amor juncado e de outono.

Wednesday, October 31, 2012

SEM TELEMÓVEL

É só essa notícia. ESTOU SEM TELEMÓVEL. CONTACTÁVEL POR FIXO

Saturday, October 27, 2012

«A PORTA» poema de Miroslav Holub (poeta checo)

Gosto tanto deste poema que li em «Notícias de Santa Isabel» Aí vai «Vai e abre a porta Talvez lá fora haja Uma árvore, ou um bosque, Um jardim, Ou uma cidade mágica. Vai e abre a porta. Talvez haja um cão a vasculhar. Talvez haja uma cara, Ou um olho Ou a imagem de uma imagem. Vai e abre a porta. Se houver nevoeiro Dissipar-se-á. Vai e abre a porta. Mesmo que nada mais haja que o tiquetaque da escuridão, Mesmo que nada mais haja Que o vento surdo, Mesmo que nada haja,Vai a abre a porta. Pelo menos Haverá Uma corrente de ar.»

Wednesday, October 24, 2012

Monday, October 22, 2012

MANUEL MARIA

Começaram os meus netos a fazer anos. Uma dinastia de seis rapazes. Hoje o Manuel. O loiro de caracóis. Mau feitio, dizem.( Os avós tem óculos que não vêem os defeitos. São óculos que se vendem só aos avós na «Loja do avô». São grátis desde que provado o parentesco.) O Manuel tem um coração do tamanho do mundo. E um sorriso ainda maior que há-de resolver-lhe a vida toda. Um beijo grande de PARABÈNS, Manuel Maria

Saturday, October 20, 2012

«COISAS» NA FEIRA DO JARDIM DA ESTRELA

Hoje, a manhã inteirinha no Jardim da Estrela à conta de um sereno sol de Outono. Havia uma Feira, de «tralhas». Imensas «coisas» iguais às de cá de casa. Atrevi-me a perguntar alguns preços. Nada vale nada. Que bom que o que vale é a «história» e o «afecto» As nossas coisas valem MUITO. MUITO

Friday, October 19, 2012

MANUEL ANTÓNIO PINA

Só para o escrever com palavras suas, um poema escolhido ao acaso AS COISAS Há em todas as coisas uma mais-que-coisa fitando-nos como se dissesse: «Sou eu», algo que já lá não está ou se perdeu antes da coisa, e essa perda é que é a coisa. Em certa tardes altas, absolutas, quando o mundo por fim nos recebe como se também nós fôssemos mundo, a nossa própria ausência é uma coisa. Então acorda a casa e os livros iamginam-nos do tamanho da sua solidão. Também nós tivemos um nome mas, se alguma vez o ouvimos, não o reconhecemos.

NOITE

No fim do dia, a noite. Esta e as outras noites. Vazio ou pesadelo. Não é uma queixa. É que tem sido assim. E talvez que seja para sempre assim.

Thursday, October 18, 2012

SILVÉRIO

Bem cedo, a notícia de que tinhas partido. E logo, a lembrança do teu sorriso escancarado. Quase as lágrimas. Um quase e um ainda não. Um vazio ali numa igreja cheia. Essa frase do Mário Teixeira, imperativa e firme Canta Aleluia. A Paz da Comunhão dos Santos. Sempre. A Paz. A Liberdade.

Monday, October 01, 2012

UMA MÃE GALINHA PENSANTE

Frase do dia "Pior do que uma mãe galinha, é uma mãe galinha pensante." Autor desconhecido

Saturday, September 29, 2012

APONTAMENTO - A DIFICULDADE DA LÍNGUA PORTUGUESA

Será que chegámos tão baixo que se julgue que racionar é mesmo parecido com racionalizar? Sim, chegámos. Pobre gente! Pobre país!

NOVO VISUAL

À conta do meu analfabetismo no que respeita a gerenciar o meu blog, o André teve por aqui um trabalhinho e ... cá está o meu blog com novo visual. Ainda disse «é pretencioso, parece que tenho imensos livros.» Ao que a Ana replicou « E tem mesmo» Portanto cá estou eu com novo visual.

Saturday, September 22, 2012

SAÚDO E APLAUDO D MANUEL CLEMENTE

Sim, saúdo e aplaudo a lucidez certeira das palavras proferidas ontem por D.Manuel Clemente no IPO do Porto a propósito desta forma desumana a que o povo português tem estado sujeito de se imporem restrições e mais restrições sem que lhe seja explicado «o porquê» e «o para quê».

Friday, September 21, 2012

COLADA À TELEVISÃO

Estou mesmo chateada comigo.

Colada à televisão para "ver" e "ouvir" o que acontece (acontece?) no Conselho de Estado.

Rendo-me assim e tão irracionalmente às técnicas de marketing dos meios de comunicação social.

Entretanto vejo sim a concentração junto ao Palácio de Belém.

E acho que devia lá estar.

Thursday, September 20, 2012

Comunicado do PSD à meia noite do dia 19.09

Estes senhores estão no governo para servir o povo português

Ou

Para "ganharem",
Para que o CDS se lhes submeta
E enfim lhes preste vassalagem,
Arrependido?


Saberão o que significa "Diálogo"?

Pobre país o nosso!

Wednesday, September 19, 2012

DE PÉ

Pois tenho persistido.
Ou tenho tentado persistir.
Como posso.
Tal qual.
Outros passos, sim.

E tanto tempo calada! Enquanto o meu país crescia em caos. E está um caos. E é um caos.
A gente do meu país calcada. No meio da rua. Sem protecção nenhuma. Atirada p'ráli. Como se estivéssemos a mais. Como se todos estivessem a mais. Moeda de troca enquanto ...

Mas a gente do meu país nasceu no sábado. Saíu. Disse. Gritou a dor. Gritou a falta. A indigência.
Gritou a uma só voz.

Comungou a míngua.

Mas comungou.

E renasceu.

Saturday, August 25, 2012

JÁ NÃO TENHO PAÍS. PRIVATIZAÇÃO DA RADIOTELEVISÃO ?


.




Parece que já não tenho país.

Como se não acreditasse...

Porquê?

Dá prejuízo. Reorçamentar, talvez. Sei lá...

Mas privatizar?

E é verdade.

Já não tenho televisão pública.

Já não tenho País.

Já não temos País.

Postei uma imagem de Maria Armanda Falcão, que mais tarde adoptou o nome de Vera Lagoa.

Em casa da bela e primeira apresentadora da TV, à conta da enorme e comum amizade pelo Armando Fiúza, conheci o Manel.

E dansámos  as primeiras voltas.

Da vida toda.

Saturday, August 18, 2012

DE CLARICE LISPECTOR

Este é o texto de Clarice Lispector (de que recomendo toda a obra) citado pelo p Tolentino Mendonça na Pastoral da Cultura de 17.08. e que deu origem à escrita rápida da postagem seguinte. Só esta transcrição nos deixa compreender «o táxi», «o jardim» e a mensagem que procurei passar.
Aí vai:

«Eram 2 horas da tarde de verão. Interrompi meu trabalho, mudei rapidamente de roupa, desci, tomei um táxi que passava e disse ao chofer: vamos ao Jardim Botânico. "Que rua?", perguntou ele. "O senhor não está entendendo", expliquei-lhe, "não quero ir ao bairro e sim ao Jardim do bairro." Não sei porquê, olhou-me um instante com atenção.

Deixei abertas as vidraças do carro, que corria muito, e eu já começara minha liberdade deixando que um vento fortíssimo me desalinhasse os cabelos e me batesse no rosto grato de felicidade. Eu ia ao Jardim Botânico para quê? Só para olhar. 
Só para ver. 
Só para sentir. 
Só para viver».  

Friday, August 17, 2012

P´RA VIVER


17.08.2012

Li hoje na «Pastoral da Cultura» um artigo do p.Tolentino sobre «O acto gratuito».
Gosto de escrever a seguir à página que leio, ao filme que vejo, à situação que observo.
Hoje escrevi «isto»:

Aos setenta e dois anos, a vida é toda assim gratuita.
Vou-me dando conta de limites. E aceito.
É então que me deslumbro, feliz e livre, para a beleza do gratuito.
A gente faz qualquer coisa porque quer, porque apetece, porque pode.
E quantas vezes um buraco, uma pedra escura nos barra o caminho ou faz parar 
o táxi para o Jardim Botânico.
Ou talvez não.
Posso levar comigo o buraco, a pedra escura. Assim não barram o caminho.
E continuo.
No táxi.
Para o mesmo destino.


Sunday, August 12, 2012

PARA GUARDAR «COISAS» POSITIVAS


O amor é a ausência do Juízo ... Citações de Dalai 
Fim de tarde de domingo.

Não estou nada «chateada».

E resolvi coleccionar/guardar/... tudo quanto há de positivo.

1. Hoje de manhã, eu na esplanada do «Estrelas Brilhantes».

Aproxima-se um carrinho de bebé.

A moça que o transporta sorri-me.

É a Cristina, a mulher do Gonçalo.

E eu já a espreitar o Tomaz, o precioso Mello Barreto.

O cachopo ri, sorri, sei lá. Uma babadice.

Verdade mesmo, a cara do meu primo-irmão, o Victor.

Notícia MUITO POSITIVA.

Saturday, August 11, 2012

O MAIOR ABRAÇO FRATERNO DO MUNDO


Ontem, dois dos meus netos, o Francisco e o Pedro, voltaram a Évora, onde vivem, depois de terem estado no acampamento de escuteiros.
Antes de regressarem e em gesto de despedida, 17000 escuteiros deram o maior abraço fraterno do mundo.
Eu, que tenho andado tão zangada com o mundo, voltei a acreditar que o tal mundo com que me zango, há-de saber escolher «a melhor parte» - 
um abraço fraterno, um inclusivo abraço fraterno.

Como o fizeram estes escuteiros.

E havemos de saborear a confiança.

05 de Agosto de 2012, 00:00

Uma semana a Escuteirar

1/8

Sunday, July 08, 2012

JOANA, OBRIGADA

Obrigada, Joana, por ter voltado a ler este quase nada que às vezes me diz.


Hoje quero elogiar O SILÊNCIO

neste caos com muita gritaria em que vivemos.

Tanta gritaria que às vezes chego a casa e carrego o botão da TV.

Desafio-me a «escutar o silêncio».

Sem mais.

Monday, June 11, 2012

VOLTAR


Não tem sido fácil habituar-me a esta outra forma de vida.

Hoje, sei que caminho. Mas é como um forceps.

O fim-de-semana foi bom.

Aquele encontro/almoço/palavras/sorrisos e abraços na Casa Comprida do António e da Ninah, não tem como agradecer. Não tem adjectivo. É o ponto alto de todos os encontros.

Mas voltei.

Cheguei quase à noite. Isso foi bom.

Já sei que a casa está vazia. Silenciosa.
Saber, ajuda.

«Entender», vou entendendo.

Cada dia, um pouco mais.

Mas voltar, há-de ser sempre assim. Este vazio.

Friday, June 08, 2012

TERRORISMO EM MENSAGENS E MAIL

Hoje de manhã recebi via e mail esta mensagem:

« O Presidente da XXX   recebeu esta imagem e a chamou de "lixo eletrônico".

8 dias mais tarde seu filho faleceu.

Um homem recebeu esta imagem e imediatamente enviou cópias... sua surpresa foi ganhar na loteria!



XXX  recebeu esta imagem, deu-a a sua secretária para fazer cópias, mas eles esqueceram de distribuí-las:

ela perdeu o emprego e ele perdeu a família.


Esta imagem é milagrosa e sagrada, não esqueça de enviá-la dentro de 13 dias a pelo menos 10 pessoas . *
 
Zango-me com muitos sinais como este e tantos outos do mundo em que vivo.
 
Isto é terrorismo puro.
 
Deus aparece como um ser poderoso e  tirano.
 
O Deus da minha infância e de toda a minha vida é Deus que é Pai de bondade e de misericórdia.
 
Jesus Cristo é o seu Filho, homem e Deus,  a viver connosco esta condição humana.
 
Há muitos sinais de terrorismo nos nossos dias.
 
E numa época de crise, de fragilidade não é difícil fazer passar esta ideia de que fazes e recebes oou não fazes e tens um castigo enorme.
 
Até quando o Manuel estava tão doente, eu recebia estas mensagens.
 
Não tenho nada a ver com isto.
 
Ou tenho?
No meu país, na minha cidade cidade, entre os meus amigos...
 
Pensar, seria bem melhor.
 
Seria ...

Saturday, May 05, 2012

À ESPERA, O DOCE DE MORANGO

Antes de pôr ao lume o doce de morango para ver o sorriso e o espanto do meu neto Manuel
(foi mesmo a avó que fez?),
deixo aqui o que há pouco escrevi a um amigo
 - Estou mesmo quase a comprar um  iPad. O André recomendou-me A mãe experimente primeiro.

Ouvi esta frase desde a infância que é preciso aprender, é preciso experimentar.

E foi assim que sozinha, muito criança, prendi a coser à máquina

e aprendi a patinar nas botas de hóquei do vizinho.

Teimosa? Sim.
Determinada? Também.

Já não tenho as botas de patins...
e coser à máquina não é nada de especial

Ainda assim, gosto do que eu gosto.
Determinada.

Sem modas
Sem «agora é assim»

Antes
«Aqui ao leme sou mais do que eu.»

Wednesday, May 02, 2012

Fernando Lopes

Morreu hoje

Companheiro do Manel, este senhor, estava por cá a toda a hora.
Melhor,
dele se falava,
com as suas imagens se sonhava,
os filmes vistos,
comentados,
conversados.

Custa-me o que perdemos, quem perdemos.
Como é que esta casa não tem mais o debate, a crítica, as bocas fantásticas, os serões animados
de quem está vivo?

Falta-nos o Manel. De que modo nos falta o Manel!

Mas sinceramente é terrível, dói mesmo, que falte, melhor que tenha desaparecido o gosto pela conversa sã e discutida.
O gosto dizer «assim» e o outro «assado».
Agora deparo-me com uma só ideia, uma só pessoa, uma só ....

Há muito tempo que ouvi isto.

Passado.
Indesejado.

Tuesday, May 01, 2012

GRITADAS AS PALAVRAS



Aquelas palavras gritadas para todos, e que a tornavam o centro, o círculo (de repente Maria do Céu Guerra, o círculo de giz caucasiano...)

Aquelas palavras sobre a última notícia, a única notícia, a notícia que todos tinham que ouvir e ficar a saber

o melhor pastel de nata de Lisboa

a Aloma

aquelas palavras sem afecto sobre a Aloma,

as que tinham aparecido na televisão (a televisão no seu pior)

aquelas palavras que não diziam sobre a Aloma senão o que tinha sido dito nas televisões


a certa altura que a Aloma tinha já sessenta anos

e eu, que conhecia e me enternecia pelo sr Barreto e pelo sr Rodrigues

eu, ainda que procurasse que me ouvissem, não conseguia

eu só queria dizer a Aloma tem menos quatro anos do que eu, sessenta e sete

só para dizer a outra Aloma, a Aloma de sempre,

mas não conseguia gritar

É que não fico nada bem em notícia de abertura, em gritaria de abertura,

soui uma contadora de histórias, mesmo de histórias,

histórias entrelaçadas com afectos, com saudades, nos meus dias

histórias com coisas pequeninas,

coisas,

gestos,

palavras ou silêncios,

histórias que não dão para me fazer ouvir

não dão nem para começar

que a Aloma tenha sessenta e sete anos,

não dá.

Calei-me e em pano de fundo lembrei-me de quase tudo sobre a Aloma.


Caladinha.

lembrei-me da Aloma como também da casa de Tibaldinho

e de que afinal D. Afonso Henriques tinha nascido em Viseu e não em Guimarães,

quiça tão perto da nossa casa,

sabe-se lá, na nossa casa


Parece também que cada um só ouve o que quer ouvir

só vê o que quer ver


naquela noite eu queria mesmo ver

o meu pai apontava-me a Ursa Maior

Ali, Teresinha, ali

eu tentava e não via

até que vi


como a Maria e o André haviam de ver a mesma constelação apontada pelos dedos do Manel (tão belos os dedos do Manel)

eu a dizer noite dentro à minha mãe que tinha pesadelos

os novelos de trapo para as mantas, os novelos que pareciam sufocar-me

Hoje teço muitos novelos

fios cheio de ternura

todos os novelos

a vida cheia de novelos à espera de um sonho

de um sorriso

da laçada de ternura


a vida sempre á espera



Tuesday, April 24, 2012

A VER SE FESTEJAMOS

Há datas que doem.

Julgo que não fui a nada género lembrar, género «onde está» ou «como está» a propósito dos cinquenta anos do Concílio Vaticano II?
Custa.me não ir. E havia de custar-me ir.
Palavras Palavras E que fizemos este tempo todo? Deixámos...

Agora o 25 de Abril. Que temos nós hoje dessa grande esperança? Vozes que se revoltam. Vozes guardadas. Por mim, vou comprar os cravos. Os «tais cravos» de que o meu neto João perguntou «Estes é que são os tais cravos»?

E que venha o André pôr a tocar «Grândola» em todas as varandas.

Para mudar o bairro.

Para mudar o mundo

Para mudar a vida.