Thursday, June 19, 2008

HOMENAGEM AO CABELEIREIRO DA GRAÇA


Claro, em Campo de Ourique.
Comecei por ir lá porque era barato.
Continuei. Ficava «mais compostinha».

Hoje vou mais vezes, ... A ver se esta gordura horrível, fica menos visível com o cabelo ajeitado.
E o trabalho é bom.
Por justiça e homenagem, quero dizer que este espaço é de convívio e é de ajuda.
Toda a gente é bem recebida. Além do arranjo do cabelo, a Graça ou a Diana e até a empregada dão sempre uma palavra de ânimo. Procuram indicar um médico se há uma doença e mesmo quando é grave dizem que vai correr tudo bem; quando alguém anda p'rá aí ao sabor do tempo sem porquê insistem com zelo que fique mais um bocadinho, sempre está acompanhada.
Interessam-se. Cuidam.
Voltamos mais animadas. Falámos. quantas vezes desabafámos ou trocámos experiências. Dissemos dificuldades. E também alegrias. E ficamos contagiadas por esse cuidado.

É verdade que há outros espaços assim neste bairro. Sobretudo os cafés. E a farmácia. (devo estar a omitir alguns injustamente.... )

Tenho pensado nesta realidade.
E noutra realidade que aqui deixo em jeito de desbafo, mas com dor - Por convicção católica e ainda com vontade para muitas tentativas de procurar mais humana a Igreja que escolhi e escolho, gostava tanto de ver o espaço da igreja do meu bairro, um bocadinho que fosse, mais parecido com o cabeleireiro da Graça.
Aqui a esperança é difícil.
E por feitio, teimo. Desistir não é mesmo comigo.

Tuesday, June 17, 2008

DE COMBOIO...


Acabo de ler a última postagem do André. E gostei tanto. Tive muita vontade de fazer uma viagem de comboio. Toda a vida me seduziram. Desde aqueles em que voltava de Tibaldinho e antes de Lisboa passava o túnel do Rossio. Depois, meia a dormir, já no taxi p'ra casa, ouvia a minha mãe Teresinha, olha, estamos quase a chegar. Entreabria os olhos e via os anúncios com luzes a piscarem. Uma máquina Singer com as rodas a rodarem mesmo. Eu acordava.
E tantas viagens! Sempre p'ra Tibaldinho. Sempre para essa casa «de sempre». Ainda hoje para lá telefonei, que lhe dessem uma limpezasinha . E como é bom voltar. É que a casa «de sempre» contem a vida toda. Inteirinha. Inteiros os afectos. Os sonhos. As loucuras. As gerações de todos os que lá viveram e me amaram, eles que nas coisas de nada - cada ano descubro mais algumas - dizem também a vida.

Ficava aqui , feliz a escrever! São três e meia da manhã. Já não há televisões , nem telefonias, nem futebol, nem barulho nenhum. Não tocam os telefones. Não há palavras de encontro ou desencontro. Nas traseiras não há luzes. Mas julgo que a prudência me manda que durma qualquer coisa. Amanhã é o último dia para dar uma mão aos rapazes com exame de Língua Portuguesa na quarta-feira. E mais outras tarefas. Vou render-me... E tenho tanta pena de não ficar por aqui.

Só mais umas palavras - também havia - e lembro-me - viagens de comboio a noite toda. Parece que se chamava o comboio do correio, já não sei. Numa delas, teria dez anos, nove e eu ia com o meu pai. Olhei a noite muito escura p'la janela. Foi quando lhe perguntei e já sabia a resposta Pai, quando se morre o céu não é lá em cima, pois não?

Bem, vou então render-me. Vou deixar esta viagem de comboio que me trouxe a postagem do André e que agradeço.

Também estou pr'áqui com umas lágrimas a saltarem. Não, não vou deixar.

Friday, June 13, 2008

O NOME «ANTÓNIO»


Gosto do nome António.

Tive um avô António, que não falava, quase não comia. e deu-me um dia o mais que soube. Uma nota de 20 escudos. Morreu numa quinta-feira. Sei, porque era o dia do Suplemento Juvenil do Século e cairam-me nele imensas lágrimas. Imensas lágrimas.

Também o meu padrinho era António. Chamávamos-lhe Titão, sei lá porquê. Apaixonou-se por Tibaldinho, onde ia todos os anos, num daqueles carros que já nem consigo visualizar e que a minha avó enchia de couves e batatas. O quarto onde ficava, é de certo modo, ainda o seu. Um dia, às escondidas do meu pai, deixou-me guiar até ao Cruzeiro da Lama... Bem... espero que os rapazes não leiam isto.

Hoje tenho imensos Antónios de quem gosto muito e a quem mandei uma mensagem por telemóvel.

Muitos amigos. E muito bons.
Um cunhado que adoro.
Um compadre tão especial.

E um neto, o mais pequeno, o mais lindo de todos os Antónios.

Gosto do nome «António»...

MAIS PERTO...

Soubesse eu fazer a transcrição certa de um diálogo como a C do 100nada (já não sei se é assim o nome do blog...).
E tento. Em tema e tempo tão diverso.

Fim do dia, ao telefone

-É a Teresa?
Eu, que sim.
- Fala M M.Às vezes sou rápida e percebi quem era. A voz firme. E um jeito de afecto amigo, que passava, não sei explicar como.
- Olá, viva. Como estás?
- Olha vamos procurando resistir.
Eu a julgar que percebia aquele «resistir», tantas vezes tão sentido.
- É isso. Vamos tentando. Olha, como está a J?
- A J morreu. Foi há dez dias.
Disse-me assim a morte da mulher.
Com a mesma firmeza. Como se fosse natural, dizer-me aquilo assim.
E perguntou-me ainda pelos meus filhos, pelo Manel, pelos meus netos.
Como se fosse natural.

Agradeço-te muito, M.
Esta notícia assim com que também disseste a amizade que nos tens.

«Procuramos resistir.»
Firmes.
E vivos.
Sabendo o sabor da morte, cada vez mais perto.
Sabendo...

Sunday, June 08, 2008

E O RESTO?

Diante de mim, a noite, com uma lista de tarefas a cumprir manhã cedo.
Mas não resisto a estas palavras que não chegam a ser um apontamento.
Palavras entre a indignação e a festa.
Pois, a festa pela vitória de sábado no Portugal-Turquia.
E a indignação.
Porque todos os noticiários de domingo começavam com a mesma notícia, as mesmas imagens, as mesmas palavras. E eram longuíssimos.
Porque nos meus quase sessenta e oito anos nunca ouvi falar tanto de futebol no meu país.
Nunca. Nem no tempo de que nem quero dizer o nome.
Nada volta atrás e não seria bom.
Mas será isto andar para a frente?
O que é feito do «resto»?
Quem é que conta «o resto»?

E «o resto» é tanto, «o resto» é mesmo tanto...
Às vezes está tão perto.

Mas não vende. E não anestesia.

Monday, June 02, 2008

A ZARAGATOA

Até fui ao dicionário ver se existia esta palavra. Existe e diz «pequena esponja na ponta de um pauzinho para aplicar medicamentos na garganta».
Pois para mim, é a cura das anginas, das placas brancas que tenho tido a vida toda.
Para mim, é Tibaldinho. Eu regaladinha na cama a ler a condessa de Ségur, depois a Brigitte, depois Eça.
E sempre o meu pai. Mãozinha certeira. A zaragatoa que sempre me curou.
Estou outra vez, mais uma vez, com anginas. O Centro de Saúde. Um antibiótico fortíssimo. E eu, de rastos.

Faz-me falta a zaragatoa.
E passados estes anos todos espanto-me com essa mão certeira do meu pai, a quem nunca vi fazer o que quer que fosse em casa. O meu pai até pedia que lhe trouxessem um copo de água... Mas ia certinha a ponta do pauzinho aos pontos brancos da minha garganta.
Admirei sempre o meu pai por muitas coisas. Muitas mesmo. Também por essa milagrosa zaragatoa.

NB - Para as gerações de hoje, não façam isso aos cachopos, OK?

Wednesday, May 28, 2008

APOSENTAÇÃO,CHUVA DE MAIO...MALHAS PARA TECER.


Nada como uma reforma para «não ter tempo». E isso é bom. Pincelo os dias com vida. Às vezes até me condeno por «estar a dar pouco rendimento.» E estou. Mas verdade, verdade, são sessenta e sete, quase sessenta e oito.

Agora mesmo ia estender uma ropinha. E chove. É uma chuva mansa.
Esqueço a roupa e tento que esta serenidade tome conta de mim. Chover em Maio é qualquer coisa ao contrário. Contra a corrente. E não sei de quem as palavras «Chuva de Maio, melodia mansa, desejos brandos ...». Não sei de quem. Mas são de longe. De outrora e de hoje. Como em francês se diz «jadis».

Teço as últimas malhas da colchinha do bebé da C. Com esta serenidade de quem aprende a esperar. De quem quer aprender sempre a esperar.

E deixo ainda um pedido de desculpas à Inês. À quarta-feira, é um dia ocupado. Vou à catequese com os Marias.

E também um agradecimento ao Manel que me disse que ontem era o dia dos vizinhos. Maravilha! À falta de tempo para organizar um encontro num patamar, enfiei na caixa de correio de cada um, um chocolate. Marca branca. Pingo Doce. E um cartão. Umas palavras.

Está-se a ver que a minha vida só é rentável em afectos.
E fico serenamente agradecida.

Sunday, May 18, 2008

INÊS


Vá lá, Inês, confirme-me que leu a minha resposta em comentário na postagem anterior.
Para que eu fique tranquila, OK?
OK não se diz, mas vá...

Saturday, May 03, 2008

MULHER A DIAS VENDEDORA DE RAMOS DE ESPIGAS E DE AFECTOS


Pois eu já me esquecia de escrever o elogio enorme e sentido à Maria de Lourdes, que trabalhou a dias em casa dos meus sogros.
Há muito tempo que se mudou para fora de Lisboa.
Masvolta, todos os anos em dia de espiga, a carrinha carregada de molhos - papoilas, oliveira, espigas.

Na quinta feira fui regar cedinho as plantas da varanda e da esquina sôtora...(é assim que me trata).

Como eu não saí nem para ir ao café , ela veio cá a casa, um alguidar cheio de molhos. P'ra sôtora escolher.

Depois quer saber dos meninos que são os meus filhos. E faz-me confidências.

Bem haja, Maria de lourdes pela festa que traz nesses molhos.
Bem haja pela amizade sempre dita e renovada.

P'ró ano então, se Deus quiser.
Até lá saudades suas.

Friday, May 02, 2008

Agora ..


... só é o tempo de pensarmos nos afectos.
... e de os dizer,
quando podemos,
se podemos.
... talvez vejas que sorrio para ti, na distância a que deixaste a memória, os caracóis, os calções e essas aulas, já nem sei.
... e eu sem entender essa distância.

Agora, só é o tempo dos afectos. E de insistir no sorriso, devagar.

Vou tecer malhas para a manta do bebé da Catarina. E imagino ou sonho que deixando malhas por aí, escrevo os afectos.

Lá fora é Primavera. Há rosas no quintal. E sardinheiras.
Poiso a mão no teu ombro.
E estou aqui.

Friday, April 25, 2008

CHEGA O DIA AO FIM

E deixo tantas tarefas por cumprir.
E eu com dificuldade em aprender que é preciso deixar tarefas por cumprir.

Bom mesmo foi a tal senhora que me vendeu cravos e me disse há trinta e quatro anos que os vendo.

Bom foi um senhor ainda mais idoso do que eu a comprar-lhe um molho enorme.

Bom foi um amigo que, já eu quase em casa, atravessa a rua para me perguntar Onde é que compraste esses cravos.

Bom foram os comentários que me escreveram (a propósito Joana, sou tão incapaz que não consigo postar-lhe nada ...)e as postgens que li.

Bom, o cafezinho com a Z em honra do 25 de Abril.

Bom o casamento do Vítor Esteves, hoje, cm Tibaldinho e com muita festa.

Para todos e por tudo, os cravos ali na sala em lugar de honra.
Hoje
e
Sempre.

25 DE ABRIL HOJE


Quero sair p'rá rua.
Quero ver como «se anda por aí» (esta expressão não me parece muito bem...)
Quero dizer que vale a pena
Quero que o 25 de Abril seja hoje

Temos muitas memórias.
Mas quero este dia hoje.

Sei que vou encontrar uma senhora que vende cravos aqui, em Campo de Ourique, desde esse dia de 74. Ela vai dizer-me Há tantos anos que vendo cravos à senhora.
Sempre caríssimos.
E vou comprar-lhos. Poucos, já que a crise bate a todas as portas. Mas não mata a alegria nem a esperaança.

Ela
Eu
E algumas pessoas dizem que o 25 de Abril é também HOJE.

Wednesday, April 23, 2008

MONUMENTOS ÀS VÍTIMAS DA INQUISIÇÃO EM LISBOA

Vi hoje e saúdo os monumentos às vítimas da inquisição no Largo de S. Domingos em Lisboa.

Recomendo uma ida até lá.
E uma reflexão a todas as formas de intransigência que nos atravessam.

Para que nenhuma nos mova. Nunca.

Nota - Não tenho ainda nenhuma imagem. Os monumentos são lindos. Prometido que mal que tenha, ponho-as aqui.

ORAÇÃO PARA NOS LIVRAR DA TENTAÇÃO DA OMNIPOTÊNCIA

No último seminário da igreja de sta Isabel foi-nos dada esta oração de Pierre Faucher, que quero dizer todas as noites. Que me há-de ajudar a deixar o que não posso, a desprender-me do que não está ao meu alcance, a saber que realmente não sou Deus.

«Senhor, ensina-nos a repousar.
Ensina-nos
a deixar as coisas em suspenso,
a não querer arrumar tudo antes de dormir.
Ensina-nos
a aceitar estarmos cansados.
Ensina-nos a acabar uma jornada;
senão
nem saberíamos morrer.
Porque, depois de nós,
ainda haverá trabalho...
Ensina-nos
a aceitar que não somos Tu.»

SERÕES


Cá em casa é assim:

O Manel está tão cansado com um trabalho sem intervalo, que à noite sai da casa de jantar para o maple da sala. Liga o comando num canal qualquer. Eu ponho a loiça na máquina em dez minutos-somos só dois- e de volta à sala vejo-o a dormir com o tal comando na mão, cabeça e mãos pendidas... Às vezes assusto-me mesmo e chamo Manel. Quando ele ouve, o que é bom, responde deixa-me ou deixa-me estar.
Mas às vezes não responde,...

Parece que são assim os serões dos mais velhos. A mim ainda me custa. O melhor mesmo é seguir o conselho do nosso filho André Mãe, deixe o homem dormir.

Sunday, April 06, 2008

PARA LER E PENSAR

Porque inteiramente de acordo, transcrevo parte do artigo de Fr Bento Domingues publicado no domingo, dia 6, no jornal «Público» com o título Educação e cidadania,

«1. Alguns professores mostraram-se mais à vontade na televisão e na rua do que na escola. Nas televisões e na rua, foram expeditos a descompor o primeiro-ministro, a ministra, o ministério e os encarregados de educação. Na escola, queixam-se de não conseguirem dar aulas por medo dos alunos. Estes gozam de um estatuto que os torna indomáveis. Se, ainda há pouco, os professores eram considerados responsáveis pelo insucesso escolar, agora, a indignação voltou-se contra os alunos e os pais: cada turma deveria ter um segurança e cada professor um guarda-costas, sem recorrer aos psicólogos, aliados naturais da permissividade.
Alegrou-me ver, na televisão, o Prof. José Gameiro, psiquiatra, resistir à histeria criada em torno de um telemóvel – um dos novos símbolos mais estimados de adolescentes e jovens – transformada em arma política. Em relação à boa disciplina e segurança, tenho a referência da minha escola, nos começos dos anos 40 do século passado: nada de falinhas mansas; o marido da professora era um legionário de mão pesada, a quem ela recorria com frequência. A delicadeza dos pais sublinhava: “só se perdem as que caem no chão”.
2. Tenho, no entanto, alguma dificuldade em acreditar que alunos, professores, pais, funcionários e responsáveis do ministério se encontrem bem identificados nas imagens registadas nas últimas semanas. Aproveitando a onda, os professores queixosos talvez não sejam o único espelho da escola em Portugal.
Os meios de comunicação, em alguns casos, ainda não se libertaram da triste sina que lhes colaram: uma boa notícia não é notícia. Depois de terem colaborado na liquidação do ministro da saúde, acabaram por tecer os maiores elogios às medidas que ele tinha tomado, lamentando a sua saída como vítima de uma política eleitoralista...
Por outro lado, dizer que, em Portugal, é sempre assim, que nunca sabemos valorizar o que temos, que estamos sempre na cauda de tudo até na cauda do reconhecimento dos nossos méritos, alarga a maledicência, mas não cria alternativas. Os problemas não estão, isoladamente, na família, na escola, nos meios de comunicação, no futebol, na sociedade civil ou no Estado, nem se podem atribuir todas as graças e desgraças à globalização. O recurso a bodes expiatórios, fixando-se só em algumas pessoas, grupos, corporações, instituições, etnias, acaba por ter culpados de turno, mas não gera correntes diversas de cidadania responsável, que respeitem o princípio da boa medida e do bom senso.»

Monday, March 24, 2008

SEGUNDA FEIRA DE PÁSCOA, LIMPEZAS E POESIA


Foi com boa vontade que disse ao Manel Hoje nem saio de manhã. Vou dar uma mãozinha e trabalhar com a D.
Ele concordou pois tem que ser.

E eu três horas e meia a dizer é preciso limpar o parapeito. Olhe, é melhor abrir a janela primeiro... Estes livros estão cheios de pó...

Tentei mostrar-me paciente. Mas deixei de certeza passar «uma certa fúria».
A D a certa altura disse-me lá no Banco sou encarregada de toda a limpeza. E olhe que há lá tanto livro para limpar...

Bem, nem respondi.
Aquele parapeito ficou limpo. E mais duas prateleiras do quarto de trabalho. E a D. a precisar tanto do trabalho que lhe dou.

Amanhã vou sair bem cedinho. Vou mesmo.

Porque é que me lembro daquele poema de Manuel da Fonseca
«Ah as coisas incríveis que eu te contava assim misturadas com luas e estrelas
e o olhar vagaroso como o andar da noite!»

E que terminava mais ou menos assim

«Mas o certo é eu ser o terceiro oficial de finanças. da Câmara Municipal ...»

Nem o poeta alguma vez se resignou, nem eu.

O certo é eu ir sair. Cedinho.

Sunday, March 23, 2008

DA PACIFICAÇÃO OU DA SABEDORIA


Estou a ver o programa de homenagem à Simone.
Julgo que sempre gostei dela.
Admiro-lhe a determinação.
A coragem nas dificuldades. A alegria na luta permanente.

E depois gosto desse «gosto» pelas palavras. Que sempre lhe vêm de dentro.

Ao contrário, sempre «embirrei» um bocado com a Madalena Iglésias.

Hoje, aplaudo as duas. Vi-as no mesmo palco. Abraçadas. A cantar a vida.

É esta a sabedoria que os anos nos dão.
Benção do tempo.

DOMINGO DE PÁSCOA

Acordo e é Páscoa.
Está sol.

Quero guardar o sol.
E todos os recomeços. Ditos em palavras, em sorrisos, em silêncio, ditos em todos os afectos com que sustento a vida.

Louvo a manhã de Páscoa.

Sei quanto é verdadeira toda a ressurreição. É que que no meu bairro as pessoas dizem «Bom dia e boa Páscoa»
Recebo emails, sms, cartões, telefonemas.

Não há que duvidar.
Manhã.

Boa Páscoa para os que por aqui passarem. Com a plenitude da luz desta e de todas as manhãs.

Sunday, March 16, 2008

DOMINGO DE RAMOS


Ainda que pressionada por um tempo sempre exíguo, quero escrever esta postagem. Como se a cada um oferecesse um raminho.
É que hoje é Domingo de Ramos.
Neste dia, dantes, era hábito que os afilhados oferecessem aos padrinhos um raminho de flores. Singelo que fosse.

Vou encher a casa de verduras, talvez apanhadas do quintal que valem mais.

Gosto muito do evangelho inicial. Jesus entra em Jerusalém montado num jumentinho, «filho de uma jumenta»
Não se trata de uma entrada triunfal. É «num jumentinho...»

Se alguém se sentir motivado, encha também a sua casa de ramos . «Ramos de árvores» ou raminhos.
Para dizer talvez que na morte que havemos de ouvir esta semana, há uma esperança de vida.
Uma esperança...
Um raminho...

Tuesday, March 04, 2008

UMA HISTÓRIA SIMPLES


Pronto, enganei-me. O segundo filme chama-se «Uma história simples».

E lindo, lindíssimo.

Sunday, March 02, 2008

FILMES




Os filmes moram na nossa casa. Arrisco afirmar que habitam o coração de cada um de nós.
Sem explicação, hoje vamos menos ao cinema. Falta de tempo? Falta de dinheiro? Nada disso, quando éramos mesmo novos, nessa altura sim, tempo e dinheiro eram escassos e raros. Mas íamos. O que foi muito bom! Pelo menos, deixou esta paixão.

Escrevo «isto» a propósito dos filmes que foram o tema da festa de anos do Manuel. È que só podia...
E de dois filmes vistos há pouco tempo.
«Expiação» e «Uma vida simples».
«Expiação» é em tudo um filme lindo. Todo o décor. A música. As personagens. Os gestos. E o problema da culpa, real ou imaginária. Toca-me muito. É que transporto sempre uma culpa qualquer que mais nasce da dúvida, da escolha constante «entre isto ou aquilo». Este espaço intranquilo.

Mais me tocou «Uma vida simples».
Aquela viagem decidida, tranquila, longa, num carrito cortador de relva que puxava um atrelado enorme.
Aquela viagem de um velho para ir ter com um irmão que sofrera um AVC. Um irmão com quem estava desavindo.
Aquela viagem para a reconciliação. Para o encontro com quem o conhece melhor do que ninguém.
Por causa da infância comum.
Por causa da noite carregada de estrelas, que olhavam, meninos.
Ao rever «Uma vida simples», também eu fiz uma viagem. Pela vida toda.
Muitas vezes penso que a eternidade talvez seja esse ver e rever a vida toda. Alcançada enfim a serenidade. E as estrelas hão-de ser talvez todos os lugares. E todas as pessoas. Todas as mesas de festa onde estendi as toalhas de linho. E essa insistente tentativa de acolher bem.
As estrelas talvez sejam todas as malhas que teci para os meus netos. E para outros meninos.
As estrelas, pontos de afecto e de ternura da minha «vida simples».

QUERIDO PROFESSOR VITORINO




Ouvi na radio «Trinta anos passados da morte de Vitorino Nemésio».
Esperei então um tempo sem pressa para lhe dizer a gratidão por o ter tido como Professor.
Rendo-me. E aqui estou para o fazer, neste tempo afinal curto e tão sem jeito.
Só que consigo, Professor, só posso estar à vontade.
Também o senhor parecia «não ter jeito». Dizíamos, por tontice da idade, que nunca acabava o assunto de que começava a falar.
A paixão pelas palavras, o domínio das palavras, eram esse dom que lhe permitia o malabarismo de partir de ideia em ideia, de forma encantatória.

Sabe, toda a gente sabia, que eu faltava a imensas aulas.
Mas às suas, nunca.
E sempre pontual.

As disciplinas de opção foram sempre ministradas por si, já que era eu a escolhê-las.
Segui-o como um mestre que foi e que é.
Segui-o como um sonho.
Nunca nos deixam, nem os mestres nem os sonhos.

E depois, Professor, aquela gravata sempre tão mal posta. Os colarinhos da camisa para cima. As mãos enormes. A boca donde saíam a voz e as palavras e as ideias. Esse fascínio.

Prometi aos meus filhos, Professor, que os havia de levar a conhcê-lo, ali na casa da Sociedade Farmacêutica. Sem porquê, deixei passar o tempo. Uma manhã fui surpreendida pela notícia da sua morte. E levei comigo a Maria ao seu enterro. Talvez treze ou catorze anos. E nunca se esqueceu.

A essa tão pobre homenagem junto este texto. Para dizer a gratidão que a si me tem unido a vida toda.
E para sempre, Professor.

Monday, February 18, 2008

PALAVRAS

Elas dizem a vida
São sagradas
E no entanto vão mudando de sentido.

Hoje, ao chegar a casa o Manel informou-me que a Maria telefonou e disse...
Eu, com este vellho e tolo hábito de atrapalhar quem fala O menino ... referindo-me a um dos meus netos.
Não, insistia o Manel, tentando dizer-me o que queria, a Maria foi ao oftalmologista ...
Este atropelo lembrou-me outras conversas, tão espaçadas no tempo... Conversas que em si narram uma história.
Antes de nascer a nossa primeira filha, a menina era eu.
Quando ela nasceu, surpresa, o meu pai tocou bem cedo à campainha e perguntou à empregada se a menina estava bem e se a senhora estava em casa.
Menina, a nossa Maria! E eu, senhora.
Hoje, meninos, meninos são os meus netos, mesmo que na bendita escada que vai dos três anos aos dezassete, eu me refira ao Bernardo, o mais velho.
Meninos...
Em Tibaldinho, continuo a ser a menina, o que dá para entender que Tibaldinho é um berço.

As palavras são mesmo sagradas e dão tanto, mas tanto que pensar.
E que sentir.

Monday, February 11, 2008

INESPERADAMENTE

Levanto-me e inesperadamente a janela das traseiras escancara-se para o sol.
Está a mais o robe quente.
Inesperadamenete e, mesmo com a tíbia partida e muitas outras limitações do corpo e da alma, limitações de mim,
inesperadamente o sol, concede-me o dom da liberdade.

Wednesday, February 06, 2008

«ESQUECE A QUARTA-FEIRA...»

Cantámos,
trauteámos,
ouvimos no velho gira discos que veio de casa dos meus pais,
voltámos a ouvir.
E entranharam-se em nós o som e as palavras

«...esquece a quarta-feira e continua.»

E interpelam-me, desafiam-me, apetecem-me.
De novo, em cada ano.

Não esqueço a quarta-feira.
Mas continuo.

Sunday, February 03, 2008

SOFÁ DA SALA, MEMÓRIA E OS DIAS QUE HÃO-DE VIR

Quero ver a Câmara Clara.
Quero começar a ler um livro que o Manuel comprou e me apetece «Tudo o que sobe deve convergir».
Quero fazer as pegas pedidas pela Ana para a Sofia.
Quero ficar calada.
Quero saborear o fim do dia devagar.
Quero saborear todos os fins como começos.
Quero tantas coisas...
Quero fazer de conta que vou falar do sofá da sala e o que quero mesmo é dizer a dor pela morte da Pamela, sabendo que a sua vida marcará a minha vida, a nossa vida. Até ao fim.
Vamos então fingir que é do sofá da sala que falamos.
Temos dois. Mas usamos muito aquele, em frente da televisão, com um banquinho de pele para os pés. Está sempre muito gasto. Era ali que a Pamela se sentava. Há um ano, mandámo-lo arranjar. Pensámos que ia ser também para ela muito mais confortável.
Foi quando a Pamela adoeceu daquela forma brutal.
Nunca mais veio.
É verdade que o Manel se senta lá muitas vezes.
Ele continua a ter as molas boas. Está convidativo. Sólido.
Olho para o sofá.
De certo modo, quando vazio, o sofá é o lugar da Pamela.
E sei-lhe as palavras certas. Bondosas e divertidas. O juizo justo. O conselho tanta vez em forma de pergunta «A Teresa não acha...?»
Sei-lhe o sorriso.
E aquele último sorriso que lhe vi.

Monday, January 28, 2008

DESAFIO A DIZER UMA BOA NOTÍCIA

Sei que escrevo muito menos do que queria.
Muito menos do que penso que vale a pena.
Mas, desta vez, o meu desafio é maior do que esta série de tarefas em que se vai diluindo o dia.

Ouvi ontem, umas dez vezes ou mais as notícias lastimáveis de mortes neste país e o seu suposto relacionamento com as políticas de saúde. Ouvi a voz decidida e serena do ministro, que não conheço senão da comunicação social.
E pega-se, multiplica-se o azedume.

Quero deixar aqui o desafio de que se escrevam, se divulguem, se dê visibilidade ÀS BOAS NOTÍCIAS.
É que elas estão por aí.
Mas são chãs e rasteirinhas.
E não vendem.

Monday, January 21, 2008

PORQUE AGRADEÇO...

Recebi este comentário numa postagem. Transcrevo-o, porque o agradeço, pois reflecte muita sabedoria e muita serenidade. Diz assim:
«A morte não me parece nem uma "boa" nem uma "má" razão. É só uma razão. Há algum tempo, morreu uma pessoa que me era próxima e desde então penso que nos falta serenidade para encarar a dita - a dos outros e a nossa. É tão certo que ela aconteça. Porquê julgar uma coisa tão natural? Porque nos sentimos sós? Porque temos medo? Não há espaço no mundo para que todos vivam. A natureza renova-se todos os dias. Porque não aceitá-lo pacificamente ou tanto quanto os nossos medos o permitam?»

A dor da morte, a ausência, esse «nunca mais» é para mim uma realidade difícil.
Mas há que procurar aprender. Sempre.

Ontem ouvi alguém dizer que uma situação muito difícil é sempre o desafio de um recomeço.

Junto esta afirmação ao comentário que recebi.

E peço a Deus que me ajude a saber fazer de cada situação uma acção de graças.

Saturday, January 19, 2008

ÎNÊS

Vim espreitar.
E que bom dar com as suas palavras.
Combinado.
Só mesmo dizer.

E vou ter uma noite melhor.
Boa noite para si.
Doce de morango também ajuda.

Friday, January 11, 2008

À ESPERA DE OUTRO TEMPO

Tão «abandonado » este espaço!
E tão lembrado.
Sempre esta espécie de desculpa enganadora
«amanhã vou ter mais tempo».

Decidi voltar SEM TEMPO.
Só talvez para dizer «que esse outro tempo» nunca vem
Que a vida se faz assim de tempos sem tempo
De tempos que nunca são especiais. E que são sempre especiais.
De tempos com a casa desarrumada
Com os cartões de natal por responder
Com amigos à espera de um telefonema
Tanta coisa...
Tanta ...
Mas vale voltar
Com saudades. Com afecto. Com dias de alegria. Com dias de súbito assaltados pela rapidez. Pelo medo das esquinas. Ou com medo do vento?
Dias atravessados por um quase nada. Ou um nada.
A vida assim.

Vale voltar.

A propósito, amanhã vamos a Tibaldinho. Não por uma boa razão ( a morte de um amigo). Mas voltar a Tibaldinho é sempre muito bom.
São tantos os lugares a que pertencemos!

Tuesday, December 25, 2007

NATAL

Acordo e é Natal.
Sem chaminé.
Sem os meus pais.

E é Natal
O Manuel, septuagenário (o menino ainda dorme)
Eu com uma tíbia partida
Os meus filhos, sempre meninos, acrescidos do Paulo e da Ana
Os meus netos
Os meus sobrinhos
Os amigos
A casa desarrumada
As mensagens de telemóvel
Os e mails
Os que me vão visitando por aqui
Os meus vizinhos todos
O mundo a entrar pela televisão

E é Natal
A deixar-nos dizer
a deixar-nos ser o melhor que há em nós

ORAÇÃO EM NOITE DE NATAL

Nasce, Menino Deus,
Nas nossas mãos vazias.

Nasce
No gesto que não tivemos,
Enquanto Te esperámos.

Nasce nos passos que não demos.
E nas palavras que, às vezes,
Tantas vezes, Te negaram.

Nasce nos silêncios que foram cobardia.

Pressinto que nos aceitas como somos,
E és a nossa única Esperança,
Quando a dúvida e o medo
Encharcam nossos dias.

Pressinto e sei.

E tento.
Tento quando entrego aqui e ali
Um quase nada,
Nesta forma frágil
A que chamamos uma lembrança de Natal.

Tão pobre este dizer!
Mas é assim que Te proclamo presente,
Menino Deus,
Príncipe da Paz.

Monday, December 24, 2007

uM BEM HAJA ENORME


Antes de me deitar com o meu amor septuagenário,


quero dizer a todos um bem haja enorme.


A Festa do Manel foi linda.


Falaram os afectos


nos sorrisos


nas distâncias percorridas


na quantidade de boas vontades e de dinamismos




Em tudo


Em todos




Vou tentar postar o rapaz pequenino e mais crescido (parece que esta não tenho... a ver)
NÃO O CONSEGUI CRESCIDO. MAS DE SAINT-ÉXUPÉRY «TODAS AS PESSOAS CRESCIDAS FORAM PRIMEIRO CRIANÇAS.»

Sunday, December 23, 2007

O GRANDE DIA

Pronto, cá estamos. O Manel faz hoje setenta anos. VIIIIIIIIIIVAAAAAAAAAA!!!!!!!!!!

Decidi ir deitar-me agora, passados quarenta e quatro minutos da meia noite.
Disse-lhe.
Resposta:
- Hoje vais ver o que é dormir com um septuagenário!!!

Sempre surpreendente o meu marido!

PARABÉNS, MEU AMOR SEPTUAGENÁRIO
PARABÉNS.

Saturday, December 22, 2007

JOANA

Eu é que agradeço.
E não consigo aceder ao seu blog. Incompetência....
Sorry...

Friday, December 21, 2007

À LENA, À ZÉ, AO ANTÓNIO ...

Ontem fizemos quarenta e oito anos de namoro.
A este respeito nunca escreverei nem direi nada de jeito.

Sóa gratidão a Deus, à vida , ao Manel, aos nossos filhos, aos nossos netos, a todos os amigos. De um modo muito especial à Lena, à Zé, ao António que às três da manhã, nessa noite de 19 para vinte de Dezembro tiveram «a pachorra» de vir a pé do Príncipe Real até Campo de Ourique para «fazer companhia» a essa nossa história a começar.
Pois ontem voltámos a passar no Príncipe Real. Agora todo iluminado.
Depoism, até ao Chiado.
E um bife com muito molho a dois na Brasileira.

Com muito molho.
Muita história.
Muito amor.

Tuesday, December 18, 2007

TANTA VEZ NATAL

Na reunião de Bíblia.
Ela nunca tinha dito quase nada. Mas um jeito de ternura humilde e alguma pobreza adivinhada.
Na reunião de ontem sentei-me ao pé dela.
O tempo todo sem falarmos.
No fim «Se pudesse rezar pela minha neta. Tem quatro anos e não consegue andar.»

Há dois anos que estou com ela neste grupo. Como escondeu a dor?

E deu-me um embrulhinho feito em casa. Uma caneta para o Manuel. Para mim um terço, vindo de Roma, em bolsinha de veludo. Já o tenho na mala.
He~de dedilhar-lhe as contas em preces.
Por ela.
Por todas e por todos como ela.
Que escondem o sofrimento. E com ternura humilde dizem o Amor.
Tanto Natal, Menino Deus. Tanto Natal.

É NATAL

Não gostava lá muito ou quase nada daquela espécie de sacristão lá na minha paróquia.
Sempre no altar.
Muitas vénias.
Penteadíssimo.
Fatinho completo. Gravata e tudo.
A falar-me com muita timidez ou sei lá.

Hoje, surpresa!
Foi ele que veio ter comigo. «Para lhe desejar um bom Natal.»
Eu - «Mas ainda nos vamos ver»
Ele - «Já está tão perto» E um sorriso largo. Pela primeira vez.

E para mim «Louvado seja Deus»
Afinal já gosto desta espécie de sacristão.

Monday, December 17, 2007

P'RA QUE SEJA NATAL

Ainda que seja Natal,
ainda que me deixe encantar com os gestos de nada com que compro um presente,
gestos que são deste tempo,
gestos donde nascem sorrisos,
às vezes,
quero este dom das lágrimas.
Por um nada talvez.
Porque há palavras que ferem
Palavras que não sustentam a vida nem os dias.
São palavras que atravessam a noite
E escondem as estrelas.

E ainda que não queira esta ferida,
Eu preciso das lágrimas.
Preciso das lágrimas
P'ra que seja Natal.
Serenamente.
Natal

Thursday, December 13, 2007

JOANA E INÊS


É que é mesmo uma história de amor.
Por duas razões maiores:
gostamos e queremos gostar.

Um dia qualquer talvez eu consiga explicar isto:
Gostar e querer gostar.
É como fazer uma malha ou escrever um poema. Faz-se com persistência. E devagar. Faz-se com gestos banais, subitamente iluminados. E às vezes sem luz.

Mas agora que já é noite, um beijo para cada uma.

E, Inês, também no meu coração o dia 8 foi o dia da mãe.
Porque este era o dia da mãe, quando - tantas vezes sem jeito - eu dizia «Mãe».
E agora ainda é. neste fio de tempo e tempos de que se faz a vida.

E bem haja pelas visitas e pelas palavras.

E CONTINUAMOS A PREPARAR A »FESTAZINHA» DE ANOS DO MANEL, QUE É NO DIA 23.
BEM BOM!

Wednesday, December 12, 2007

A VIDA SEM PORQUÊ


Tinha enviuvado.
Parece que se não habituava a esse súbito estar só.
E aquele amigo do marido por perto... Não era fascinante. Estava por perto.
Tinha ido a Londres com a filha e o genro. E não gostou. A ver uma montra, num tempo e num ritmo seu. « Mãe, venha depressa, não fique sempre aí parada...» Não. Isso não.
Queria de volta o seu jeito de estar.
E aquele amigo do marido, era uma companhia. Uma boa companhia. Viagens a seu gosto. Tudo como quisesse
Um «casamento» em Espanha.

Tomei ontem um café com ela.
Oitenta anos.
«E agora tenho ali um homem que me pergunta a toda a hora aonde é que vou.
Que me vai sempre levar e que me vai buscar.
Nem um passo só meu.»

Não tive nada para dizer. Talvez lhe faça um telefonema, agora que é Natal.

A vida assim. A vida sem porquê....
Mas ainda assim, é vida.

Thursday, December 06, 2007

PAUSA

Esta «pausa» deve-se à preparação da festa de anos do Manel.

58 ENVELOPEZINHOS... E a vista aos sessenta e sete anos...

Ele merece TUUUUUUUUUUUUDDDDOOOOOOOOOOOOOOOO

E «a gente» gosta de festas....

Thursday, November 29, 2007

UMA AVÓ TEM SEMPRE TUDO

Senti-me «apanhada em falso», pelo Manuel Maria ontem à noite.

A cena foi esta:
MM ontem quando chegou da catequese e viu as fatias de Pão Rico ao pé da torradeira:
MM - Avó, posso fazer uma torrada?
Avó- Desde que jantes...
MM - Vou pôr manteiga. A avó tem doce de morango?

Senti-me em falta. O normal numa avó é ter sempre tudo. E eu não tinha doce de morango.
Quarta feira vou mesmo ter doce de morango.

GOSTOS

Já aqui fui desafiada para escrever «gostos», «hábitos», «manias»
Tenho imensos. Parece que por isso não me tenho atrevido a começar.
Vou fazê-lo

Gosto

de tricotar pegas de cozinha
de ler e reler, de saber de cor Lobo Antunes, Agustina, Cesário
de andar a pé
de salas de espera nos centros de saúde
de salas de espera de hospitais
da sala de espera da catequese dos Marias
de toda e qualquer sala de espera

parece que gosto de esperar
é um tempo único, em que fico enfim calada e oiço. Se me parece bem, faço um sorriso, dou uma palavra, torno-me «igual»

e gosto de gostar, melhor, preciso de gostar. É essa a minha única respiração. Gostar.

É capaz desta postagem não ficar por aqui

Friday, November 16, 2007

PROCURAREMOS O NOME PARA DIZER A «MORTE»

Em cada um destes dias, tem morrido um amigo.
O sobressalto
A ausência
Dizemos «nunca mais»
Dizemos «tenho tanta pena»

E parece que não sabemos a dor. Nem as palavras.

Amanheci assim. E amanheci também com sol.

Pressinto que devagar, só muito devagar, aprenderemos a viver com esse «sem» enorme.

E a vida afirma-se nas palavras que trocámos, nas memórias, nas refeições que comemos juntos.
A vida afirma-se.

Sunday, November 11, 2007

SE EU TIVESSE UMA VACA


Na consulta de nutricionismo:

A médica procura todas as formas de me ajudar a emagrecer.
Analisamos a lista dos alimentos proibidos (ali confesso tudo).

M - Volta a beber aqui um copo de leite?
T - Volto. Sabe, gosto imenso de leite. Se eu tivesse uma vaca é que estava bem.
M - Se tivesse uma vaca?!
T - Já tive. não tive uma. Tive p'ráí trinta.
M - Teve trinta vacas?!
T - Em Lisboa.
A senhora abre os olhos e a boca...
T - Verdade!

E conto-lhe a «história verdadeira» do meu avô a cultivar as quintas que iam do que hoje é o hospital de Sta Maria até ao colégio Moderno.
E os cães.
O boi com os olhos vendados e eu a chicoteá-lo para ele andar muito depressa.
E as vacas.
E as papoilas no meio do estrume.
A carroça desde a leitaria ecila até à quinta.

M - Não consigo imagimar...
T - Tá a ver que sou muito antiga.
M - Temos que fazer mais jantares da Filipa para contar essas suas histórias.

Filipa Pais de Sousa, vá lá, arranje uma razão qualquer para outro jantarzinho.
Antes que as histórias verdadeiras se tornem lendas. Longe...

FESTA DE TODOS OS SANTOS, CASTANHAS, AMEAÇOS DE GRIPE E OS PRÍNCIPES A FAZEREM ANOS


Este «título» já diz quase tudo.
Este regresso aos dias, aos festejos, ao afecto com que envolvemos a vida, ano após ano.

Talvez nunca aqui tenha contado que a minha mãe, que passava tanto tempo em Tibaldinha, gostava muito de castanhas. Aí pelos finais de Setembro, eu escrevia-lhe um postal ( qual telefone, qual quê, e muito menos telemóvel) «Mãe, volte que já há castanhas».
E lá vinha ela de comboio. Eu ia esperá-la a Sta Apolónia. Depois estávamos ali três dias (máximo) sem discussões, um paraíso, naquele doce sabor e cheirinho das castanhas.
Hoje são os meus netos (parece que todos) que as adoram.

E faz-me pensar este fascínio. CASTANHAS...
É o cheirinho na rua?
É o carro com o assador?
O fumo?
O vendedor que mais parece o Pai Natal?

A vida é mesmo feita destas coisas.
Bem bom!
Hei-de encontrar e dar-lhes a história fascinante de Martinho.

Sunday, October 28, 2007

HOJE

Hoje
no dia de hoje
a morte escreveu o teu nome no meu dia.

E afirmaste-te única.

Para sempre o sorriso.
Para sempre tanta coisa que ainda não sei.

Hoje
é na noite que te canto.

Thursday, October 25, 2007

PELO DOM DO MUNDO VIRTUAL


Hoje fiz um comentário em «Realejo» e percebi que seria bom publicá-lo em jeito de dizer quanto é bom ter esta janela e ler e reler outras janelas e saber dos afectos que se tecem.
E agradecer.

Foi assim que escrevi a propósito de um reencontro da autora de «Realejo»:

«Quando o melhor são os encontros, como o nosso aí em Faro... São bálsamo para os dias, para todos os dias, e tantas vezes os dias são difíceis.
Também os caminhos do encontro são estes, caminhos que percorremos num mundo que chamamos virtual e que é tão real.»

Wednesday, October 24, 2007

DO MEU BAIRRO, CAMPO DE OURIQUE

Acontecem-me todos os dias encontros fantásticos.

Hoje, ao fim da tarde entrei numa «leitaria» em frente da Machado de Castro.
Meia torrada e um garotinho.
Sente-se aqui, tem um lugar.

Não hesito em aceitar aquela mesa com duas senhoras ainda com mais idade do que eu. Queques e copos de leite.
Mora por aqui?
Moro. E já tive uma leitaria no largo da Páscoa.
Uma leitaria no largo da Páscoa? Há muitos anos ia lá comprar leite.
Pronto. Estava feito o clique.
Nós não, nós não somos daqui. Somos da Beira Alta. De Viseu.
E eu, logo a casa de Tibaldinho.
Nascemos na rua Direita. Conhece a rua Direita?
Tão bem, tão bonita. Vai dar à Sé.
Está muito diferente Viseu. Não vamos lá há muito tempo. Mas tudo muda.
E eu que não. Que ali no centro, Viseu está na mesma.
Então gosta de Viseu?

E eu gosto de tudo. E nem sei se Viseu mudou ou não. Também não sei há quanto tempo conhecia aqueles rostos. E as palavras. E os lugares.

Bendita torrada e bendito garotinho.
Bendito fim de tarde.
E esta linha única de que se faz a vida.

Ali, naquela leitaria do meu bairro.

PARA A INÊS E PARA A ANA

Por favor, desculpem-me tanta incompetência.
Em dois comentários que fiz na postagem anterior, ONDE SE LÊ «PAI» DEVE LER-SE «TERESA».
É que é preciso mesmo paciência...

Monday, October 22, 2007

MANUEL MARIA


Os nossos netos começam a fazer anos hoje e só param em Fevereiro.

Hoje é o Manuel. O nosso príncipe dos caracóis.

Parabéns, príncipe.


Olha, pincela a vida toda com esse sorriso que às vezes até parece teimosia. Mas é sorriso.


Vou tentar postar aqui «O principezinho» de Saint-Exupéry. Tão inquietante como tu.


Mas tu és o nosso príncipe. O que te torna único como a sua rosa. ( um dia hás-de ler...)

QUANDO SE TEM ALGUÉM...

Foi mesmo nesse dia da luta pela erradicação da pobreza.
Eu,, no cabeleireiro.
Uma cliente, toda arranjadinha, unhas e tudo, tinha aquele semblante triste e não falava.
A empregada «é que esta senhora vai entrar agora no hospital para ser operada».
E eu aquela frase pouco convincente «Vai tudo correr bem»

E a senhora «isso é bom de dizer, quando se tem alguém»

Caíram as palavras no silêncio.
Caíram neste mar enorme e tão fundo onde não podemos chegar.

Ou é que mesmo assim, inquietos, chegamos?

Wednesday, October 17, 2007

PELA ERRADICAÇÃO DA POBREZA

Para me levantar contra a pobreza, dou-me a mim própria a ordem de ouvir os pobres aqui no meu bairro. Campo de Ourique. E são tantos. É só, por exemplo, ir à farmácia e ver como são escolhidos os remédios, «porque não posso pagar todos». Ou ao mercado. Ir e ouvir
Parar.

Hoje, talvez só assim.

Ao começar o dia, vamos ver.

Tuesday, October 16, 2007

A MUDANÇA DE CORAÇÃO

De Frei Bento Domingues in «Público» Domingo, 14 de Outubro:

«Na Benção dos Doentes, antes da Procissão do Adeus, ouvi, anos a fio, o clamor do Evangelho: Senhor, se quiseres, podeis curar-me! É certo que Fátima nunca foi um santuário de milagres exteriores. também Jesus, através das curas que realizou, nunca pretendeu substituir os avanços da medicina. Ele apenas atirava uma pedrada ao charco da indiferença.
O grande milagre, ainda hoje, é a mudança do coração: saber colocar as descobertas científicas e as novas tecnologias ao serviço de todos, a começar pelos mais pobres. Poderá o Santuário de Fátima profetizar, com gestos concretos, esta conversão?
As ciências, a interrogação religiosa, a estética e a ética nunca podem andar separadas.»

Subscrevo e aplaudo, Frei Bento. E bem haja!
Nota - O negrito é meu.

Sunday, October 14, 2007

FÁTIMA A CAMINHO DE TIBALDINHO


Voltamos.
Desta vez «de corrida» para pagar os portões novos.
E outra vez o fascínio da casa que foi sempre.

Vamos a Fátima. Feliz revisito a infância, esse tempo de fé inquestionada.
Revisito a infância.

Tanto racionalismo pelo meio para querer hoje e sempre um coração semelhante ao desses meninos que um dia viram uma senhora vestida de luz.

E desejosa de mergulhar nesse outro mar - BASÍLICA DA SANTÍSSIMA TRINDADE.

E hei-de contar.

Sunday, September 23, 2007

ENCONTROS TAMBÉM ASSIM

Chegámos do Algarve, de Faro, de Évora...
Inesperadamente no Câmara Clara, Carlos do Carmo, de quem gosto tanto.

Sempre gostei. Sempre ouvi falar dele (julgo que era filho de um colega do meu pai, não tenho a certeza. Os meus pais falavam muito de Lucília do Carmo, ...)

Uma noite, o Manel, a Zé e eu, fomos para o ouvir. Não cantava nessa noite.

Como é que se passam estes anos todos e só os discos e a televisão?

Às vezes, os encontros são assim. E fica também certo.

Tuesday, September 18, 2007

CONFIDÊNCIA


Tento em cada dia o que a minha mãe dizia a propósito de uma receita culinária ou de uma malha, em que ela era um génio, um génio mesmo.

Eu, sempre impaciente, pedia respostas
«Explique lá»

«Quanto de açúcar, quanto de ...?»

«Mas quando, mãe?»

«Vais vendo», respondia.
Na altura, eu achava que aquilo não era resposta.

Hoje, lembro-me todos os dias deste «Vais vendo».

Lembro-me, agradecida. E sempre a ver se aprendo.

PARAÍSO, O ALGARVE


Afinal gosto tanto do Algarve, tanto!
Para o mostrar transcrevo do mail que acabei de enviar à Ana :

«Adoramos estar aqui! Tomamos banhos e tudo, coisa que já não acontecia há tanto tempo!(banhos de mar, entenda-se...)
E eu até adoro a rua de cima. Demoro por lá imenso tempo, nunca mais chego a casa. Páro em todo o lado e entro em montes de lojas onde na verdade, até ver, não compro nada. MAS É TÃO GIRO ...
Conheço imensa gente e falo com imensa gente. O paraíso, p'ra mim. Assim com gente e lojas onde há montes de coisas, com muitas cores e até barulho.
Adoro os chineses que fazem muitas vénias e até os ingleses, nem fico assim tão mal gorda como estou, porque há umas enormes...»

Monday, September 17, 2007

RECONQUISTA


Não aos Mouros.
O Algarve reconquistado pelo coração.

Esta reconquista faz-se devagar.

E faz-se com caminhadas.
Primeiro a medo, género «Vamos lá ver se a gente gosta». Na noite da chegada a praia percorrida a pé.
Depois sozinha. Ainda «Vamos lá ver».
E de volta «Ó Manel, ísto é mesmo fantástico!»

Hoje, pela beira mar e já o Manel se encharcou quando deu um malho para ajudar um pai a tirar os calções da criancinha.
Agora, quase seis da tarde, lá vamos outra vez...

Thursday, September 13, 2007

ALGARVE, TRINTA E TRÊS ANOS DEPOIS


Lá vamos afinal.
O médico disse que eu precisava de ar do mar, que é como quem diz, melhor, dizia «que eu precisava de ir a banhos».

O Algarve foi em 74 uma experiência daquelas que nos fazem nunca mais voltar.
Agosto de 1974 foi mesmo muito mau (dizem-me que Agosto continua assim).
Aquilo já era nessa altura a enorme barafunda de «imensa gente», «montes de gente» em todo o lado, quando eu ainda nem sonhava o que eram as enchentes dos centros comerciais, que detesto.
Nada desse tempo se pareceu com «férias». Antes uma canseira.

Eu em Tibaldinho a vida inteira, a aldeia sossegada, a aldeia toda como a nossa casa, sem filas para nada, com o tempo alargado ..., risquei a vermelho o Algarve de todos os programas ( voltámos lá acidentalmente num Maio qualquer, longínquo).

Agora vamos.
A ver se a cabeça e o coração me vão dizer que vale a pena.

Sunday, September 02, 2007

REGRESSO




Regressar de Tibaldinho já não é de comboio. (eu gosto tanto de comboios). E muito menos é «estar quase a chegar» porque passávamos esse túnel tão comprido e tão escuro, sinal de que estávamos quase na estação do Rossio. E no Rossio, eu cheia de sono e a minha mãe «Teresinha, olha os anúncios». Era a Singer, que me lembre e as rodas da máquina de costura brilhavam e giravam.

Hoje, nós de carro. Para animar paramos numas áreas de serviço com preços proibitivos. E às vezes, lá tento, «Manel, talvez almoçar em Leiria, sai num sítio giro, não temos pressa». Ou compro o jornal que nunca leio. Ou uma revista qualquer com a colecção Outono-Inverno.

Mas é um regresso. E como aos meus netos apetece-me um caderno novo, branquinho, um lápis giro.
Logo se verá.

Wednesday, August 29, 2007

VÉSPERA


Aguardámos-te na noite.
O pai e eu.
A Maria que ficou em casa da avó Céu e a passear com o tio João.
Os avós e a tia Belmira com nota especial para a avó Alice, que deve ter estado sempre acordada, sabes que ela era assim. Para de manhã chegar super cedo aos «empregados do comércio», antes de qualquer horário permitido.
Esperámos-te tranquilamente. Não tive dores. O pai nem acreditou quando lhe disseram que «estava feita a dilatação». O pior foi depois, ...

Nasceste às 10h30 do dia 30. Um bocadito feio, é verdade.
Lindo depois.
Parabéns André!
Parabéns, Aninhas.
Parabéns, Marias.
E parabéns a todos nós.
Aos teus amigos todos.

PAIXÃO PELA BEIRA ALTA


Às vezes andamos à procura de quê?

Aqui tudo tem MUITA histótria. Muita vida.

Não há pedra que não fale.

Caminhos. Tantos.

Deixo-vos hoje «outro cheirinho», enquanto a tal máquina do Manel não conseguir tirar uma fotografia à nossa casa que ameaça cair e nunca cai.


Hoje, Linhares da Beira

Tuesday, August 28, 2007

CASTELO NOVO E ALPEDRINHA



Estes são alguns lugares da infância do Manuel.
Revisitá-los assim, o Manuel com quase setenta anos. Sessenta anos depois...
Depois?
A serenidade, nesta altura da vida, faz-me suspeitar que o tempo, nenhum tempo nos separa dos lugares.
E isso é bom!

Saturday, August 25, 2007

EDUARDO


Vais fazer-me muita falta. Vais fazer-nos muita falta.
Desde aquele teu artigo na Página Juvenil do Diário de Lisboa. Não me lembro quando, julgo que ainda não era aluna do teu pai. Ou era? Quando se é novo, quatro anos é muito....
Agora, hoje, no dia da tua morte, voltaste a ser «tão mais novo do que eu».
Fica esse teu sorriso.
Faltam-nos as palavras. Exactas. E leves. Procuradas sílaba a sílaba. As tuas palavras.

Lembro-me dessa tua crónica que recebi anexada a um mail. É um texto lúcido e cheio de dor. O teu país, Eduardo.
E volto a transcrever-te.
«Pertenço a um país onde a falta de pontualidade é um hábito. Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano. Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e depois reclamam do governo por não limpar os esgotos. Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros. Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é "muito chato ter que ler") e não há consciência, nem memória política, nem histórica, nem económica»

A ver se ao menos o teu país, este país que hoje deixaste, te lembra.
Sempre.

Monday, August 20, 2007

REPENSAR O PRESENTE



Do Carlos Tê, na «Visão» de 9 de Agosto:
«Ontem ao deitar fora uns jornais velhos, dei com a Hanna em Avanca, a dar um curso para actores. Sim, há poucos dias em Avanca. (…) Essa foto (…) fez-me recuar trinta anos. (…) e vi-me a mim e a ti, o que eras, o que éramos, o que somos agora. Nesse tempo, há trinta anos tinhas sonhos, curiosidade. Hoje só tens entusiasmo por um novo modelo de telemóvel. A culpa é do mundo, que está mais roliço, e do tempo, que está mais rápido, o que torna tudo imediato e disponível. Os Stones vieram a Portugal dois anos seguidos, a Hanna Schygulla esteve em Avanca. Um dia destes o Spielberg vem filmar a Unhais da Serra e a gente não dá por nada. Tu não andas distraído, muito menos melancólico, a tua atenção é que é apenas selectiva. És capaz de trinta horas ao relento numa fila para a inauguração do Ikea em Matosinhos e alcançar a experiência mística de ser o primeiro a entrar, ou o décimo, para ter direito ao brinde de cem euros em compras. Tens o dom de estar atento à pechincha, aos faqueiros em promoção, aos armários em PVC, e a tudo o que de mais concreto há na vida: a gloriosa diversidade do mobiliário.»

Saudades do passado, não é grande coisa…
Mas tenho para mim que vale a pena repensar o presente.

Thursday, August 16, 2007

A CADA PASSO, A ARTE


Em Tibaldinho, a cada passo, a arte.
Peças que se vendem.
que se guardam nas casas de cada um.
Arcas muito antigas.
Histórias.
História de verdade.
Memórias muitas.

E como teia que não acaba nunca, as mãos das mulheres da nossa aldeia, mãos rudes que trabalham também o campo e as labutas da casa, continuam a bordar estas relíquias. Todos os dias. Manhã cedo. até que se tolde a luz. e que o sino toque vésperas.

Wednesday, August 15, 2007

INCOMPETÊNCIA ...


Só fazendo nova postagem consigo juntar uma imagem.


Formas de incompetência....

SÓ POR CAUSA DO DIA


Pois. Esta espécie de pecado por «ainda não».
Ainda não disse «obrigada» pelos parabéns que recebi de cada um.
Ainda não escrevi nenhum postal.
Ainda não arrumei o armário dos copos.
Ainda não li o que queria na Visão.

Ainda não emagreci nadinha.
Hoje ainda não dei uma bela caminhada.
Nem escrevi.

Há bocado o Manel disse «O que me acontece mesmo aqui em Tibaldinho, quer eu acorde cedo, quer acorde tarde, é que não tenho nunca aquela espécie de culpa de que há qualquer coisa que não fiz.»
Boa, Manel.
Disseste assim o que é estar em Tibaldinho.
O que é hoje e o que foi sempre.
O dia sem culpa.
Só porque sim.

Como hoje é dia 15 de Agosto, vou ver se melhoro esta postagem com uma imagenzinha, já que a tal máquina fotográfica, ainda não...

Tuesday, August 07, 2007

QUE MANIA!


Outra mania que tenho é estar a dormir antes que chegue a meia noite do dia dos meus anos, oito de Agosto.

E já tão perto da tal meia noite quero aqui deixar um grande obrigada pela vida toda, inteirinha. Por todas as pessoas. Todas. Por todos os momentos. Todos.

O resto do texto há-de ser escrito amanhã ou depois.

Talvez já de Tibaldinho. Estamos num hotelzito em Castelo Branco,

E vou adormecer assim. Com a vida toda envolta em gratidão.

Monday, August 06, 2007

ONDE A VIDA?


Onde a vida no estilhaço da morte?
Onde o afecto e a ternura?

Onde....?

Sunday, August 05, 2007

VITUS




Quase por acaso, assim «Se fossemos ao cinema» e «Talvez no King vá qualquer coisa que valha a pena»
Fomos ver «Vitus».

Depois a mesa de um café e uma conversa feita de alguma reflexão e muitos silêncios.

Com muita convicção recomendamos «Vitus».

Wednesday, August 01, 2007

TIBALDINHO QUANDO SERÁ QUE VAMOS?




OS BERLINDES


Jantámos ontem com os manos M e J, o que foi bem bom. Mas insistiram em nos pagarem o jantar. E nós deixámos. «Que desta vez era assim. Uma vez uns, outra vez outros...».
Mas foi por causa deste «uma vez uns, outra vez outros» que me lembrei dos berlindes.
Quando namorávamos (pré-história, claro... ), dávamos um ao outro um presentinho. Todos os meses. No dia em que tínhamos começado esse namoro
Tudo muito bem. Até que o valor dos presentes começava a subir. E não parava.
Um dia o Manel resolveu isto de vez. Trouxe-me embrulhado na mão um berlinde dos maiores. Cheio de côr.

Os berlindes passaram a dizer a nossa vida.
Quando fiz sessenta anos (há quase sete, imaginem...) ofereci uma dessas bolinhas a cada amigo e juntei-lhe as palavras de António Gedeão «... e sempre que um homem sonha o mundo pula e avança, como bola colorida ...»
Meses depois o Manel fez anos. Vieram os netos.E o Francisco chegou de Évora com um berlinde como presente para o avô.

Os berliindes dizem assim a nossa vida. E esta vontade de sonhar. Até ao fim.

Tuesday, July 24, 2007

CONTINUAÇÃO

O Manel:
«Isto é muito engraçado, mas não percebo nada.
Ó filha, só me dás problemas.... (a máquina)

Olha, já vou no passo 3. Saltei 2, claro.

Hoje é dia, hoje é dia 24.
Agora,
e o mês é ...
O ano 2007
E a hora são 18,e 46

Agora tou tramado que fiquei só com... (ruído que não percebi)»

Silêncio.
Vou ficar por aqui.
É mesmo só esperar.

FINALMENTE A MÁQUINA FOTOGRÁFICA

A tal máquina fotográfica que o André deu ao pai no Natal veio para a Tomar.

Foi mesmo mesmo agora desembrulhada daquele celofane todo.

Neste momento o Manel na varanda do quarto (Hotel dos Templários,...)a ler as instruções.
E a falar sozinho.
«Agora vou começar a aprender.
Muito bem.
E depois.
Isto é a pantalla.
(parece que vem tudo em espanhol)
Tou tramado. Tás-me a gastar a bateria toda. Bem, cada um faz o que quer, é por isso que estamos de férias.»

Isto é só esperar.

Monday, July 23, 2007

UMA PAUSA


Viemos até Tomar,
Uma pausa nos dias que enchemos de «coisas».
Viemos «por nada».
E aqui, neste «por nada», a vida.

Thursday, July 19, 2007

DE EDUARDO PRADO COELHO

«Exactamente a fotografia ou radiografia do português e do país...

A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem com Cavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve. E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada. Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates. O problema está em nós. Nós como povo. Nós como matéria-prima de um país. Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA é a moeda sempre valorizada,t anto ou mais o que o euro. Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais. Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal E SE TIRA UM SÓ JORNAL,DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE ESTÃO. Pertenço ao país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos... e para eles mesmos. Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos. Pertenço a um país onde a falta de pontualidade é um hábito. Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano. Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e depois reclamam do governo por não limpar os esgotos. Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros. Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é "muito chato ter que ler") e não há consciência, nem memória política, nem histórica, nem económica. Onde os nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprova projectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média e beneficiar a alguns. Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas podem ser "compradas", sem se fazer qualquer exame. Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não dar-lhe o lugar. Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão. Um país onde fazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a criticar os nossos governantes. Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsito para não ser multado. Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como Português, apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas. Não. Não. Não. Já basta. Como "matéria-prima" de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que nosso país precisa. Esses defeitos, essa "CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA" congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até converter-se em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente ruim, porque todos eles são portugueses como nós, ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não em outra parte... Fico triste. Porque, ainda que Sócrates fosse embora hoje mesmo, o próximo que o suceder terá que continuar trabalhando com a mesma matéria-prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não poderá fazer nada... Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá.Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, e nem serve Sócrates, nem servirá o que vier. Qual é a alternativa? Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror? Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa "outra coisa" não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados... igualmente abusados! É muito bom ser Português. Mas quando essa Portugalidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, então tudo muda... Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam um Messias. Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer. Está muito claro... Somos nós que temos que mudar. Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a nos acontecer: desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e francamente tolerantes com o fracasso. É a indústria da desculpa e da estupidez.
Agora, depois desta mensagem, francamente decidi procurar o responsável, não para castigá-lo, senão para exigir-lhe (sim, exigir-lhe) que melhore seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido. Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO. AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO EM OUTRO LADO. E você, o que pensa?.... MEDITE!»
EDUARDO PRADO COELHO
Meu caro Eduardo, é exactamente assim que eu penso.

CASAQUINHO COR-DE-ROSA

O Afonso já nasceu (e recebeu o casaco branco), o João já nasceu (e recebeu o casaco azul), a Alice já nasceu, recebeu dois casacos e ... eu ainda a acabar o terceiro. É que cor-de-rosa, ao fim de dezassete anos a tricotar branco e azul, tem sido uma tarefa com a maravilha de ser a primeira.

E o meu blog coitado... caladinho caladinho.

E as tarefas de casa, quase tudo por fazer, também não acabam nunca.

Vá lá de tricotar o casaco cor-de-rosa. Rapidamente.

Wednesday, July 04, 2007

BOM DIA


Tenho imenos «tiques», «vícios», «hábitos». Como quiserem.
O meu primeiro gesto da manhã é ler os mails no computador e abrir a janela.

Hoje quando abrri a tal janela, passava no passeio em frente a senhora que cozinha no café do Pedro.
E eu «Bom Dia».
Ela tem um sorriso daqueles que ajudam a viver.
«Bom dia» respondeu-me com o tal sorriso. «Lá vamos começar.»

É isso mesmo. Começar sempre. Recomeçar.
Começar de novo.
Bem, o meu filho André já escrevia aqui inteirnha a letra da canção....

«Começar de novo
E contar comigo...»
Tal qual.
Contar comigo. Cada dia.

MANUEL FRAZÃO e MANUEL FRAZÃO

Ontem fomos ao Jardim Escola João de Deus. A escolinha do Manuel (avô) e agora, a dos Marias todos.
Emocino-me sempre. Às vezes isto é só lágrimas ... Como se a vida passasse aos bocados num filme com montagem de memórias e afectos. Muitos.
De manhã foi a festa do Manuel (neto).
Tão compenetrado em todas os seus papéis!
Quando cantaram bem perfilados o hino do «João de Deus», liguei o telemóvel para o avô ouvir (o meu telemóvel não dá imagem, mas... o avô também tem lágrimas!).

E na entrega dos diplomas, foi... (não sei adjectivar,...). A professora chamou «Manuel Frazão».
MANUEL FRAZÂO!
Mas este, o Maria, tem o sorriso mais bonito que já se viu. Boca bem aberta, olhos a rir.

Entregou-me o envelope com a ficha de avaliação. E eu nada de abrir. Mas ele «É para a avó ler»

Parabéns Manuel Maria. Não tanto pelas notas muito boas que tiveste.
É que as avós, mesmo as avós professoras, poem a ternura no primeiro item da avaliação .

Friday, June 29, 2007

É URGENTE PENSAR

Não gosto nada de fumo, irrito-me com quem fuma, sei bem as suas consequências .
Temos passado algumas ou bastantes situações difíceis por causa do fumo, mas não posso deixar de concordar com o André. Por isso transcrevo do seu blog estas palavras, com um louvor por pensar.

«As declarações deste professor, situam o problema do tabagisgo na quantidade de dinheiro que o estado gasta em despesas relacionadas com o dito tabagismo. Mas andamos a brincar ? O problema do tabagismo reside no dinheiro que o estado gasta ? A saber e olhando para números de 2003: "O Estado, segundo o Boletim de Execução Orçamental de Dezembro de 2003, arrecadou cerca de 1220 milhões de euros com a venda de cigarros. Ou seja, dos 1593 milhões de euros envolvidos, 76,5% foram parar aos cofres públicos."Vamos ser honestos, fumar até que é estúpido, mas o tabagismo é um negócio rentável para o estado. Espero que o estado não gaste muito dinheiro em estudos descontextualizados»

Wednesday, June 27, 2007

HÁ PALAVRAS INFELIZES

Ontem fez anos a nossa rainha Ana.
A alegria e a confusão das festas com muitas crianças e gente nova! Bem bom! Tantas vezes me revejo por aí...
A rainha Ana é a nossa nora.
É isso que quero dizer. Há palavras infelizes.
Nora. Genro. Sogra. Sogro.... Guerra. Não. Fome. Solidão....
Uma data delas.

Era já meia noite quando o Manel recebeu no telemóvel uma mensagem linda que quero aqui escrever. Dizia
«Já estou no avião. Um beijinho de parabéns para a Ana. E para vocês que têm uma nora muito querida.»

É muito querida. Mas «não é uma nora»
Há palavras infelizes....
Vou mesmo procurar as palavras felizes.

E dizer Parabéns à Ana abrindo a janela da ternura.

Wednesday, June 13, 2007

NARURALMENTE QUERIA QUE LHE TROUXESSE OS PÃEZINHOS...

Pães de Santo António.
Ainda tenho ali um, bem rijo, que a avó Alice trouxe para «os meninos», quer dizer, para a Maria e para o André. Está ali, na cristaleira.

E hoje, aquele telefonema da Maria do Céu.
«Fui à igreja de Santo António. Trago sempre uns pãezinhos para os meus netos. Naturalmente também queria que lhe tivesse trazido para os seus ...»
E eu que não, não costumo.

Mas depois, o melhor, se tiver saúde, é ir lá para o ano.
Afinal os rapazes podem rir-se, mas no fundo, no fundo hão-de gostar.
Pão,
em pãezinhos pequeninos, pela cidade, ...

ÀS VEZES NÃO CONSIGO POSTAR NADA

E depois fico aqui imenso tempo... e nada.
Por exemplo, Zé e João, não consegui escrever-vos.
Daqui vai um beijo muito amigo e... incompetente também

Saturday, June 09, 2007

«ESCREVER PARA VIVER» « VIVER PARA ESCREVER»

Como se de uma malha de afectos
se tratasse ...

POSSO FAZER-LHE UMA PERGUNTA? GOSTA DE POESIA?

Fomos ao Chiado comprar café.
Lá consegui fazer o Manel acreditar que o 28 é fantástico e rápido e é que foi mesmo.

Ao pé da igreja dos Mártires,uma rapariga, um rosto e um sorriso.

Depois as duas perguntas.
E o sorriso.

Numa mão algumas folhas com poemas.

Eu «Você está aqui a dar-nos poesias?»

»Eu não dou poesias. Vendo»
E o sorriso
«Para não pedir»

Comprei com um nó na garganta.
«Deixe-me dar-lhe um beijo. Não se compra a poesia»

E ela «A senhora cheira muito bem.»

E quando o Manel acendeu uma cigarrilha «Posso pedir~lhe uma? »

Por causa do café,
Por causa do Chiado que nos é tão caro e tão familiar.

Até ao fim dos meus dias, este rosto, este sorriso, estas perguntas.
E as poesias em duas folhas A4 dobradas na mala.
Talvez eu lhe tenha suscitado a memória de um tempo dos afectos! « A senhora cheira tão bem!

Que esta noite a envolva um tudo nada de ternura.
E em todas as noites.

E que o meu tempo seja sempre o tempo de parar.

Friday, June 01, 2007

A PANDEIRETA

Ontem, véspera do Dia da Criança, andei por aí à procura de um coisa de nada para cada um dos meus netos. Género um berlinde, uma gaita de beiços, uma bola de cor, qualquer coisa mesmo só para brincar... E nisto os meus olhos dão com uma pandeireta.
Veio a tal memória.
Foi assim em vésperas de Natal:
- Vá lá, Teresinha, pede ao Menino Jesus o que queres ter.
- Então, Mãe, saia daqui.
(eu teria uns quatro anos)
E saíu.
Mas havia uma porta que dava para a saleta ao lado.
- Então Teresinha, não pedes?
- Mãe já pedi. O Menino Jesus não precisa que eu fale alto. Eu já lhe disse. Baixinho.

Não sei imaginar o desespêro da minha mãe.

Dois ou três dias depois, foi dia de Natal.
Entro na cozinha (os presentes vinham na chaminé):
-Mãe, não tive a pandeireta!

Pobre Mãe.
Depois não houve mais Natal em que não recebesse sempre uma pandeireta.

Mas aquela primeira... Mãe!