Sunday, September 29, 2013
RESISTENTES
Às vezes, muitas vezes, a chuva é a serenidade por fim poisada nos dias. Hoje, dia de votações autárquicas, a chuva é mais uma razão inventada para não ir votar.
Bem ao contrário, um casal muito idoso, talvez com poucas posses e muitas despesas de saúde, afirmou-me ontem convicto no supermercado "Vamos votar. Vamos, claro. Não ficamos mais pobres por ir de taxi". E de certeza, vão.
Que indiferença, que inércia deixa p'raí tanta gente sentada e adormecida no sofá da sala? A televisão serve. Prende-nos numa gaiola QUE NÃO É A VIDA.
A vida hoje está na rua. Ainda que com muita abstenção. MAS RESISTENTE.
Saturday, September 28, 2013
VOU VOTAR, MAS NÃO É UMA FESTA
Vou votar. Vou votar mesmo. Luto académico de 62. Desde sempre a Vida se teceu em causas. Em valores. Em muita teimosia. E muita convicção. Hoje ir votar é uma consciência. Mas não é uma Esperança. Não é uma Alegria. Como estarão amanhã as ruas do meu bairro?
Wednesday, September 25, 2013
GOSTAR DE FRANCÊS
Não é difícil encontrar uma boa notícia em cada dia. No sábado, foi tão inesperado. A Mãe tinha-me dito que o Manuel estava a gostar de Francês. Com sorrisos, o do rapaz é mesmo lindo, provoquei-lhe duas frases. Boa pronúncia mesmo.
E na segunda-feira lá estava eu no Instituto Francês a subir uma escada, com a minha linda bengala e o entusiasmo dos meus dezasseis, dezassete anos para comprar um livrito ao Manuel.Nesse dia e no outro e no outro talvez, tu foste, no és também o meu alento. UMA BOA NOTÍCIA.
Sunday, September 22, 2013
OUTONO
Estamos tão cansados deste calor. Estamos mesmo tão cansados. De viver assim. Amanhã ou hoje mesmo é sempre um dia tão incerto e tão difícil. Cansam-me até as ruas do meu bairro. Os rostos sem sorriso. Espelho dos meus. A vida sem Esperança. Ou quase. A vida sufocada. E chega assim o Outono. Quase certa é a alegria de poder pisar as folhas secas.
E agarrar a serenidade de um qualquer vento fresco. Que há-de vir.
POR UM QUILO DE CENOURAS
No fim de semana passado fui ao encontro do Pedro Nunes - o euro, Portugal, a Europa. E o meu liceu. Aí fui aluna. Uma década depois fui professora. "Estou em casa". Mas, o assunto desta postagem é o euro. Foi para mi uma aprendizagem muito básica. Eu tinha ido à praça na véspera. As cenouras custavam 80 escudos. O euro passa a ser a nossa moeda. Volto à praça. As cenouras custam 80 cêntimos. Insurjo-me. A resposta que recebo é "Mas é muito barato. Nem custa 1euro."Não sei se esta é a razão por que estamos neste estado. Mas é também uma razão. Pensar não é coisa muito complicada. Parece-me. Não, tenho a certeza.
Tuesday, September 10, 2013
Sunday, September 01, 2013
NO FUNDO DA GAVETA, UM POEMA
Em Tibaldinho, entre tarefas bem pouco agradáveis, tarefas que me passavam ao lado porque alguém as fazia por mim, há pequenos/grandes milagres em gestos de nada como por exemplo abrir uma gaveta. Foi naquela da mesa da televisão que encontrei, como recordação do casamento da Cláudia e do Luís, este poema de Eugénio de Andrade. Deixo-o aqui. O meu sustento de poesia. Hoje.
"Aqui e estão as mãos./ São os mais belos sinais da terra./Os anjos nascem aqui:/frescos, matinais, quase de orvalho,/ de coração alegre e povoado.(...)/Alguns pensam que são as mãos de deus,/ - eu sei que são as mãos de um homem,/trémulas barcaćas onde a água,/a tristeza e as quatro estações/penetram, indiferentemente./
Não lhes toquem:são amor e bondade./Mais ainda:cheiram a madressilva./São o primeiro homem, a primeira mulher./E amanhece."
Thursday, August 29, 2013
ANDRÉ
Esperámos-te na noite. Há quarenta e seis anos. Ansiosos. Felizes. O Pai e a Avó Alice ali comigo. Não foi um parto só da Mãe. Também no nascimento da tua irmã lá estavam os dois. Sem falar nos Avós. No Tio João. MEU AMOR. E inconscientes sonhávamos, supúnhamos que nascias para uma Vida sem dor. E que te havíamos de dar a eternidade. Demos-te a Vida. A tua Vida. A condição humana. E em tudo o que podemos, partilhada.
Nesta noite teço os teus dias em contas de oração. E de louvor. E onde quer que o Pai esteja, ele está perto.
PUDÉSSEMOS NÓS INVERTER A CORRENTE
Ontem recebi um mail que dizia "O dia que Albert Einstein tanto temia chegou". A seguir seis imagens com situações várias em que cada pessoa tinha um telemóvel e, ainda que rodeada de outras pessoas ou de paisagens, só o telemóvel era o seu comunicador. Fala-se com o telemóvel, ainda que ao lado esteja o amigo, o namorado, quem quer que seja, ou se esteja à mesa, na praia, num museu! Sim, chegou o dia. O mail enviava também o texto de Eintein "Tenho medo do dia em que a tecnologia se vai sobrepor à interação humana. O mundo terá uma geração de idiotas." Sei o que é a dependência do telemóvel. Faço uma ligação, envio um SMS, trago-o na carteira. Se o esqueço em qualquer lado, fico inquieta. Realmente ...que cadeias prendem a vida! Estou em Tibaldinho, a aldeia da vida toda. Sempre escrevi postais. É um impulso quase obsessivo ou mesmo obsessivo. Dantes algumas senhoras de Campo de Ourique, quando eu voltava de férias, diziam-me "Sabe, tenho os seus postais numa gaveta com uma fitinha."Isto era muito bom. Agora ainda escrevo alguns. Poucos. Vou a Mangualde ou a Viseu, entro no Museu de Grão Vasco ou numa papelaria, pergunto por postais, é quase estranho. Espero. E lá aparecem alguns. Neste pequeno gesto, julgo que rumo contra a maré. Com palavras escritas p'lo meu punho, um postal procurado, um sêlo que é preciso comprar. Tempo. De ser pessoa. Para outra pessoa. E acho que vale.
Thursday, August 22, 2013
DE COMBÓIO
Volto a Tibaldinho. De combóio. Já não é "o pouca-terra, pouca-terra", nem tem fagulhas que
nos sujem. Mas tem a mesma serenidade, suspeita dos pinhais, do verde que sempre procuramos.
Que nos hão-de suportar em todos os ruídos. Em todos os gêlos. Suportar? Não, "que hão-de ser antes a essência dos dias." De todos os dias.
Monday, August 19, 2013
8 837, 09 euros de IRS
Acabei de pagar. Aí há duas horas. Alguém é capaz de fazer umas apostas sobre quanto é que eu recebo em cada mês, ainda que "para o mês que vem, nunca se saiba"?
Sabia o que me esperava e fui juntando ao cêntimo. Lá paguei, ainda que tenha feito uma reclamação. Gosta de perceber o que é que realmente eu estou a pagar. E a quem?
Friday, August 16, 2013
"SABEMOS PARA ONDE QUEREMOS IR" Pedro Passos Coelho
Já ouvi "isto".
Tenho idade. Tenho memória. Sei quando é que ouvi. A quem ouvi. Em que situação ouvi. E é uma muito má memória. Senhor primeiro ministro, tenha idade e vida para lhe pedir que tenha respeito pelos portugueses.
Thursday, August 15, 2013
UMA FOTOGRAFIA
A força das palavras do Manuel, lembradas e escritas tantas vezes pelo André julgo que como metáfora da sabedoria, têm sido, para mim, palavras presentes, palavras reflectidas, palavras fortes pela vida dentro. «Ver a imagem para lá da imagem».
Mas foi no dia 8 (73 anos, graças a Deus), que sabendo que por cá havia de aparecer alguma família, alguns amigos, desdobrei-me em mesas e loiças, e de repente, à procura de uma fotografia dos meus sobrinhos e dos meus filhos para mostrar «como cresceram», encontrei uma lindíssima em que o André está no quintal de Tibaldinho, coberto de mal-me-queres rasteirinhos, pela Páscoa, 7, 8 anos, um sorriso enorme, feliz, agarrado a um cão de sonho, talvez um serra da estrela. Mostrei-a. Feliz também. E o André «Mãe, esse foi um dia muito triste para mim.Chorei tanto, mãe» E eu sem perceber nada. Explicou «Vocês proibiram-me de andar com aquele cão».
Como é que palavras tantas vezes impensadas podem matar a felicidade? Raramente temos consciência «do que está nas nossas mãos» quando somos pais, professores, amigos ....É importante deixarmo-nos surpreender mesmo que seja aos setenta e três anos (confesso que me tenho surpreendido muito mais nestes últimos anos).
«Ver para lá da imagem» não é sempre possível. Bem que o Manuel o dizia com dor quando falava da sua arte de realizador a que se referia como sendo «aprendiz de feiticeiro».
Bom que eu tenha encontrado a fotografia. Bom que tenha percebido ou tenha começado a perceber (aprendizagem longa) que tantas vezes uma fotografia não diz a vida. A dor não costuma ser fotografada quando se trata de um album de família.
FILME DE TERROR - REALIDADE DE TERROR
Chego a casa. Ligo a televisão. Notícia - UM ÚNICO SERVIÇO DE URGÊNCIA EM LISBOA. E não é um filme. É no meu país.
Na minha cidade. E no meu país, na minha cidade, há homens e mulheres?
ESPLANADAS SEM ABRIGO
Vou muitas vezes a uma esplanada. Obrigo-me com gosto a estar numa esplanada. É-me mais fácil ler, escrever. Vivo também e respiro de ler e de escrever. Numa esplanada só sou interrompida se quiser ou se deixar. Posso "fazer o meu horário" (sempre a Escola ... ).
Às vezes, muitas vezes, interrompo tudo para trocar palavras. E oiço vidas. Narro a vida. Trocamos um sorriso. Um endereço de mail.
E cada vez mais amiúde decido p'lo silêncio. É então que procuro esse jeito difícil de ver para lá de todas as imagens, de ouvir para lá de todas as palavras, de todos os gritos. De todos os silêncios.
E vai-me parecendo que tantos de nós, homens e mulheres ali na esplanada, me parecem homens e mulheres sem-abrigo.
Ou não será que não somos todos sem-abrigo?
Sim, sem-abrigo.
A condição humana.
Assim
Sunday, July 28, 2013
O QUE NÃO ALCANÇAMOS
Voltar a Tibaldinho, voltar a um qualquer lugar ou apenas ir a um qualquer lugar, pode parecer e tantas vezes parece que "há-de estar lá" tal móvel, tal jardim, tal árvore, tal janela, quiçá o prato e o talher da infância ou o que resta da trave do baloiço. E pode acontecer que o móvel ainda é "aquele móvel", que o jardim lá continua e também a árvore, mais seca ou mais frondosa. Assim como a janela. E o prato e o talher e até a trave do baloiço.
Mas as pessoas não. A vida. A liberdade. O pensamento. O querer tão só de cada um. As pessoas são todas o mistério. O inesperado. O insondável. As pessoas são tudo o que não cabe no móvel, não cabe no jardim, nem na árvore. Nem na janela, nem no prato ou na colher. As pessoas não cabem na trave do baloiço. As pessoas são o que não alcançamos. E que havemos de amar. Assim. Tal qual. Na aceitação do que sempre há-de ser desconhecido.
Saturday, July 27, 2013
TIBALDINHO
Estou em Tibaldinho.
Mais um dia talvez.
A intenção é voltar breve.
Aproveitando as pausas que só tenho aqui, reli alguns textos do início deste blog.
A certa altura, a propósito de um amigo que ia para Roma, escrevi qualquer coisa como "Tenho saudades de Roma. (...)
De certo modo estamos sempre nos lugares que amamos."
Estamos.
Sempre nos lugares que amamos.
Thursday, July 25, 2013
VAMOS À NOSSA MERENDA, PRIMO FERNANDO ESTEVES?
Esta foi a última pergunta/convite que me fez, primo Fernando.
E suspeitávamos os dois que era a última.
Engano enorme.
Nenhuma das suas palavras, nenhuma das suas causas, dos seus afectos, dos seus sorrisos será último.
Bem-haja, como sempre disse.
Bem-haja por tudo.
Parece que vou amanhà ao seu enterro em Tibaldinho.
Só parece.
Da janela do escritório, suspeito sempre a vida da sua casa.
Ao alcance do abraço.
Do sorriso tranquilo.
Da novidade de todas as manhãs de Tibaldinho.
Sempre
Saturday, July 20, 2013
DE CONSCIÊNCIA TRANQUILA
No meu país, através da televisão ou das rádios, oiço perplexa cada um dos dirigentes partidários ou dos seus porta- vozes que TODOS ELES ESTÃO DE CONSCIÊNCIA TRANQUILA. E realmente não consigo ver, não consigo medir, não consigo pesar a consciência de ninguém. Mas consigo vislumbrar a falta, a fome, a inquietação, o desespero, o nada. O nada aonde chegou o meu país. Aonde também eu deixei chegar o meu país. E NÃO ESTOU DE CONSCIÊNCIA TRANQUILA.P
Thursday, June 27, 2013
Sunday, June 16, 2013
PRONÚNCIA FRANCESA, OBRIGATÓRIO
E se António José Seguro aprendesse um pouquinho só de pronúncia francesa? Verdade que nunca tive assim nenhum aluno! É claro que não.
Monday, June 10, 2013
CASA DO ALENTEJO
Pois foi uma surpresa cheia de emoção quando hoje vi e ouvi que «A Casa do Alentejo» comemora hoje 90 anos. Verdade que foi aí, há cinquenta anos e uns meses, a festa do nosso casamento. Uma bela notícia. Uma bela festa. O início de uma bela vida. E a casa é linda. Nós gostámos.
Sunday, June 09, 2013
QUANDO SE TRANSFORMA O AMADOR NA COISA AMADA
Para reflectir que acontece, que pode acontecer "quando se transforma o amador na coisa amada"?
Saturday, June 08, 2013
O HOSPITAL E AS SARDINHAS
P'ra levar um sorriso a uma amiga, fui ao hospital, como se fosse a primeira vez depois "daquilo tudo". Naturalmente, há-de ser sempre a primeira vez depois "daquilo tudo". Bem me parece que hoje preciso muito de rir e de sorrir. Talvez umas sardinhas na "Cervejaria Europa". Deve ser isso mesmo. Umas sardinhas ...
Saturday, June 01, 2013
TOMARA QUE A SENHORA NÃO PERCEBA
Um dia fantástico. Sair de casa é vital. Um café e uma água no Ruacaná. A seguir vou fazer uns pagamentos na CGDepósitos.
Entro. Uma senhora bem idosa e bem perdida. Que o neto lhe tinha levantado a pensão. Mas que já não tinha senão umas moedas . A caderneta na mão. Ilegível. Amachucada. Não consigo metê-la na ranhura. Percebo que a D Augusta sobrevive, nem sei como, dos roubos dos netos. "São muito bons" afirma. E volta a afirmar. "São muito bons". E vive os dias.
Thursday, May 30, 2013
28 de Maio de 1926
Um conselho, sobretudo para mim.
Uma viagem até 28 de Maio de 1926.
A História que é bom lembrar.
Para melhor percebermos.
Para melhor nos percebermos.
E interrogarmos.
Wednesday, May 15, 2013
FESTIVAL DE CANNES
O Festival de Cannes em nossa casa é e foi sempre um vôo de alegria, janela para esse outro olhar a que o cinema sempre nos convida.
Nunca fomos. Nem o Manel. Nem eu. Mas foi sempre «como se...».
Hoje inicia-se este Festival. Hei-de acompanhá-lo de perto.
E, na aparente estranheza das palavras, tenho muitas saudades do Festival de Cannes.
Saturday, May 04, 2013
CAMILO PESSANHA, em véspera do Dia da Mãe são estas as palavras que aqui quero deixar
"Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho/onde esperei morrer, - meus tão castos lençóis-?/Do meu jardim exíguo os altos girassóis quem foi que os arrancou e lançou no caminho?/Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)/ A mesa de eu cear, tábua tosca de pinho?/ E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?/ - da minha vinha o vinho acidulado e fresco.../ Oh minha pobre mãe!...Não te ergas mais da cova./ Olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova .../ Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve./ Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais./ Alma da minha mãe ...Não andes mais à neve/ de noite a mendigar às portas dos "casais"."
Thursday, May 02, 2013
Esperamos o quê do comunicado de Passos Coelho?
Não espero nada.
Temos mais que razões para não esperarmos nada.
Este senhor ainda espera a nossa boa vontade?
Não pode esperar.
Não pode.
Há uma espécie de loucura avulsa e sem rumo que nos impóe cortes, cortes, cortes ...
Para quê?
E até hoje para quê?
País sem luz.
Friday, April 26, 2013
SILÊNCIO
Finalmente, gosto do silêncio.
É enfim que escrevo.
Leio.
Penso.
Devagar.
Fundo.
Fazes-me tanta falta, sim.
E tão tarde aprendo o silêncio. Onde te escuto.
Nos escuto.
Falamos como sempre.
Os dois.
E é muito bom.
Thursday, April 25, 2013
25 ABRIL I
Com uma ânsia semelhante àquela com que liguei a rádio na madrugada de Abril, logo de manhã carrego no comando da televisão e vejo, revoltada, como primeira notícia, A PRISÃO DE ISALTINO MORAIS. Até parece que dá jeito. E ENTÃO EM SEGUNDA NOTÍCIA,ENVERGONHADA, «COMEMORA-SE HOJE O 25 DE ABRIL». Pois...
Friday, April 19, 2013
ANTÓNIO MARIA
António, quando tudo e todos se preparam para festejar contigo a tua Primeira Comunhão, quero dizer-te que sempre é verdade que "O mistério está todo na infância". A avó Teté, só ao fim deste tempo todo, é que acredita nisto. É uma descoberta que se faz muito devagarinho."O mistério está todo na infância." E envolvemos-te de amor e ternura. Que bom, António!
Monday, April 15, 2013
DUAS NOTÍCIAS
Notícia 1
A filha do presidente de Angola é a primeira mulher bilionária africana (1000 milhões de dólares)./
Notícia 2
A UNICEF precisa de 4 milhões de dólares para salvar as crianças angolanas subnutridas.
Saturday, April 13, 2013
SÓ A FOTOGRAFIA ..
É no rosto que se vê. Eu teria apostado que estava tudo igual. O mesmo sorriso aberto. Brilhante. E só quando um amigo me deu uma fotografia deste tempo-agora, percebi "que não estava tudo igual". Um sorriso sim. Sereno. Num olhar a que falta/a que faltas.
Procuro e encontro a vida. Nas ruas que percorro. Nas pessoas que as cruzam. No gesto. No abraço. No livro que vou lendo como se alguém fosse ouvir um comentário. E no filme que vejo. Aí guardo as palavras. Onde guardo as palavras?
A vida vale. E muito. Só que tudo parece o arroz doce que a minha mãe fazia. Procuro ser eu agora. E ponho os mesmos ovos. O mesmo arroz. O mesmo leite. O mesmo açúcar. Mas não sai o mesmo doce.
Tuesday, April 09, 2013
E SE NOS FALTASSE O QUE NÃO É NECESSÁRIO?
A propósito de um telefonema que um dos meus filhos fez movido pela amizade, alguém me disse que não lhe parecia que tal telefonema tivesse sido necessário.
Não vou aqui, nem em lado nenhum, imaginar o que leva uma pessoa a tal comentário.
Mas deixo a todos esta pergunta - COMO SERIA A VIDA SE NOS FALTASSE O QUE NÃO É NECESSÁRIO?
O amor, a amizade, a memória, uma flor, uma carta, uma fotografia, um filme, a música, o sino, um nome, o céu, a Via Láctea, o cheiro, um sorriso, uma lágrima.... o que é que é necessário?
Sunday, April 07, 2013
BOUTIQUE DOS LEITÕES EM CAMPO DE OURIQUE
Não consegui postar uma fotografia.
Mas é mesmo tão giro. Aqui. Em frente à nossa casa.
Eu ia vendo o espaço que se remodelava. Nao sabia o que iria aparecer.
Ontem abriu. Boutique dos Leitoes. Três mesas cá fora. Cadeiras. Apetecível. Não fui, que estas coisas quando abrem, bem ...
Hoje entrei. Julguei que nao podia comer nada, mas uma senhora logo me ofereceu um pãozinho com recheio de leitão.
E eu que sou difícil, achei mesmo muito, muito bom. Comprei uma caixinha com oito destes pãezinhos congelados. Ficam na arca. Depois, p´ra se comerem, uns minutos no forno.
Não tenho nenhuma cota nesta boutique.
Mas tenho no meu bairro.
CAMPO DE OURIQUE.
Aconselho uma visita.
Tuesday, March 19, 2013
TESOUROS
Hoje, Dia do Pai, quero dizer o meu Pai, o meu sogro, realmente um Pai e o Manuel.
Entre papéis pequeninos, encontro um poema que um dos nossos filhos escreveu ao Pai.
E partilho-o:
« O pano cai,/
ao fundo o sonho,/
ao lado alguém/
com ele caminho/
o sonho mais perto/
com ele pressinto/
o fundo decerto/
não pode fugir,/
não pode sair/
e não sai./
No sonho entrámos./
E ao lado? Meu Pai.»
Tuesday, March 12, 2013
O INÍCIO DO CONCLAVE
Sim, emocionei-me ao ver e ouvir o colégio dos cardeais quando cantaram a Ladainha de Todos-os-Santos mesmo antes de iniciarem o Conclave.
Aí somos muitos. Somos todos.
Tanto o Manuel e eu gostávamos e gosto de festejar a Festa de Todos-os-Santos.
Sim. Acrescentei «S Manuel Frazão, rogai por nós».
E tantos.
Tantos
Wednesday, February 27, 2013
POEMA A GALILEU
Tão actual.
Sempre a distracção parece sedutora.
Pensar, procurar, buscar a verdade parece incómodo, irritante.
A ver se consigo postar um vídeo de António Gedeão (Rómulo de Carvalho) que diz o poema
E não consigo ....
CORAÇÃO DE MISERICÓRDIA
Transcrevo a Oração da RR do pe António Rego.
Aplaudo-a.
Bem preciso, bem precisamos que se faça nossa.
«Prontos para apanhar as pedras
foram cercando a pecadora
A morte era o castigo justo pelo pecado
Condenar, condenar à morte mesmo antes
de qualquer sentença
ou melhor, a sentença foi dada
antes da confirmação de qualquer transgressão.
É réu. E basta isso para condenar à morte.
Em boa verdade, o que falta aqui
é apenas um coração de misericórdia.
E quem sabe em verdade o que é a misericórdia
és tu. Apenas tu.
Todos os nossos corações estão viciados pela justiça estreita
que acaba por não ser justiça
por lhe faltar a medida da misericórdia.
Tem piedade de todos.
Sobretudo dos que não se aceitam como pecadores...»
Pe. António Rego
Monday, February 25, 2013
A NOITE DOS ÓSCARES
Sempre esta noite assim.
Faz-me falta o teu entusiasmo.
Só que o cravaste em mim.
E, é claro, fico.
Sei que antes do final, eu hei-de adormecer. Foi sempre assim.
De manhã, carrego no comando se tiver apagado a televisão.
Num relâmpago, a imagem.
E como disseste ao André e hás-de dizer-lhe sempre e hás- de dizer-nos sempre "vê para lá da imagem".
É bom que o nosso neto Francisco fique a ver!
Todo o passado e todo o presente nos diz a eternidade.
Sunday, February 24, 2013
A VIDA
"A maravilha que é estarmos entre os vivos, na vida" David Mourão Ferreira"
Oiço-o, vejo-o, leio-o, digo-o verso a verso,
cheiro-lhe o cachimbo e a voz.
E quanto aplaudo!
Saturday, February 23, 2013
FOGUEIRAS DA INQUISIÇÃO
Não, não é só a comunicação social ( a revista Visão deve ter vendido muito bem. É desonesto)
As fogueiras da Inquisição existem.
Para calcar.
Para destruir.
Para matar.
E o senhor, D. Carlos Azevedo, lembra-me Galileu.
Com dor.
Thursday, February 21, 2013
D. Carlos Azevedo
Sempre admirei D Carlos Azevedo.
E admiro.
Não há sensacionalismo mediático que possa destruir a pessoa de D. Carlos, creio.
Em que inferno deixamos que nos lance a comunicação social?
Monday, February 18, 2013
PRÓS E CONTRAS
Ontem, João César das Neves, exaltou-se e prestou um muito mau serviço à Igreja.
Na verdade, cada vez mais tenho a certeza de que a Igreja só precisa procurar ser mais e mais semelhante ao seu Senhor, Jesus Cristo.
João César das Neves queria impor a sua razão. Porquê?
Queria ganhar o quê?
Sunday, February 17, 2013
de Clarice Lispector
«Corro perigo
Como toda pessoa que vive
E a única coisa que me espera
É exatamente o inesperado»
Thursday, February 14, 2013
UM SOL SOBRE AS NOITES
Senhor, dá a todos nós,
o dom do sol e da paz
sobre as dores tantas,
que sufocam a vida.
QUARTA-FEIRA DE CINZAS de T S ELIOT
Havia de ter postado ontem.Sempre alguns atrasos na condição humana...E que importa?
QUARTA-FEIRA DE CINZAS
(...)
Porque sei que o tempo é sempre o tempo
E que o espaço é sempre o espaço apenas
E que o real somente o é dentro de um tempo
E apenas para o espaço que o contém
Alegro-me de serem as coisas o que são
E renuncio à face abençoada
E renuncio à voz
Porque esperar não posso mais
E assim me alegro, por ter de alguma coisa edificar
De que me possa depois rejubilar
Porque estas asas de voar já se esqueceram
E no ar apenas são andrajos que se arqueiam
No ar agora cabalmente exíguo e seco
Mais exíguo e mais seco que o desejo
Ensinai-nos o desvelo e o menosprezo
Ensinai-nos a estar postos em sossego.
Rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte
Rogai por nós agora e na hora de nossa morte.
Wednesday, February 06, 2013
CAMPO DE OURIQUE. FIM DA TARDE
Saio quase noite.
Perto do Pingo Doce, uma senhora que encontro no café.
Cabelo preto. Pintado. Corte moderno.
Traz até hoje a vida que talvez tenha tido e que queria.
Exageradamente zangada, mesmo irritada, fala-me de «uma amiga tão teimosa» que nem queria ir ao médico das varizes.
Bem precisamos de uma razão para os dias. De uma amiga «teimosa que não vai ao médico das varizes.
E eu «não convencemos ninguém».
E logo a seguir também eu«Até amanhâ» . Porque consumimos a curta vida em tanta pressa?
O bairro é assim. Sempre a Esperança de um amanhã.
Monday, February 04, 2013
APONTAMENTO
Ontem a dor no sobressalto de um gesto.
É que quando à noite entramos na casa de Tibaldinho, tiramos para dentro as chaves que penduramos naquele fecho do vidro.
Há quanto tempo?
Há todo o tempo.
Todo o tempo, linha infinitamente horizontal.
No dia seguinte, olhei todos os caminhos, percorri todos os caminhos.
E verdade que «te não vi em Babilónia».
Mais parece que não vi ninguém em Babilónia.
Está lá,sim, o prato com a Branca de Neve e os sete anões. E as birras p´ra comer.
E as cantigas da Tota até que a Ni e eu acabássemos a sopa.
E a colcha da cama.
E outra colcha da cama.
E até está a televisão que não condiz.
E todos os medos do corredor comprido.
E o meu Anjo da Guarda.
Está lá a bicicleta do André que logo lhe diz o sorriso e os olhos grandes.
Está lá um armarinho de miniaturas da Maria. E um peixe de pano que ela fez,
As oliveiras que entram p´las janelas e que têm sapatos pendurados.
E a Ursa Maior apontada p´lo meu Pai.
E a Estrada de Santiago apontada p´lo Manel.
Mas tu não.
Saturday, February 02, 2013
O ESPELHO
Gostei sempre de chamar «Mãe» à Mãe do Manel.
Gostei, sim. Muito.
Não é que eu tenha sido fácil,... Feitiozinho
Chamar-lhe «Mãe» foi tão natural. Nem vagamente me passou pela cabeça «que a minha Mãe sentisse isto ou aquilo».
Estávamos as três de acordo e tranquilas.
E era giro. A minha Mãe sempre «Teresinha devias assim, devias ...». A senhora «Oh Alice, ela tem pouco tempo, ela ...». E eu a respingar.
Faz-me falta. E muita. A ver se aprendia de si essa sabedoria milenar que as famílias vão acumulando.
Tenho cá a sua cómoda do quarto. Pedi aos meus cunhados se me podiam dar o espelho. E está ali, em cima da cómoda como dantes. Esse espelho onde tanta vez a vi ajeitar o bâton sempre discreto.
Às vezes, olho-me no espelho e dou um toque ao cabelo. Não é bem a mesma coisa. Mas vá lá.
É assim.
De geração em geração.
Thursday, January 31, 2013
PALAVRAS
Gosto das palavras.
Gosto muito.
Fui aprendendo a gostar.
Quero não ouvir aquelas que me ferem.
Exercício difícil.
Tão difícil.
Vamos lá tentar.
Tuesday, January 29, 2013
FUNDO SEM POÇO?
Esta manhã, ouvi a Miguel Relvas
«Não há fundo sem poço.»
Realmente,
nem curso,
nem primeira classe,
nem cabeça.
Que ouvi, ouvi.
Saturday, January 26, 2013
APONTAMENTO P´RA PARAR COM O SILÊNCIO
Fez hoje anos.
Telefonei-lhe.
Disse-me que devia estar contente e bem disposta, mas não estava.
Disse «isto» como se de um pecado se tratasse.
Como é que ainda «se deve» ou «se não deve» isto ou aquilo????
Que forças nos espartilham, sem porquê?
Thursday, December 06, 2012
MEU PAÍS DESGRAÇADO Sebastião da Gama
Meu país desgraçado!...
E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas …
Meu país desgraçado!...
Por que fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?
Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
-- busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.
E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.
Levanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!
Povo anémico e triste,
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
-- olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!
Sebastião da Gama
Friday, November 30, 2012
30 de NOVEMBRO, DIA DE SANTO ANDRÉ
Bem contente por este dia.
Vou aos anos de um amigo. Bem gentil em me ter convidado.
Importante, importante também é que é o dia de santo André, nome que o Manel quis dar ao nosso filho.
Certinho.
O rapaz, melhor, o senhor gosta. Parece que sempre gostou.
E que toda a gente gosta.
ANDRÉ.
Thursday, November 29, 2012
A VANTAGEM ECONÓMICA, O BEM MAIOR. SURPREENDO-ME, NÃO QUERO ACREDITAR. MAS É TAL QUAL
Do Arcebispo de S. Paulo, Brasil, transcrevo
«Eu teria preferido escrever sobre outro assunto nesta semana, mas o leilão da virgindade de uma jovem brasileira, amplamente divulgado pela imprensa, requer uma reflexão. É um facto chocante e, ao mesmo tempo, parece tão banal que, talvez, só chamou a atenção porque o leilão aconteceu de maneira aberta, pela internet, e porque o valor da licitação foi alto. (...)
Chocar, por quê?
O novo é que, sem nos darmos conta, estamos a assimilar uma cultura do mercado, na qual o factor económico passou a ser o referencial maior: de uma cultura de valores éticos e morais, para uma cultura do valor económico; o bem maior parece ser a vantagem económica, que tudo permite e legitima, amolecendo qualquer resistência do senso moral. Tudo fica justificado se há vantagem económica.
Onde vamos parar?»
Temos tantas razões para pensar.
Urge fazê-lo.
Friday, November 02, 2012
«OS AMANTES DE NOVEMBRO» de O´Neill
Ruas e ruas dos amantes
Sem um quarto para o amor
Amantes são sempre extravagantes
E ao frio também faz calor
Pobres amantes escorraçados
Dum tempo sem amor nenhum
Coitados tão engalfinhados
Que sendo dois parecem um
De pé imóveis transportados
Como uma estátua erguida num
Jardim votado ao abandono
De amor juncado e de outono.
Wednesday, October 31, 2012
Saturday, October 27, 2012
«A PORTA» poema de Miroslav Holub (poeta checo)
Gosto tanto deste poema que li em «Notícias de Santa Isabel»
Aí vai
«Vai e abre a porta
Talvez lá fora haja
Uma árvore, ou um bosque,
Um jardim,
Ou uma cidade mágica.
Vai e abre a porta.
Talvez haja um cão a vasculhar.
Talvez haja uma cara,
Ou um olho
Ou a imagem
de uma imagem.
Vai e abre a porta.
Se houver nevoeiro
Dissipar-se-á.
Vai e abre a porta.
Mesmo que nada mais haja
que o tiquetaque da escuridão,
Mesmo que nada mais haja
Que o vento surdo,
Mesmo que
nada
haja,Vai a abre a porta.
Pelo menos
Haverá
Uma corrente de ar.»
Wednesday, October 24, 2012
Monday, October 22, 2012
MANUEL MARIA
Começaram os meus netos a fazer anos.
Uma dinastia de seis rapazes.
Hoje o Manuel. O loiro de caracóis.
Mau feitio, dizem.( Os avós tem óculos que não vêem os defeitos. São óculos que se vendem só aos avós na «Loja do avô». São grátis desde que provado o parentesco.)
O Manuel tem um coração do tamanho do mundo.
E um sorriso ainda maior que há-de resolver-lhe a vida toda.
Um beijo grande de PARABÈNS, Manuel Maria
Saturday, October 20, 2012
«COISAS» NA FEIRA DO JARDIM DA ESTRELA
Hoje, a manhã inteirinha no Jardim da Estrela à conta de um sereno sol de Outono.
Havia uma Feira, de «tralhas». Imensas «coisas» iguais às de cá de casa.
Atrevi-me a perguntar alguns preços. Nada vale nada.
Que bom que o que vale é a «história» e o «afecto»
As nossas coisas valem MUITO.
MUITO
Friday, October 19, 2012
MANUEL ANTÓNIO PINA
Só para o escrever
com palavras suas,
um poema escolhido ao acaso
AS COISAS
Há em todas as coisas uma mais-que-coisa
fitando-nos como se dissesse: «Sou eu»,
algo que já lá não está ou se perdeu
antes da coisa, e essa perda é que é a coisa.
Em certa tardes altas, absolutas,
quando o mundo por fim nos recebe
como se também nós fôssemos mundo,
a nossa própria ausência é uma coisa.
Então acorda a casa e os livros iamginam-nos
do tamanho da sua solidão.
Também nós tivemos um nome
mas, se alguma vez o ouvimos, não o reconhecemos.
NOITE
No fim do dia, a noite.
Esta e as outras noites.
Vazio ou pesadelo.
Não é uma queixa.
É que tem sido assim.
E talvez que seja para sempre assim.
Thursday, October 18, 2012
SILVÉRIO
Bem cedo, a notícia de que tinhas partido.
E logo, a lembrança do teu sorriso escancarado.
Quase as lágrimas. Um quase e um ainda não.
Um vazio ali numa igreja cheia.
Essa frase do Mário Teixeira, imperativa e firme Canta Aleluia.
A Paz da Comunhão dos Santos.
Sempre.
A Paz.
A Liberdade.
Monday, October 01, 2012
UMA MÃE GALINHA PENSANTE
Frase do dia
"Pior do que uma mãe galinha, é uma mãe galinha pensante."
Autor desconhecido
Saturday, September 29, 2012
APONTAMENTO - A DIFICULDADE DA LÍNGUA PORTUGUESA
Será que chegámos tão baixo que se julgue que racionar é mesmo parecido com racionalizar?
Sim, chegámos.
Pobre gente!
Pobre país!
NOVO VISUAL
À conta do meu analfabetismo no que respeita a gerenciar o meu blog,
o André teve por aqui um trabalhinho e ... cá está o meu blog com novo visual.
Ainda disse «é pretencioso, parece que tenho imensos livros.» Ao que a Ana replicou « E
tem mesmo»
Portanto cá estou eu com novo visual.
Saturday, September 22, 2012
SAÚDO E APLAUDO D MANUEL CLEMENTE
Sim,
saúdo e aplaudo a lucidez certeira das palavras proferidas ontem por D.Manuel Clemente no IPO do Porto
a propósito desta forma desumana a que o povo português tem estado sujeito
de se imporem restrições e mais restrições
sem que lhe seja explicado «o porquê» e «o para quê».
Friday, September 21, 2012
COLADA À TELEVISÃO
Estou mesmo chateada comigo.
Colada à televisão para "ver" e "ouvir" o que acontece (acontece?) no Conselho de Estado.
Rendo-me assim e tão irracionalmente às técnicas de marketing dos meios de comunicação social.
Entretanto vejo sim a concentração junto ao Palácio de Belém.
E acho que devia lá estar.
Colada à televisão para "ver" e "ouvir" o que acontece (acontece?) no Conselho de Estado.
Rendo-me assim e tão irracionalmente às técnicas de marketing dos meios de comunicação social.
Entretanto vejo sim a concentração junto ao Palácio de Belém.
E acho que devia lá estar.
Thursday, September 20, 2012
Comunicado do PSD à meia noite do dia 19.09
Estes senhores estão no governo para servir o povo português
Ou
Para "ganharem",
Para que o CDS se lhes submeta
E enfim lhes preste vassalagem,
Arrependido?
Saberão o que significa "Diálogo"?
Pobre país o nosso!
Ou
Para "ganharem",
Para que o CDS se lhes submeta
E enfim lhes preste vassalagem,
Arrependido?
Saberão o que significa "Diálogo"?
Pobre país o nosso!
Wednesday, September 19, 2012
DE PÉ
Pois tenho persistido.
Ou tenho tentado persistir.
Como posso.
Tal qual.
Outros passos, sim.
E tanto tempo calada! Enquanto o meu país crescia em caos. E está um caos. E é um caos.
A gente do meu país calcada. No meio da rua. Sem protecção nenhuma. Atirada p'ráli. Como se estivéssemos a mais. Como se todos estivessem a mais. Moeda de troca enquanto ...
Mas a gente do meu país nasceu no sábado. Saíu. Disse. Gritou a dor. Gritou a falta. A indigência.
Gritou a uma só voz.
Comungou a míngua.
Mas comungou.
E renasceu.
Ou tenho tentado persistir.
Como posso.
Tal qual.
Outros passos, sim.
E tanto tempo calada! Enquanto o meu país crescia em caos. E está um caos. E é um caos.
A gente do meu país calcada. No meio da rua. Sem protecção nenhuma. Atirada p'ráli. Como se estivéssemos a mais. Como se todos estivessem a mais. Moeda de troca enquanto ...
Mas a gente do meu país nasceu no sábado. Saíu. Disse. Gritou a dor. Gritou a falta. A indigência.
Gritou a uma só voz.
Comungou a míngua.
Mas comungou.
E renasceu.
Saturday, August 25, 2012
JÁ NÃO TENHO PAÍS. PRIVATIZAÇÃO DA RADIOTELEVISÃO ?
.

Parece que já não tenho país.
Como se não acreditasse...
Porquê?
Dá prejuízo. Reorçamentar, talvez. Sei lá...
Mas privatizar?
E é verdade.
Já não tenho televisão pública.
Já não tenho País.
Já não temos País.
Postei uma imagem de Maria Armanda Falcão, que mais tarde adoptou o nome de Vera Lagoa.
Em casa da bela e primeira apresentadora da TV, à conta da enorme e comum amizade pelo Armando Fiúza, conheci o Manel.
E dansámos as primeiras voltas.
Da vida toda.
Saturday, August 18, 2012
DE CLARICE LISPECTOR
Este é o texto de Clarice Lispector (de que recomendo toda a obra) citado pelo p Tolentino Mendonça na Pastoral da Cultura de 17.08. e que deu origem à escrita rápida da postagem seguinte. Só esta transcrição nos deixa compreender «o táxi», «o jardim» e a mensagem que procurei passar.
Aí vai:
Aí vai:
«Eram 2 horas da tarde de verão.
Interrompi meu trabalho, mudei rapidamente de roupa, desci, tomei um táxi que
passava e disse ao chofer: vamos ao Jardim Botânico. "Que rua?", perguntou ele.
"O senhor não está entendendo", expliquei-lhe, "não quero ir ao bairro e sim ao
Jardim do bairro." Não sei porquê, olhou-me um instante com atenção.
Deixei abertas as vidraças do carro, que corria muito, e eu já
começara minha liberdade deixando que um vento fortíssimo me desalinhasse os
cabelos e me batesse no rosto grato de felicidade. Eu ia ao Jardim Botânico para
quê? Só para olhar.
Só para ver.
Só para sentir.
Só para viver».
Só para ver.
Só para sentir.
Só para viver».
Friday, August 17, 2012
P´RA VIVER
17.08.2012
Li hoje na «Pastoral da Cultura» um artigo do p.Tolentino sobre «O acto gratuito».
Gosto de escrever a seguir à página que leio, ao filme que vejo, à situação que observo.
Hoje escrevi «isto»:
Aos
setenta e dois anos, a vida é toda assim gratuita.
Vou-me
dando conta de limites. E aceito.
É
então que me deslumbro, feliz e livre, para a beleza do
gratuito.
A
gente faz qualquer coisa porque quer, porque apetece, porque pode.
E
quantas vezes um buraco, uma pedra escura nos barra o caminho ou faz
parar
o táxi para o Jardim Botânico.
Ou
talvez não.
Posso
levar comigo o buraco, a pedra escura. Assim não barram o
caminho.
E
continuo.
No
táxi.
Para
o mesmo destino.
Sunday, August 12, 2012
PARA GUARDAR «COISAS» POSITIVAS
O amor é a ausência do Juízo ... Citações de Dalai
Não estou nada «chateada».
E resolvi coleccionar/guardar/... tudo quanto há de positivo.
1. Hoje de manhã, eu na esplanada do «Estrelas Brilhantes».
Aproxima-se um carrinho de bebé.
A moça que o transporta sorri-me.
É a Cristina, a mulher do Gonçalo.
E eu já a espreitar o Tomaz, o precioso Mello Barreto.
O cachopo ri, sorri, sei lá. Uma babadice.
Verdade mesmo, a cara do meu primo-irmão, o Victor.
Notícia MUITO POSITIVA.
Saturday, August 11, 2012
O MAIOR ABRAÇO FRATERNO DO MUNDO
Ontem, dois dos meus netos, o Francisco e o Pedro, voltaram a Évora, onde vivem, depois de terem estado no acampamento de escuteiros.
Antes de regressarem e em gesto de despedida, 17000 escuteiros deram o maior abraço fraterno do mundo.
Eu, que tenho andado tão zangada com o mundo, voltei a acreditar que o tal mundo com que me zango, há-de saber escolher «a melhor parte» -
um abraço fraterno, um inclusivo abraço fraterno.
Como o fizeram estes escuteiros.
E havemos de saborear a confiança.
05 de Agosto de 2012, 00:00
Uma semana a Escuteirar
1/8
Sunday, July 08, 2012
JOANA, OBRIGADA
Obrigada, Joana, por ter voltado a ler este quase nada que às vezes me diz.
Hoje quero elogiar O SILÊNCIO
neste caos com muita gritaria em que vivemos.
Tanta gritaria que às vezes chego a casa e carrego o botão da TV.
Desafio-me a «escutar o silêncio».
Sem mais.
Hoje quero elogiar O SILÊNCIO
neste caos com muita gritaria em que vivemos.
Tanta gritaria que às vezes chego a casa e carrego o botão da TV.
Desafio-me a «escutar o silêncio».
Sem mais.
Monday, June 11, 2012
VOLTAR
Não tem sido fácil habituar-me a esta outra forma de vida.
Hoje, sei que caminho. Mas é como um forceps.
O fim-de-semana foi bom.
Aquele encontro/almoço/palavras/sorrisos e abraços na Casa Comprida do António e da Ninah, não tem como agradecer. Não tem adjectivo. É o ponto alto de todos os encontros.
Mas voltei.
Cheguei quase à noite. Isso foi bom.
Já sei que a casa está vazia. Silenciosa.
Saber, ajuda.
«Entender», vou entendendo.
Cada dia, um pouco mais.
Mas voltar, há-de ser sempre assim. Este vazio.
Friday, June 08, 2012
TERRORISMO EM MENSAGENS E MAIL
Hoje de manhã recebi via e mail esta mensagem:
« O Presidente da XXX recebeu esta imagem e a chamou de "lixo eletrônico".
8 dias mais tarde seu filho faleceu.
Um homem recebeu esta imagem e imediatamente enviou cópias... sua surpresa foi ganhar na loteria!
XXX recebeu esta imagem, deu-a a sua secretária para fazer cópias, mas eles esqueceram de distribuí-las:
ela perdeu o emprego e ele perdeu a família.
Esta imagem é milagrosa e sagrada, não esqueça de enviá-la dentro de 13 dias a pelo menos 10 pessoas . *
Zango-me com muitos sinais como este e tantos outos do mundo em que vivo.
Isto é terrorismo puro.
Deus aparece como um ser poderoso e tirano.
O Deus da minha infância e de toda a minha vida é Deus que é Pai de bondade e de misericórdia.
Jesus Cristo é o seu Filho, homem e Deus, a viver connosco esta condição humana.
Há muitos sinais de terrorismo nos nossos dias.
E numa época de crise, de fragilidade não é difícil fazer passar esta ideia de que fazes e recebes oou não fazes e tens um castigo enorme.
Até quando o Manuel estava tão doente, eu recebia estas mensagens.
Não tenho nada a ver com isto.
Ou tenho?
No meu país, na minha cidade cidade, entre os meus amigos...
Pensar, seria bem melhor.
Seria ...
« O Presidente da XXX recebeu esta imagem e a chamou de "lixo eletrônico".
8 dias mais tarde seu filho faleceu.
Um homem recebeu esta imagem e imediatamente enviou cópias... sua surpresa foi ganhar na loteria!
XXX recebeu esta imagem, deu-a a sua secretária para fazer cópias, mas eles esqueceram de distribuí-las:
ela perdeu o emprego e ele perdeu a família.
Esta imagem é milagrosa e sagrada, não esqueça de enviá-la dentro de 13 dias a pelo menos 10 pessoas . *
Zango-me com muitos sinais como este e tantos outos do mundo em que vivo.
Isto é terrorismo puro.
Deus aparece como um ser poderoso e tirano.
O Deus da minha infância e de toda a minha vida é Deus que é Pai de bondade e de misericórdia.
Jesus Cristo é o seu Filho, homem e Deus, a viver connosco esta condição humana.
Há muitos sinais de terrorismo nos nossos dias.
E numa época de crise, de fragilidade não é difícil fazer passar esta ideia de que fazes e recebes oou não fazes e tens um castigo enorme.
Até quando o Manuel estava tão doente, eu recebia estas mensagens.
Não tenho nada a ver com isto.
Ou tenho?
No meu país, na minha cidade cidade, entre os meus amigos...
Pensar, seria bem melhor.
Seria ...
Saturday, May 05, 2012
À ESPERA, O DOCE DE MORANGO
Antes de pôr ao lume o doce de morango para ver o sorriso e o espanto do meu neto Manuel
(foi mesmo a avó que fez?),
deixo aqui o que há pouco escrevi a um amigo
- Estou mesmo quase a comprar um iPad. O André recomendou-me A mãe experimente primeiro.
Ouvi esta frase desde a infância que é preciso aprender, é preciso experimentar.
E foi assim que sozinha, muito criança, prendi a coser à máquina
e aprendi a patinar nas botas de hóquei do vizinho.
Teimosa? Sim.
Determinada? Também.
Já não tenho as botas de patins...
e coser à máquina não é nada de especial
Ainda assim, gosto do que eu gosto.
Determinada.
Sem modas
Sem «agora é assim»
Antes
«Aqui ao leme sou mais do que eu.»
(foi mesmo a avó que fez?),
deixo aqui o que há pouco escrevi a um amigo
- Estou mesmo quase a comprar um iPad. O André recomendou-me A mãe experimente primeiro.
Ouvi esta frase desde a infância que é preciso aprender, é preciso experimentar.
E foi assim que sozinha, muito criança, prendi a coser à máquina
e aprendi a patinar nas botas de hóquei do vizinho.
Teimosa? Sim.
Determinada? Também.
Já não tenho as botas de patins...
e coser à máquina não é nada de especial
Ainda assim, gosto do que eu gosto.
Determinada.
Sem modas
Sem «agora é assim»
Antes
«Aqui ao leme sou mais do que eu.»
Wednesday, May 02, 2012
Fernando Lopes
Morreu hoje
Companheiro do Manel, este senhor, estava por cá a toda a hora.
Melhor,
dele se falava,
com as suas imagens se sonhava,
os filmes vistos,
comentados,
conversados.
Custa-me o que perdemos, quem perdemos.
Como é que esta casa não tem mais o debate, a crítica, as bocas fantásticas, os serões animados
de quem está vivo?
Falta-nos o Manel. De que modo nos falta o Manel!
Mas sinceramente é terrível, dói mesmo, que falte, melhor que tenha desaparecido o gosto pela conversa sã e discutida.
O gosto dizer «assim» e o outro «assado».
Agora deparo-me com uma só ideia, uma só pessoa, uma só ....
Há muito tempo que ouvi isto.
Passado.
Indesejado.
Companheiro do Manel, este senhor, estava por cá a toda a hora.
Melhor,
dele se falava,
com as suas imagens se sonhava,
os filmes vistos,
comentados,
conversados.
Custa-me o que perdemos, quem perdemos.
Como é que esta casa não tem mais o debate, a crítica, as bocas fantásticas, os serões animados
de quem está vivo?
Falta-nos o Manel. De que modo nos falta o Manel!
Mas sinceramente é terrível, dói mesmo, que falte, melhor que tenha desaparecido o gosto pela conversa sã e discutida.
O gosto dizer «assim» e o outro «assado».
Agora deparo-me com uma só ideia, uma só pessoa, uma só ....
Há muito tempo que ouvi isto.
Passado.
Indesejado.
Tuesday, May 01, 2012
GRITADAS AS PALAVRAS
Aquelas palavras gritadas para todos, e que a tornavam o centro, o círculo (de repente Maria do Céu Guerra, o círculo de giz caucasiano...)
Aquelas palavras sobre a última notícia, a única notícia, a notícia que todos tinham que ouvir e ficar a saber
o melhor pastel de nata de Lisboa
a Aloma
aquelas palavras sem afecto sobre a Aloma,
as que tinham aparecido na televisão (a televisão no seu pior)
aquelas palavras que não diziam sobre a Aloma senão o que tinha sido dito nas televisões
a certa altura que a Aloma tinha já sessenta anos
e eu, que conhecia e me enternecia pelo sr Barreto e pelo sr Rodrigues
eu, ainda que procurasse que me ouvissem, não conseguia
eu só queria dizer a Aloma tem menos quatro anos do que eu, sessenta e sete
só para dizer a outra Aloma, a Aloma de sempre,
mas não conseguia gritar
É que não fico nada bem em notícia de abertura, em gritaria de abertura,
soui uma contadora de histórias, mesmo de histórias,
histórias entrelaçadas com afectos, com saudades, nos meus dias
histórias com coisas pequeninas,
coisas,
gestos,
palavras ou silêncios,
histórias que não dão para me fazer ouvir
não dão nem para começar
que a Aloma tenha sessenta e sete anos,
não dá.
Calei-me e em pano de fundo lembrei-me de quase tudo sobre a Aloma.
Caladinha.
lembrei-me da Aloma como também da casa de Tibaldinho
e de que afinal D. Afonso Henriques tinha nascido em Viseu e não em Guimarães,
quiça tão perto da nossa casa,
sabe-se lá, na nossa casa
Parece também que cada um só ouve o que quer ouvir
só vê o que quer ver
naquela noite eu queria mesmo ver
o meu pai apontava-me a Ursa Maior
Ali, Teresinha, ali
eu tentava e não via
até que vi
como a Maria e o André haviam de ver a mesma constelação apontada pelos dedos do Manel (tão belos os dedos do Manel)
eu a dizer noite dentro à minha mãe que tinha pesadelos
os novelos de trapo para as mantas, os novelos que pareciam sufocar-me
Hoje teço muitos novelos
fios cheio de ternura
todos os novelos
a vida cheia de novelos à espera de um sonho
de um sorriso
da laçada de ternura
a vida sempre á espera
Tuesday, April 24, 2012
A VER SE FESTEJAMOS
Há datas que doem.
Julgo que não fui a nada género lembrar, género «onde está» ou «como está» a propósito dos cinquenta anos do Concílio Vaticano II?
Custa.me não ir. E havia de custar-me ir.
Palavras Palavras E que fizemos este tempo todo? Deixámos...
Agora o 25 de Abril. Que temos nós hoje dessa grande esperança? Vozes que se revoltam. Vozes guardadas. Por mim, vou comprar os cravos. Os «tais cravos» de que o meu neto João perguntou «Estes é que são os tais cravos»?
E que venha o André pôr a tocar «Grândola» em todas as varandas.
Para mudar o bairro.
Para mudar o mundo
Para mudar a vida.
Julgo que não fui a nada género lembrar, género «onde está» ou «como está» a propósito dos cinquenta anos do Concílio Vaticano II?
Custa.me não ir. E havia de custar-me ir.
Palavras Palavras E que fizemos este tempo todo? Deixámos...
Agora o 25 de Abril. Que temos nós hoje dessa grande esperança? Vozes que se revoltam. Vozes guardadas. Por mim, vou comprar os cravos. Os «tais cravos» de que o meu neto João perguntou «Estes é que são os tais cravos»?
E que venha o André pôr a tocar «Grândola» em todas as varandas.
Para mudar o bairro.
Para mudar o mundo
Para mudar a vida.
Saturday, March 31, 2012
PALAVRAS
UMA LEITURA IMEDIATA DAS PALAVRAS,
OU
RÁPIDA, SEI LÁ
FORMA CERTA DE NINGUÉM SE ENTENDER
DE FERIR
DE SE DEIXAR FERIR.
FICA DIFÍCIL
MAS HAVEMOS DE PROCURAR
HAVEMOS DE ENCONTRAR «COMO».
OU
RÁPIDA, SEI LÁ
FORMA CERTA DE NINGUÉM SE ENTENDER
DE FERIR
DE SE DEIXAR FERIR.
FICA DIFÍCIL
MAS HAVEMOS DE PROCURAR
HAVEMOS DE ENCONTRAR «COMO».
Friday, March 23, 2012
LUTO ACADÉMICO
Há cinquenta anos, lá estávamos todos.
Julgo que todos, não, quase todos.
Eu, claro,com a anuência do meu pai, o Jorge Montez, a Isabel, a Luisa,o Manel, o Armando Fiúza,o Chico, o Beja da Costa, não sei bem, o Zé Manel Tavares de Moura, a Ni,...
Todos.
Sonhámos que tudo era possível.
E sonhamos.
Julgo que todos, não, quase todos.
Eu, claro,com a anuência do meu pai, o Jorge Montez, a Isabel, a Luisa,o Manel, o Armando Fiúza,o Chico, o Beja da Costa, não sei bem, o Zé Manel Tavares de Moura, a Ni,...
Todos.
Sonhámos que tudo era possível.
E sonhamos.
Sunday, February 26, 2012
TOMAZ DE MELLO BARRETO
Surpreendentemente
a Vida,
a Alegria,
o Espanto.
Nasceu-nos hoje, 26 de Fevereiro, o nosso querido Tomaz de Mello Barreto.
Que Deus te abençoe e proteja.
Estamos cá todos para te dar também uma mãozinha.
a Vida,
a Alegria,
o Espanto.
Nasceu-nos hoje, 26 de Fevereiro, o nosso querido Tomaz de Mello Barreto.
Que Deus te abençoe e proteja.
Estamos cá todos para te dar também uma mãozinha.
Sunday, February 19, 2012
IGREJAS CAEIRO, A VOZ , A PRESENÇA
Eu já nem sabia se o senhor ainda estava vivo.
Li em nota de rodapé, depois procurei na net.
E encontrei. Regresso à infância. Aos tempos da Radio. Essas vozes tão perto. Sabe-se lá, até parecia atrás do aparelho.
OS COMPANHEIROS DA ALEGRIA
O COMBÓIO DAS SEIS E MEIA
Pois. Morreu assim em Domingo de Carnaval. Certo com ele.
Quem é que mandou calar o Carnaval?
Ele é notícia, pois ...
Este jeito de mandarem calar pessoas, gerações, ideais, vozes ...
Fora de prazo.
Quase fria parece, a notícia. Sem memória, sem afectos.
Em casa dos meus pais, não. Parava tudo para ouvir.
Diz assim:
Morreu Igrejas Caeiro. Francisco Igrejas Caiero era um dos nomes mais marcantes da rádio, do cinema e também da televisão em Portugal. Foi afastado da antena pela ditadura do Estado Novo, por causa de declarações sobre a ocupação militar portuguesa de territórios na Índia. O regresso aos microfones só aconteceu depois do 25 de Abril. Era também actor, encenador e locutor. Igrejas Caeiro foi militante do PS, deputado à Assembleia da República e vereador da Câmara Municipal de Cascais. Igrejas Caeiro era natural de Castanheira do Ribatejo e morreu aos 94 anos.
Li em nota de rodapé, depois procurei na net.
E encontrei. Regresso à infância. Aos tempos da Radio. Essas vozes tão perto. Sabe-se lá, até parecia atrás do aparelho.
OS COMPANHEIROS DA ALEGRIA
O COMBÓIO DAS SEIS E MEIA
Pois. Morreu assim em Domingo de Carnaval. Certo com ele.
Quem é que mandou calar o Carnaval?
Ele é notícia, pois ...
Este jeito de mandarem calar pessoas, gerações, ideais, vozes ...
Fora de prazo.
Quase fria parece, a notícia. Sem memória, sem afectos.
Em casa dos meus pais, não. Parava tudo para ouvir.
Diz assim:
Morreu Igrejas Caeiro. Francisco Igrejas Caiero era um dos nomes mais marcantes da rádio, do cinema e também da televisão em Portugal. Foi afastado da antena pela ditadura do Estado Novo, por causa de declarações sobre a ocupação militar portuguesa de territórios na Índia. O regresso aos microfones só aconteceu depois do 25 de Abril. Era também actor, encenador e locutor. Igrejas Caeiro foi militante do PS, deputado à Assembleia da República e vereador da Câmara Municipal de Cascais. Igrejas Caeiro era natural de Castanheira do Ribatejo e morreu aos 94 anos.
Tuesday, February 14, 2012
14 de Fevereiro DIA DOS NAMORADOS
A MF enviou-me este texto.
Fresco.
Como tudo que começa e sempre recomeça.
A vida vale.
Também os afectos nos sustêm.
Sempre
Sentimentos Olhares Afectos
Verdade, verdade é que os sentimentos são um atraso de vida.
Paralisam ou põem tudo em rodopio.
Estremecem.
Tiram de órbita.
Afundam e ressuscitam.
Fazem rodar as quatro estações.
Na mesma tarde.
Acreditam?
Verdade, verdade é que os sentimentos atrasam. Deixam o trabalho para depois.
Despistam.
Aproximam o pó das estrelas e distanciam o pó das sebentas.
Que fazer?
Suspiros. Olhares. Olhinhos.
A linguagem passa perigosamente ao estado diminutivo sempre que os sentimentos perigosamente se expandem.
O pior é que nem pela ironia se dá.
Mas a verdade, a grande verdade é que os sentimentos interessam.
Tornam-nos gente.
Ensinam-nos a ser.
Pedem de nós o que trazemos de único e de irrepetível.
E preparam-nos para querer, para desejar receber o mesmo.
Do outro. Da outra.
Um comércio puro, gratuito.
Tão diferente, tão distante
dos rotineiros comércios.
A qualidade do nosso estar, aqui ou noutro lado, as coisas que temos ou que gostamos mesmo de aprender, os outros com que vamos tecendo o quotidiano, o sentido mais profundo que buscamos emprestar à nossa vida
dão-nos estofo. Firmeza interior.
Capacidade de construir.
Não aconteça sermos nós
uns atrasos de vida que fazem emperrar
os essenciais sentimentos.
Tolentino Mendonça
Fresco.
Como tudo que começa e sempre recomeça.
A vida vale.
Também os afectos nos sustêm.
Sempre
Sentimentos Olhares Afectos
Verdade, verdade é que os sentimentos são um atraso de vida.
Paralisam ou põem tudo em rodopio.
Estremecem.
Tiram de órbita.
Afundam e ressuscitam.
Fazem rodar as quatro estações.
Na mesma tarde.
Acreditam?
Verdade, verdade é que os sentimentos atrasam. Deixam o trabalho para depois.
Despistam.
Aproximam o pó das estrelas e distanciam o pó das sebentas.
Que fazer?
Suspiros. Olhares. Olhinhos.
A linguagem passa perigosamente ao estado diminutivo sempre que os sentimentos perigosamente se expandem.
O pior é que nem pela ironia se dá.
Mas a verdade, a grande verdade é que os sentimentos interessam.
Tornam-nos gente.
Ensinam-nos a ser.
Pedem de nós o que trazemos de único e de irrepetível.
E preparam-nos para querer, para desejar receber o mesmo.
Do outro. Da outra.
Um comércio puro, gratuito.
Tão diferente, tão distante
dos rotineiros comércios.
A qualidade do nosso estar, aqui ou noutro lado, as coisas que temos ou que gostamos mesmo de aprender, os outros com que vamos tecendo o quotidiano, o sentido mais profundo que buscamos emprestar à nossa vida
dão-nos estofo. Firmeza interior.
Capacidade de construir.
Não aconteça sermos nós
uns atrasos de vida que fazem emperrar
os essenciais sentimentos.
Tolentino Mendonça
Friday, January 13, 2012
MANHÃ
Fez anos a FF. Bom é ir fiando as linhas dos afectos. E encontrar também aí serenidade. Muita.
Tenho uns postais para enviar...
Encontrei a A tão fragilizada.Oitenta e tal anos, o marido a seu cargo e tão doente. Desafiei-a a um chá de limão só para nos sentarmos, trocar uma palavra.
«A vida é feita de nadas.»
A minha vida é mesmo feita de nadas.
A atracção que tenho pelas malhas passa por tudo isto. De fora, é mania ou é inexplicável.
Compra-se muito mais bonito e a preço acessível.
Mas vou tecendo tudo.
Abri a Pastoral da Cultura.
Leio devagar um poema de Nuno Júdice «O som dos silêncios».
Belíssimo.
De quantos silêncios nasce uma palavra?
Tenho uns postais para enviar...
Encontrei a A tão fragilizada.Oitenta e tal anos, o marido a seu cargo e tão doente. Desafiei-a a um chá de limão só para nos sentarmos, trocar uma palavra.
«A vida é feita de nadas.»
A minha vida é mesmo feita de nadas.
A atracção que tenho pelas malhas passa por tudo isto. De fora, é mania ou é inexplicável.
Compra-se muito mais bonito e a preço acessível.
Mas vou tecendo tudo.
Abri a Pastoral da Cultura.
Leio devagar um poema de Nuno Júdice «O som dos silêncios».
Belíssimo.
De quantos silêncios nasce uma palavra?
Tuesday, January 10, 2012
CONTINUAÇÃO «A CRISE»
Hoje, nem tenho grande coisa para apontar.
Mas é importante dizer aonde foi aplicada a taxa de 23º/º na minha factura de supermercado.
Assim:
Açúcar de marca branca
Pacote pequeno de Bolacha Maria tb de marca branca
Creme de soja género margarina
Enfim, e embora uns amigos me tenham oferecido o bilhete de cinema, também aí deve ter sido aplicado 23º/º. A cultura é um luxo ... Isso não mesmo
Mas é importante dizer aonde foi aplicada a taxa de 23º/º na minha factura de supermercado.
Assim:
Açúcar de marca branca
Pacote pequeno de Bolacha Maria tb de marca branca
Creme de soja género margarina
Enfim, e embora uns amigos me tenham oferecido o bilhete de cinema, também aí deve ter sido aplicado 23º/º. A cultura é um luxo ... Isso não mesmo
A CRISE
A este texto segui-se-á a listagem do que vai mudando cá por casa por causa da crise:
1 - Não tenho paciência para ser desgraçadinha e ter má cara. A ver se se conserva o sorriso e se aumenta.
2 - Levo a máquina de calcular para o Pingo Doce e vou somando até ...
3 - Mais ou menos mudo o orçamento cada dia.
(continuo amanhã)
1 - Não tenho paciência para ser desgraçadinha e ter má cara. A ver se se conserva o sorriso e se aumenta.
2 - Levo a máquina de calcular para o Pingo Doce e vou somando até ...
3 - Mais ou menos mudo o orçamento cada dia.
(continuo amanhã)
Thursday, January 05, 2012
O QUE A VIDA MUDA
EDP - ELETLECIDADE DE POLTUGAL
A paltil de Janeilo pala sua maiol comodidade pague as fatulas da EDP num dos muitos milhales
de postos de coblança existentes no Pais .... A LOJA DO CHINÊS MAIS PLÓXIMA !!!!
A paltil de Janeilo pala sua maiol comodidade pague as fatulas da EDP num dos muitos milhales
de postos de coblança existentes no Pais .... A LOJA DO CHINÊS MAIS PLÓXIMA !!!!
Thursday, December 29, 2011
29 DEZEMBRO
Os gestos de cuidado, a ternura
em mensagens, telefonemos, um chá quentinho, uma canja talvez
tudo me devolve tudo
sorrio e louvo
e que assim seja
sempre
em mensagens, telefonemos, um chá quentinho, uma canja talvez
tudo me devolve tudo
sorrio e louvo
e que assim seja
sempre
Saturday, December 24, 2011
NATAL de 2011
Mesmo agora respondi a um sms de Natal assim:
Esta noite de Natal é também um nadinha confusa.
Procuro a Paz
E louvo.
Esta noite de Natal é também um nadinha confusa.
Procuro a Paz
E louvo.
Friday, December 23, 2011
AGORA
Agora é assim.
Sem ti.
E os amigos, os filhos, os netos a telefonarem,
só por Amor.
Sementes.
Em casa, eu sem que me sufoque esta aparente solidão.
Sustem-me a nossa vida
procuro sustentar-me
Por graça, às vezes sou capaz.
Sem ti.
E os amigos, os filhos, os netos a telefonarem,
só por Amor.
Sementes.
Em casa, eu sem que me sufoque esta aparente solidão.
Sustem-me a nossa vida
procuro sustentar-me
Por graça, às vezes sou capaz.
Sunday, December 18, 2011
LEIO E APLAUDO
Eduardo Lourenço
A demanda no mundo da incerteza
É uma constatação que na nossa época, depois de tantos séculos de vida, vivida globalmente sob o signo da certeza ou das certezas, a partir de uma certeza que as englobava todas e lhes dava sentido, deparámos com algo a que nós abreviadamente ou não abreviadamente chamámos modernidade. Entrámos num período em que muitos pensadores, no interior mesmo dessa esfera que tinha sido a esfera da certeza por excelência, se puseram a discutir a natureza de verdades, sobretudo da verdade que engloba essas verdades. Abriu-se assim a porta a uma época de crise. Agora fala-se muito em crise como se acabássemos de descobrir uma novidade, quando afinal toda a modernidade é já uma época de crise e da crise como uma evidência primeira. Registe-se em todo o caso a obsessão primeira e a prática primeira daqueles que por diversos motivos se desinscrevem em relação a esses discursos que eram discursos de evidência, não só de evidência na ordem racional mas também na ordem existencial, que condicionavam tudo o que nós chamamos as atitudes em todas as ordens, desde a ordem ética à ordem cultural, num sentido geral, e mesmo à ordem social. Todos tinham alguma relação com essa época que nós podemos chamar uma época de organicidade. E de repente, particularmente no Ocidente, dá-se uma viragem. Esta crise poderá também ter existido noutras culturas que conhecemos menos bem, pelo menos eu; é possível que no interior dessas culturas tenha havido movimentos de contestação, de discussão interna. Mas eu creio que não há nenhuma História que nós conhecemos até hoje em que isso se tenha dado com tal profundidade como naquela que nós chamamos a história do Ocidente, em todo este conjunto de verdades, de referências, de valores durante tanto tempo associados ao que designamos de civilização europeia. Não só na sua fase fundadora, aquela que releva do pensamento grego, depois na sua retradução em termos ligeiramente diferentes (até mais diferentes do que as pessoas imaginam) no que nós chamamos a versão romana desses mesmos valores, que condicionam sobretudo a visão e o destino político do que nós chamamos Europa, mas também na sua fase de confrontação com o cristianismo.
E preciso ver que provavelmente a maior de todas as crises não será esta a que nós chamamos a crise da modernidade. Nós, que, entre outras, temos a herança da cultura romana, podemos imaginar a rutura no seio do Império Romano provocada pelo abalo da chegada do que chamamos o cristianismo. O advento do cristianismo foi também um momento de crise, uma crise na perspetiva do futuro. Quer dizer, o cristianismo vai triunfar historicamente, vai impor-se como um conjunto de crenças que são vividas como sendo não só como uma verdade, à maneira grega, da ordem do inteligível, uma verdade filosófica, mas como uma novidade absoluta que punha em causa toda a visão grega e vai ser ela própria, quando triunfar na ordem histórica, na sequência da institucionalização do cristianismo com a vitória de Constantino, o código cultural, religioso, dentro do qual a nossa Europa vai a pouco e pouco entrar.
Estes anos de civilização cristã são ao mesmo tempo um diálogo contínuo com o antigo mundo. Podia não ter acontecido isso. Tenho em mente outras grandes afirmações de crenças orgânicas, como seja o caso do Islão. No Islão nós não encontramos (exceto numa certa fase, induzida por aquilo que se passava no Ocidente) essa espécie de um diálogo contínuo de ter de se confrontar com a ideia de uma verdade que não é exatamente aquela que condiciona e que é a visão própria daquilo que nós chamamos a civilização cristã. Diálogo impossível no tempo anterior a Santo Agostinho. Santo Agostinho teve um papel fantástico na cultura do Ocidente porque ele viveu nos dois mundos. Conheceu os dois mundos.
Mas este diálogo não foi fácil. Que a verdade tenha sido definida por alguém em termos de "Eu sou a verdade, o caminho", é algo impossível de conceber na mente de um grego. Nenhum grego podia conceber isto. A verdade é qualquer coisa que diz respeito a uma evidência, ao conhecimento que nós temos dos objetos naturais, a começar naturalmente pelo físico. Quer dizer, em toda a filosofia antiga, aquilo a que os gregos chamam o divino é sempre uma realidade da ordem natural, aquela que obriga os homens a repensar-se diante desse espírito que é fornecido pelo cosmos e pela admiração e espanto que ele causa, donde nasce a filosofia. Penso que isso vai entrar mais tarde dentro da visão cristã. Mas a visão cristã não é dessa ordem, por mais platónica que ela se torne mais tarde. Santo Agostinho não tem essa preocupação. Ressalvando no entanto que em Santo Agostinho temos o diálogo fundamental que vai condicionar todo um pensamento ocidental, que vai tentar reconciliar com o pensamento filosófico essa certeza. Se bem que essa certeza não é uma certeza da ordem do conhecimento propriamente dito mas que é aquilo que mais tarde os grandes pensadores dessa nova visão, já em época de crise, vão apresentar como sendo da ordem do coração, e não da ordem do Cosmos, da Natureza.
Estou aqui, pois, a falar de certezas diferentes: a certeza antiga e a certeza tal como o cristianismo a vai apresentar, que é uma certeza existencial, que vai ser definida na ótica cultural do Ocidente como sendo do domínio da fé. A fé é um conceito paradoxal. Porque a fé é a mais violenta das certezas ou das evidências.
E por outro lado a fé é igualmente a consciência de que não é evidente segundo a ordem da razão, a consciência de que essas coisas em que se crê, em que, mais do que se crê, se investe a totalidade da vida, constituem a substância das coisas esperadas, esperadas segundo aquela esperança, que está inscrita em qualquer palavra das fundamentais ditas por Jesus Cristo. Pode-se falar de outra fé, a fé budista ou outras, mas não podemos misturar todos os conceitos; a fé é um fenómeno que só tem leitura no interior da nossa vivência religiosa. Pode-se falar de fé num sentido lato, mas então a fé passa a ser uma realidade de ordem psicológica que tenha em conta que qualquer manifestação humana se reporta realmente ao futuro em que nós pomos mais esperança ou menos esperança, em que acreditamos que algo se vai realizar... Mas a fé, tanto quanto penso em função da vivência cristã, é qualquer coisa de outra ordem. A fé, penso eu, é uma graça particular. Não há possibilidade de tratar da fé em termos que não sejam aqueles que são definidos pela mesma vivência e afirmação de fé. Dir-me-ão que será a mesma coisa para um muçulmano. Se eu fosse muçulmano provavelmente eu também acreditava, mas tenho a impressão de que o Alcorão me dá uma visão do que é Deus, mas na verdade essa visão de Deus no Alcorão parece-me ser mais próxima de algum modo da ideia de Deus na antiguidade.
O Deus do Alcorão não dialoga com os homens. Não se faz carne. Não incarnou. Está mais próximo de algum modo da ideia que dele faziam os antigos, desde Aristóteles, do que propriamente da experiência que funda a religião cristã. Eu penso que tudo isto se situa, se vive menos na ordem teórica que na ordem prática. Traduz uma certa maneira de um certo comportamento que unifica todos aqueles que têm essa prática. E não precisam de grandes razões de ordem teológica para justificar aquilo que lhes parece uma evidência fundamental. É mais fácil aceitar um Deus criador e senhor do mundo, que tem uma unidade, que é totalmente transcendente, que tem da parte do mundo que criou, particularmente da humanidade, uma relação de obediência, mas que não é um Deus que veicule a ideia de um amor especial em relação àquilo que criou. Parece um pouco como o Deus bíblico que tem uma proteção especial para com um povo em particular. Há uma ideia de etnicidade nesse tipo de religião. Não é o caso do cristianismo que afirma claramente que Deus incarnou. E isto não é crível humanamente falando. Isto é a notícia mais incrível que se pode imaginar. E é em função dela que se pode dizer "creio", "não creio". E crer nisto é qualquer coisa que responde aos anseios mais profundos da humanidade, mas não é suscetível de demonstração, nem sequer de mostração. É uma coisa que se transmite, como um segredo de família, de uma família nova, que aparece na Terra, de uma nova maneira de ser humano, em que os homens estão sob uma proteção especial de um Deus que cuida efetivamente deles, que não é indiferente ao destino da humanidade. De uma humanidade de cujo destino não estamos afastados, sendo de uma certa maneira, responsáveis pelo próprio destino de Deus.
De maneira que a incerteza faz parte integrante do coração da crença que exige por outro lado que nós tenhamos aquilo que nós chamamos Deus como a coisa mais evidente, mais evidente do que qualquer outra verdade humana mas de um outro género; porque se fosse do mesmo tipo das outras verdades, das verdades que nós podemos efetivamente construir ou desejar ou demonstrar, então nós estaríamos noutro tipo de atitude. Numa atitude diferente desta que nos põe a viver diante de uma crença, de uma religião que é fundada fundamentalmente sobre a confiança na palavra de alguém, de uma palavra diferente de todas as palavras. E é essa palavra e o teor dessa palavra que fundou a sua própria realidade, que a construiu.
Eu sei que Jesus dialoga sobre um fundo, não direi de conceitos, mas de evidências que são aquelas que estão realmente na Bíblia, e que de algum modo ele vai revisitar essas mensagens que estão escritas na Bíblia e dar-lhes uma outra tonalidade. São as mesmas e não são as mesmas. Não são as mesmas porque não desenham atrás dela uma voz, que é uma espécie de comando superior, uma voz de poder infinito.
Desenham uma voz contrária e essa me parece ser a novidade do cristianismo, a voz de um Deus que é não poder, que é contrária àquilo que conceptualmente nós imaginamos como seja esse poder, porque nós próprios humanos desejaríamos ter essa varinha de condão, como uma coisa mágica, que nos permitisse dominar o mundo, construir totalmente a nossa vida, etc. E o que há de espantoso em Jesus, tal como leio o Evangelho, é a visão de um Deus indigente, um Deus que não é só pai dos homens, mas que de algum modo precisa dos homens para por esses mesmos homens ser visto verdadeiramente como um Deus e não como uma força que tem o poder, como nós imaginamos, de converter os objetos, que não dá espaço possível para que o homem se viva como liberdade.
E provavelmente o que há de mais extraordinário no cristianismo é essa coincidência de uma ideia do divino como omnipotente, como todo poderoso, como nós dizemos, e o facto de que a «ação», de Deus é uma «ação» de ter concebido o homem livre, totalmente livre. Parece-me que Deus é o espaço de liberdade que os homens são capazes de conceber como sendo o espaço da única liberdade que merece esse nome. E não o contrário. O Deus cristão não é um ser que manda, que instaurou uma série de imperativos que os homens têm forçosamente que cumprir. A ideia de Deus, tal como o evangelho no-la mostra, é a ideia de um Deus que está, de uma certa maneira, à mercê daquilo mesmo que ele criou, porque somos livres para o poder recusar. Mas provavelmente não era isto que eu queria dizer (risos).
Há dois dias li um texto muito interessante do nosso caríssimo Bento Domingues intitulado assim: "Deus não sabe como se chama". Bem... nós provavelmente é que precisamos de saber como chamá-lo.
A autodefinição que vem no texto sagrado, que se dá como se fosse uma ficção, é a de uma entidade que na ordem linguística, na ordem lógica, se define como uma espécie de tautologia sublime, porque não há outra maneira de se definir. Nós não nos podemos definir assim. Se alguma vez um homem se apresentar como "eu sou quem sou", realmente já está muito próximo do internamento... (risos). Porque a experiência humana que nós temos, quer pessoal quer coletiva, não corresponde a essa autoafirmação.
Mas está escrito na Bíblia: "Eu sou quem sou", o que nos permite subentender um recado: "agora explorai essa revelação". É uma autoafirmação que não é da ordem lógica. Mas nem para essa autoafirmação é necessário recorrer a um conceito que nós chamamos fé. A fé aparece e tem razão de ser num contexto daquilo que para a experiência humana parece totalmente inaceitável. E é totalmente inaceitável numa ordem da razão que nós conhecemos, aquela que é fundadora do Ocidente e nos permite assumir o tipo de evidências a que nós acedemos, a partir daquilo que mais tarde se chamará a ciência, no sentido próprio do termo, lógica na ordem formal. Aparentemente esta afirmação "Eu sou quem sou" que me parece uma afirmação de tipo psicológico, metafísico, se quiserem, parece à primeira vista não ser diferente das visões filosóficas de um Platão, de um Aristóteles, do que é o ser, do que é o não ser.
Estamos aqui dentro daquilo que não é da ordem da fé. Por mais extraordinárias que sejam as reflexões da metafísica ocidental elas não pertencem a esse domínio. Quando S. Paulo, desejoso de ter um público que compreendesse a novidade dessa nova visão que ele tinha tido do que é o santo, o sagrado, o divino propriamente dito, mas um divino de outra ordem, tentando em Atenas criar estratégias face a um ceticismo grego de uma humanidade que, na pluralidade de deuses (algo que não é da ordem do racional mas uma forma de racionalidade que permitia domesticar a experiência humana dessa época) vê numa inscrição dedicada a todos os deuses uma inscrição pequena dedicada "ao Deus desconhecido". E S. Paulo, que é um grande retórico, diz:
"Eu venho pregar esse Deus, que vós desconheceis, vós tendes todos os deuses, mas não tendes esse Deus".
Aos gregos que representavam a razão humana mais subtil da cultura do Ocidente diz-lhes: «Vós conheceis tudo mas não tendes esse Deus».
E começa naturalmente a falar dessa nova referência, dessa nova incarnação do divino, de um Deus humano, de um Deus humano em si próprio. Os gregos estavam habituados a lidar com o pensamento de grandes filósofos mas quando S. Paulo anunciou que Jesus ressuscitou, o areópago não se riu, mas os presentes afastaram-se e foram-se embora. O que ele estava dizendo era para eles incrível.
Mas é tão incrível na hora em que ele o disse em Atenas como hoje é incrível. Não temos (e neste aspeto Wittgenstein tinha razão) nem mais meios nem mais espaço do que a linguagem, ela mesma. Porque a linguagem não está à nossa disposição. Nós somos a linguagem que dispõe de nós. Podemos sempre fazer uma inversão na linguagem como fez Tertuliano que disse: "Creio porque é absurdo". Bem... isto é considerado como o máximo da cegueira do ponto de vista humano, ou uma espécie de provocação máxima ou ainda de um mau comportamento do discurso humano. Naquela altura ainda ninguém conhecia uma experiência em termos poético-culturais chamada surrealismo. Dizer "creio porque é absurdo" não era uma graça cultural de que os intelectuais e os poetas têm o segredo. Era qualquer coisa séria. Em última análise nós também não somos os senhores daquilo que nos define no campo da razão. Aquilo que nos distingue na ordem meramente profana de todos os seres que nós conhecemos é o sermos criados assim ou de nos terem inventado assim através da História, mas a razão não está no lugar do Deus que contestamos porque é tão difícil de apreender o que se não pode nomear. A razão é o esforço máximo da inteligência humana de que é capaz para compreender o cosmos em todas as suas dimensões, de compreender o que nós somos e, na medida do possível, tentar desvendar ou antecipar o que nos espera, o nosso destino. Simplesmente, todos nós sabemos (e mesmo se não o soubéssemos, os antigos já o sabiam) que a razão é também outra coisa e que mesmo o homem antigo que vive numa espécie de luminosidade de fundo está confrontado com uma opacidade relativamente ao seu destino.
Impelido pela mais luminosa das suas intenções, o mais sábio dos homens para os gregos, Édipo, o que interrogou a Esfinge, o que se propôs decifrar o mistério sem o qual o homem não é senhor do seu destino, não percebe exatamente qual o seu destino; ele é o decifrador do enigma mas por sua vez, como se fosse realmente personagem de um conto inventado por um Kafka, que ainda não existia, ele cai na armadilha de sua própria luz, da sua própria luminosidade.
Estamos todos nesta condição. Deus está fora dessa ordem, dessa perspetiva, particular e única que é aquela que é criada. E como dizia Kierkegaard, a fé cria o seu próprio objeto. A esse título ela não se pode discutir. Não se pode discutir aquilo que é discutível. Kierkegaard diz que os homens primitivos (qualificativo hoje já um tanto rejeitado), se pedem qualquer coisa ao fetiche ou se querem que esse fetiche intervenha, e se isso faz parte da sua própria pulsão, eles estão a rezar ao Deus verdadeiro. Toda a dificuldade dos incertos do meu género é saber como se distingue o "fetiche" do Deus verdadeiro. E ainda não consegui resolver este problema mas penso que na minha maneira de encarar isto, o único fetiche de que eu me fui desprendendo chama-se efetivamente o "fetiche" da razão. Não cultivando com tanto fervor como devia esse fetiche, só me resta esperar que o não fetiche por excelência, uma outra coisa, de outra ordem, seja mais verdadeiro do que o conjunto das verdades puramente racionais, que são as minhas, de que não abdico, mas que não bastam para aquilo que ele próprio é, em certas horas de todos nós, como algo de propriamente indescritível, incompreensível, quando nós estamos diante de obstáculos que não podem sequer ser nomeados, porque nós não somos capazes de os nomear. Então aparece uma outra nomeação, uma espécie de antinomeação que seria a nomeação verdadeira.
E nessa nomeação verdadeira inscreve-se aquilo que por via racional está mais perto daqueles que vivem essa relação com a verdade em que a fé tradicional realmente é vivida. E esta é por enquanto a "prière" dum incerto e não a "antiprière" dum autor que foi para nós no Ocidente, nomeadamente para a cultura portuguesa, na 2a metade do séc. XIX, um autor que perturbou o discurso católico tradicional chamado Ernesto Renan, "A oração da Acrópole".
Eu não tenho categoria para estar na acrópole e entre as duas acrópoles, a de S. Paulo e a de Renan, ainda me inclino hoje mais para a de S. Paulo que para a de Renan.
Eduardo Lourenço
In Reflexão Cristã, nn 37-38-39 (2011) (Revista do Centro de Reflexão Cristã)
A demanda no mundo da incerteza
É uma constatação que na nossa época, depois de tantos séculos de vida, vivida globalmente sob o signo da certeza ou das certezas, a partir de uma certeza que as englobava todas e lhes dava sentido, deparámos com algo a que nós abreviadamente ou não abreviadamente chamámos modernidade. Entrámos num período em que muitos pensadores, no interior mesmo dessa esfera que tinha sido a esfera da certeza por excelência, se puseram a discutir a natureza de verdades, sobretudo da verdade que engloba essas verdades. Abriu-se assim a porta a uma época de crise. Agora fala-se muito em crise como se acabássemos de descobrir uma novidade, quando afinal toda a modernidade é já uma época de crise e da crise como uma evidência primeira. Registe-se em todo o caso a obsessão primeira e a prática primeira daqueles que por diversos motivos se desinscrevem em relação a esses discursos que eram discursos de evidência, não só de evidência na ordem racional mas também na ordem existencial, que condicionavam tudo o que nós chamamos as atitudes em todas as ordens, desde a ordem ética à ordem cultural, num sentido geral, e mesmo à ordem social. Todos tinham alguma relação com essa época que nós podemos chamar uma época de organicidade. E de repente, particularmente no Ocidente, dá-se uma viragem. Esta crise poderá também ter existido noutras culturas que conhecemos menos bem, pelo menos eu; é possível que no interior dessas culturas tenha havido movimentos de contestação, de discussão interna. Mas eu creio que não há nenhuma História que nós conhecemos até hoje em que isso se tenha dado com tal profundidade como naquela que nós chamamos a história do Ocidente, em todo este conjunto de verdades, de referências, de valores durante tanto tempo associados ao que designamos de civilização europeia. Não só na sua fase fundadora, aquela que releva do pensamento grego, depois na sua retradução em termos ligeiramente diferentes (até mais diferentes do que as pessoas imaginam) no que nós chamamos a versão romana desses mesmos valores, que condicionam sobretudo a visão e o destino político do que nós chamamos Europa, mas também na sua fase de confrontação com o cristianismo.
E preciso ver que provavelmente a maior de todas as crises não será esta a que nós chamamos a crise da modernidade. Nós, que, entre outras, temos a herança da cultura romana, podemos imaginar a rutura no seio do Império Romano provocada pelo abalo da chegada do que chamamos o cristianismo. O advento do cristianismo foi também um momento de crise, uma crise na perspetiva do futuro. Quer dizer, o cristianismo vai triunfar historicamente, vai impor-se como um conjunto de crenças que são vividas como sendo não só como uma verdade, à maneira grega, da ordem do inteligível, uma verdade filosófica, mas como uma novidade absoluta que punha em causa toda a visão grega e vai ser ela própria, quando triunfar na ordem histórica, na sequência da institucionalização do cristianismo com a vitória de Constantino, o código cultural, religioso, dentro do qual a nossa Europa vai a pouco e pouco entrar.
Estes anos de civilização cristã são ao mesmo tempo um diálogo contínuo com o antigo mundo. Podia não ter acontecido isso. Tenho em mente outras grandes afirmações de crenças orgânicas, como seja o caso do Islão. No Islão nós não encontramos (exceto numa certa fase, induzida por aquilo que se passava no Ocidente) essa espécie de um diálogo contínuo de ter de se confrontar com a ideia de uma verdade que não é exatamente aquela que condiciona e que é a visão própria daquilo que nós chamamos a civilização cristã. Diálogo impossível no tempo anterior a Santo Agostinho. Santo Agostinho teve um papel fantástico na cultura do Ocidente porque ele viveu nos dois mundos. Conheceu os dois mundos.
Mas este diálogo não foi fácil. Que a verdade tenha sido definida por alguém em termos de "Eu sou a verdade, o caminho", é algo impossível de conceber na mente de um grego. Nenhum grego podia conceber isto. A verdade é qualquer coisa que diz respeito a uma evidência, ao conhecimento que nós temos dos objetos naturais, a começar naturalmente pelo físico. Quer dizer, em toda a filosofia antiga, aquilo a que os gregos chamam o divino é sempre uma realidade da ordem natural, aquela que obriga os homens a repensar-se diante desse espírito que é fornecido pelo cosmos e pela admiração e espanto que ele causa, donde nasce a filosofia. Penso que isso vai entrar mais tarde dentro da visão cristã. Mas a visão cristã não é dessa ordem, por mais platónica que ela se torne mais tarde. Santo Agostinho não tem essa preocupação. Ressalvando no entanto que em Santo Agostinho temos o diálogo fundamental que vai condicionar todo um pensamento ocidental, que vai tentar reconciliar com o pensamento filosófico essa certeza. Se bem que essa certeza não é uma certeza da ordem do conhecimento propriamente dito mas que é aquilo que mais tarde os grandes pensadores dessa nova visão, já em época de crise, vão apresentar como sendo da ordem do coração, e não da ordem do Cosmos, da Natureza.
Estou aqui, pois, a falar de certezas diferentes: a certeza antiga e a certeza tal como o cristianismo a vai apresentar, que é uma certeza existencial, que vai ser definida na ótica cultural do Ocidente como sendo do domínio da fé. A fé é um conceito paradoxal. Porque a fé é a mais violenta das certezas ou das evidências.
E por outro lado a fé é igualmente a consciência de que não é evidente segundo a ordem da razão, a consciência de que essas coisas em que se crê, em que, mais do que se crê, se investe a totalidade da vida, constituem a substância das coisas esperadas, esperadas segundo aquela esperança, que está inscrita em qualquer palavra das fundamentais ditas por Jesus Cristo. Pode-se falar de outra fé, a fé budista ou outras, mas não podemos misturar todos os conceitos; a fé é um fenómeno que só tem leitura no interior da nossa vivência religiosa. Pode-se falar de fé num sentido lato, mas então a fé passa a ser uma realidade de ordem psicológica que tenha em conta que qualquer manifestação humana se reporta realmente ao futuro em que nós pomos mais esperança ou menos esperança, em que acreditamos que algo se vai realizar... Mas a fé, tanto quanto penso em função da vivência cristã, é qualquer coisa de outra ordem. A fé, penso eu, é uma graça particular. Não há possibilidade de tratar da fé em termos que não sejam aqueles que são definidos pela mesma vivência e afirmação de fé. Dir-me-ão que será a mesma coisa para um muçulmano. Se eu fosse muçulmano provavelmente eu também acreditava, mas tenho a impressão de que o Alcorão me dá uma visão do que é Deus, mas na verdade essa visão de Deus no Alcorão parece-me ser mais próxima de algum modo da ideia de Deus na antiguidade.
O Deus do Alcorão não dialoga com os homens. Não se faz carne. Não incarnou. Está mais próximo de algum modo da ideia que dele faziam os antigos, desde Aristóteles, do que propriamente da experiência que funda a religião cristã. Eu penso que tudo isto se situa, se vive menos na ordem teórica que na ordem prática. Traduz uma certa maneira de um certo comportamento que unifica todos aqueles que têm essa prática. E não precisam de grandes razões de ordem teológica para justificar aquilo que lhes parece uma evidência fundamental. É mais fácil aceitar um Deus criador e senhor do mundo, que tem uma unidade, que é totalmente transcendente, que tem da parte do mundo que criou, particularmente da humanidade, uma relação de obediência, mas que não é um Deus que veicule a ideia de um amor especial em relação àquilo que criou. Parece um pouco como o Deus bíblico que tem uma proteção especial para com um povo em particular. Há uma ideia de etnicidade nesse tipo de religião. Não é o caso do cristianismo que afirma claramente que Deus incarnou. E isto não é crível humanamente falando. Isto é a notícia mais incrível que se pode imaginar. E é em função dela que se pode dizer "creio", "não creio". E crer nisto é qualquer coisa que responde aos anseios mais profundos da humanidade, mas não é suscetível de demonstração, nem sequer de mostração. É uma coisa que se transmite, como um segredo de família, de uma família nova, que aparece na Terra, de uma nova maneira de ser humano, em que os homens estão sob uma proteção especial de um Deus que cuida efetivamente deles, que não é indiferente ao destino da humanidade. De uma humanidade de cujo destino não estamos afastados, sendo de uma certa maneira, responsáveis pelo próprio destino de Deus.
De maneira que a incerteza faz parte integrante do coração da crença que exige por outro lado que nós tenhamos aquilo que nós chamamos Deus como a coisa mais evidente, mais evidente do que qualquer outra verdade humana mas de um outro género; porque se fosse do mesmo tipo das outras verdades, das verdades que nós podemos efetivamente construir ou desejar ou demonstrar, então nós estaríamos noutro tipo de atitude. Numa atitude diferente desta que nos põe a viver diante de uma crença, de uma religião que é fundada fundamentalmente sobre a confiança na palavra de alguém, de uma palavra diferente de todas as palavras. E é essa palavra e o teor dessa palavra que fundou a sua própria realidade, que a construiu.
Eu sei que Jesus dialoga sobre um fundo, não direi de conceitos, mas de evidências que são aquelas que estão realmente na Bíblia, e que de algum modo ele vai revisitar essas mensagens que estão escritas na Bíblia e dar-lhes uma outra tonalidade. São as mesmas e não são as mesmas. Não são as mesmas porque não desenham atrás dela uma voz, que é uma espécie de comando superior, uma voz de poder infinito.
Desenham uma voz contrária e essa me parece ser a novidade do cristianismo, a voz de um Deus que é não poder, que é contrária àquilo que conceptualmente nós imaginamos como seja esse poder, porque nós próprios humanos desejaríamos ter essa varinha de condão, como uma coisa mágica, que nos permitisse dominar o mundo, construir totalmente a nossa vida, etc. E o que há de espantoso em Jesus, tal como leio o Evangelho, é a visão de um Deus indigente, um Deus que não é só pai dos homens, mas que de algum modo precisa dos homens para por esses mesmos homens ser visto verdadeiramente como um Deus e não como uma força que tem o poder, como nós imaginamos, de converter os objetos, que não dá espaço possível para que o homem se viva como liberdade.
E provavelmente o que há de mais extraordinário no cristianismo é essa coincidência de uma ideia do divino como omnipotente, como todo poderoso, como nós dizemos, e o facto de que a «ação», de Deus é uma «ação» de ter concebido o homem livre, totalmente livre. Parece-me que Deus é o espaço de liberdade que os homens são capazes de conceber como sendo o espaço da única liberdade que merece esse nome. E não o contrário. O Deus cristão não é um ser que manda, que instaurou uma série de imperativos que os homens têm forçosamente que cumprir. A ideia de Deus, tal como o evangelho no-la mostra, é a ideia de um Deus que está, de uma certa maneira, à mercê daquilo mesmo que ele criou, porque somos livres para o poder recusar. Mas provavelmente não era isto que eu queria dizer (risos).
Há dois dias li um texto muito interessante do nosso caríssimo Bento Domingues intitulado assim: "Deus não sabe como se chama". Bem... nós provavelmente é que precisamos de saber como chamá-lo.
A autodefinição que vem no texto sagrado, que se dá como se fosse uma ficção, é a de uma entidade que na ordem linguística, na ordem lógica, se define como uma espécie de tautologia sublime, porque não há outra maneira de se definir. Nós não nos podemos definir assim. Se alguma vez um homem se apresentar como "eu sou quem sou", realmente já está muito próximo do internamento... (risos). Porque a experiência humana que nós temos, quer pessoal quer coletiva, não corresponde a essa autoafirmação.
Mas está escrito na Bíblia: "Eu sou quem sou", o que nos permite subentender um recado: "agora explorai essa revelação". É uma autoafirmação que não é da ordem lógica. Mas nem para essa autoafirmação é necessário recorrer a um conceito que nós chamamos fé. A fé aparece e tem razão de ser num contexto daquilo que para a experiência humana parece totalmente inaceitável. E é totalmente inaceitável numa ordem da razão que nós conhecemos, aquela que é fundadora do Ocidente e nos permite assumir o tipo de evidências a que nós acedemos, a partir daquilo que mais tarde se chamará a ciência, no sentido próprio do termo, lógica na ordem formal. Aparentemente esta afirmação "Eu sou quem sou" que me parece uma afirmação de tipo psicológico, metafísico, se quiserem, parece à primeira vista não ser diferente das visões filosóficas de um Platão, de um Aristóteles, do que é o ser, do que é o não ser.
Estamos aqui dentro daquilo que não é da ordem da fé. Por mais extraordinárias que sejam as reflexões da metafísica ocidental elas não pertencem a esse domínio. Quando S. Paulo, desejoso de ter um público que compreendesse a novidade dessa nova visão que ele tinha tido do que é o santo, o sagrado, o divino propriamente dito, mas um divino de outra ordem, tentando em Atenas criar estratégias face a um ceticismo grego de uma humanidade que, na pluralidade de deuses (algo que não é da ordem do racional mas uma forma de racionalidade que permitia domesticar a experiência humana dessa época) vê numa inscrição dedicada a todos os deuses uma inscrição pequena dedicada "ao Deus desconhecido". E S. Paulo, que é um grande retórico, diz:
"Eu venho pregar esse Deus, que vós desconheceis, vós tendes todos os deuses, mas não tendes esse Deus".
Aos gregos que representavam a razão humana mais subtil da cultura do Ocidente diz-lhes: «Vós conheceis tudo mas não tendes esse Deus».
E começa naturalmente a falar dessa nova referência, dessa nova incarnação do divino, de um Deus humano, de um Deus humano em si próprio. Os gregos estavam habituados a lidar com o pensamento de grandes filósofos mas quando S. Paulo anunciou que Jesus ressuscitou, o areópago não se riu, mas os presentes afastaram-se e foram-se embora. O que ele estava dizendo era para eles incrível.
Mas é tão incrível na hora em que ele o disse em Atenas como hoje é incrível. Não temos (e neste aspeto Wittgenstein tinha razão) nem mais meios nem mais espaço do que a linguagem, ela mesma. Porque a linguagem não está à nossa disposição. Nós somos a linguagem que dispõe de nós. Podemos sempre fazer uma inversão na linguagem como fez Tertuliano que disse: "Creio porque é absurdo". Bem... isto é considerado como o máximo da cegueira do ponto de vista humano, ou uma espécie de provocação máxima ou ainda de um mau comportamento do discurso humano. Naquela altura ainda ninguém conhecia uma experiência em termos poético-culturais chamada surrealismo. Dizer "creio porque é absurdo" não era uma graça cultural de que os intelectuais e os poetas têm o segredo. Era qualquer coisa séria. Em última análise nós também não somos os senhores daquilo que nos define no campo da razão. Aquilo que nos distingue na ordem meramente profana de todos os seres que nós conhecemos é o sermos criados assim ou de nos terem inventado assim através da História, mas a razão não está no lugar do Deus que contestamos porque é tão difícil de apreender o que se não pode nomear. A razão é o esforço máximo da inteligência humana de que é capaz para compreender o cosmos em todas as suas dimensões, de compreender o que nós somos e, na medida do possível, tentar desvendar ou antecipar o que nos espera, o nosso destino. Simplesmente, todos nós sabemos (e mesmo se não o soubéssemos, os antigos já o sabiam) que a razão é também outra coisa e que mesmo o homem antigo que vive numa espécie de luminosidade de fundo está confrontado com uma opacidade relativamente ao seu destino.
Impelido pela mais luminosa das suas intenções, o mais sábio dos homens para os gregos, Édipo, o que interrogou a Esfinge, o que se propôs decifrar o mistério sem o qual o homem não é senhor do seu destino, não percebe exatamente qual o seu destino; ele é o decifrador do enigma mas por sua vez, como se fosse realmente personagem de um conto inventado por um Kafka, que ainda não existia, ele cai na armadilha de sua própria luz, da sua própria luminosidade.
Estamos todos nesta condição. Deus está fora dessa ordem, dessa perspetiva, particular e única que é aquela que é criada. E como dizia Kierkegaard, a fé cria o seu próprio objeto. A esse título ela não se pode discutir. Não se pode discutir aquilo que é discutível. Kierkegaard diz que os homens primitivos (qualificativo hoje já um tanto rejeitado), se pedem qualquer coisa ao fetiche ou se querem que esse fetiche intervenha, e se isso faz parte da sua própria pulsão, eles estão a rezar ao Deus verdadeiro. Toda a dificuldade dos incertos do meu género é saber como se distingue o "fetiche" do Deus verdadeiro. E ainda não consegui resolver este problema mas penso que na minha maneira de encarar isto, o único fetiche de que eu me fui desprendendo chama-se efetivamente o "fetiche" da razão. Não cultivando com tanto fervor como devia esse fetiche, só me resta esperar que o não fetiche por excelência, uma outra coisa, de outra ordem, seja mais verdadeiro do que o conjunto das verdades puramente racionais, que são as minhas, de que não abdico, mas que não bastam para aquilo que ele próprio é, em certas horas de todos nós, como algo de propriamente indescritível, incompreensível, quando nós estamos diante de obstáculos que não podem sequer ser nomeados, porque nós não somos capazes de os nomear. Então aparece uma outra nomeação, uma espécie de antinomeação que seria a nomeação verdadeira.
E nessa nomeação verdadeira inscreve-se aquilo que por via racional está mais perto daqueles que vivem essa relação com a verdade em que a fé tradicional realmente é vivida. E esta é por enquanto a "prière" dum incerto e não a "antiprière" dum autor que foi para nós no Ocidente, nomeadamente para a cultura portuguesa, na 2a metade do séc. XIX, um autor que perturbou o discurso católico tradicional chamado Ernesto Renan, "A oração da Acrópole".
Eu não tenho categoria para estar na acrópole e entre as duas acrópoles, a de S. Paulo e a de Renan, ainda me inclino hoje mais para a de S. Paulo que para a de Renan.
Eduardo Lourenço
In Reflexão Cristã, nn 37-38-39 (2011) (Revista do Centro de Reflexão Cristã)
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