Thursday, November 20, 2014

URGENTE OS SORRISOS

Morreu no meu bairro aquele senhor, que percorria as ruas de bicicleta com um radio que tocava música.
Faz-nos muita falta.
Era o seu jeito de dizer que existia.
E que o olhássemos.
Era o seu jeito.
Faz-nos falta.


Há uns anos já escrevi sobre ele. Assim:


URGENTES OS SORRISOS
«São urgentes os sorrisos.
Corroem-nos dores, dúvidas e tantas incertezas.
São urgentes, Senhor, sorrisos ou palavras, que digam Alegria.
Por tudo isto quero nesta manhã louvar aquele senhor que numa bicicleta velha com um rádio ligado no volume mais alto, percorre firme e convicto as ruas do meu bairro e as vai enchendo de canções.
Oiço pequenos grupos às esquinas. Quem é este homem? Deve ter um problema qualquer. É LOUCO.
Bendigo, Senhor, esta loucura.
Tantas vezes os profetas foram chamados loucos.
Os poetas também.
E são deles os gestos essenciais.
Os nossos dias, agora tão cheios de sol, estão prisioneiros de medos e mais parecem noites de pesadelo.
Este senhor insiste e como por milagre enche as ruas de música e alegria. Finalmente sorrimos.
Louvados sejam, Senhor, todos quantos Te anunciam assim e
dizem a Alegria contra todas as correntes.»

Saturday, November 08, 2014

PORQUE QUERO TANTO SER ARRASTADA PELA ESPERANÇA


Encontrei hoje estas palavras de Péguy sobre a Esperança:
«A pequena esperança avança no meio das duas irmãs mais velhas e nem sequer reparamos nela.
Só damos atenção às duas irmãs mais velhas
Que acodem ao momentâneo instante que passa.
Só temos olhos para as duas irmãs mais velhas.
E não vemos a que está no meio,
a  pequena que caminha.perdida nas saias das irmãs.
Facilmente acreditamos que são as mais velhas que levam a pequena pela mão.
Cegos não vemos que é ela que arrasta as irmãs mais velhas
E que sem ela, elas nada seriam
senão duas mulheres idosas,
amachucadas pela vida.

É ela, essa miúda, que tudo arrasta.

Porque a Fé só vê o que é.
E ela vê o que será.
A Caridade só ama o que é.
E a Esperança ama o que será.»

Nesta noite, Senhor, tanto Te imploro o dom da Esperança.

Da humilde Esperança.

Friday, October 31, 2014

Monday, October 27, 2014

A HORA QUE MUDOU, UM QUARTO DE HORA A MAIS

Sempre que a hora muda, lembro as palavras de Sebastião da Gama que me deu a conhecer a sempre minha professora Manuela Granés.

Assim:

«Que bom ter o relógio adiantado!...
A gente assim, por saber
que tem sempre tempo a mais,
não se rala nem se apressa.
O meu sorriso de troça,
Amigos,
quando vejo o relógio
com três quartos de hora a mais!
Tic-tac, Tic-tac
(Lá pensa ele
que é já o fim dos meus dias.)
Tic-Tac, ...
(Como eu rio, cá p´ra dentro,
desta coisa divertida:
ele a julgar que é já o resto
e eu a saber que tenho sempre mais
três quartos de vida.)

Saturday, October 11, 2014


FIO QUE DESLIZA

Não consegui encontrar imagens das quintas que o meu avô cultivava no Campo Grande.
Também nelas vivi, criança e menina.
Feliz e livre.
Uns quatro anos mais tarde já não havia quintas,
Não mais esses lugares onde crescera entre papoilas, vacas, hortaliças.
E aí voltei entusiasmada e estranha, quando entrei na faculdade, o primeiro ano de Letras, de Direito, de Medicina, no Santa Maria.
Para vir para Campo de Ourique tomávamos um autocarro (verde) numa paragem na grande rua.
Entrei num mundo outro, que estranhei e amei.
Num caderninho de poemas de 58 leio esta estranheza em metáfora de autocarro.
 Assim :
" Que estranho é estar impaciente
à espera que passe um autocarro verde.
Como se ele não tivesse que vir
e não fossemos levados como os outros
e sentados depois num banco sempre igual p´ra cada um,
um banco que não é azul,
mas verde
como a realidade verde
dum autocarro-vida que desliza.»

Bom seria voltar a esta unidade.
A infância, uma quinta.
A juventude, a novidade de uma paragem de autocarro-vida que desliza.
Que sempre desliza.

 E agora volto a esta malha, prece de afecto e de ternura. E julgo que desvendo o mistério.
 Fio / Vida que desliza e se firma.
 Sempre em pontos de afecto.
 Lançado na infância
Parte inferior do formulário



Sunday, July 06, 2014

O TELEFONE

Só assim nestas coisas, e na bengala que tem que ser, nos pesos que não consigo carregar, em tantas outras debilidades a que procuro não vergar, é que me dou conta que tenho já muita história, isto é, muita idade. Este blog tem estado abandonado. Hoje, resolvi dar-lhe um soprozinho. Por causa de um telefonema que animou a manhã «não quer sair?», é que eu quis escrever sobre o telefone. E deixo de lado o telemóvel. Vivi uns treze anos sem telefone em casa. Só o da Leitaria, onde mais ou menos toda a gente de Campo de Ourique ia telefonar. Um dia, veio p´ra nossa casa um telefone. Preto, com os números nuns buracos que tínhamos que discar. Uma festa! Foi assim que conheci a minha grande amiga Carlota. Sozinha em casa, eu ia telefonando. Tinha até descoberto como se abria a caixa onde caíam os cinquenta centavos! Portanto eu telefonava sem gastar. Muito o Manuel e eu namorámos ao telefone. Poemas de cá para lá. Vida de lá para cá. Ideais de cá para lá. Projetos, tantos … Quando casámos na nossa casa houve sempre telefone. Chegou rapidinho, talvez à conta dum jeitinho do António. Hoje, é um objeto, não, não é um objeto, é um ser íntimo que aqui habita e me habita. Tão longe da forma original! Tão longe do uso original! É um grande companheiro o telefone. Um companheiro que manejo como quero. Atendo ou não atendo. Dou mais ou menos tempo à voz do outro lado. Exercito o silêncio. Ou digo uma palavra. Ou digo muitas palavras. Oiço e às vezes não oiço. Por aí… Todas as circunstâncias da vida num telefone. E toda a vida num telefone. É mesmo muito bom ter um telefone.

Thursday, January 23, 2014

À NOITE

Só agora consigo sentar-me assim na sala. Enfim tranquila. Olho a televisão enorme. A parede ao fundo. Uma planta verde que cresce sei lá como. E gosto. Não tocam os telefones. Gosto deste silêncio. Gosto da planta verde. Gosto enfim de estar assim na sala. E gosto enfim de estar assim sozinha.

Friday, November 22, 2013

MÃE

Lembrei-me, sim. E é sempre a festa. E a firmeza. Os bordados de Tibaldinho. A arca. A casa. A Leitaria Ecila. A gargalhada. A estrutura que a cada instante me diz VAI.

Saturday, October 12, 2013

BLUE JASMINE

Uma coisa tão boa deste dia. fui ver «Blue Jasmine». Sempre atraída por Woody Allen. E gostei tanto. Tudo para pensar. Tudo para reflectir. Revi-me em muitas situações. Revi-me e «colei-me» a tantas situações.E bom, mesmo bom foi a companhia. Amiga que como eu gosta de se sentar para dar dois dedos de conversa. Trocar impressões. Sentámo-nos e o filme ficou dentro.

Tuesday, October 08, 2013

ESTOU AQUI À ESPERA DE NADA

Ouvi esta frase/oração que me parece tranquilizar a vida, os dias, todos os sobressaltos, as tantas tarefas que julgo sempre que me cumpre realizar(!!!). Esta frase/oração que há-de ajudar-me a uma entrega enfim confiante. Por fim confiante. "ESTOU AQUI À ESPERA DE NADA." Quero dizê-lá. E voltar a dizê-la. E voltar a dizê-lá.

Sunday, September 29, 2013

RESISTENTES

Às vezes, muitas vezes, a chuva é a serenidade por fim poisada nos dias. Hoje, dia de votações autárquicas, a chuva é mais uma razão inventada para não ir votar. Bem ao contrário, um casal muito idoso, talvez com poucas posses e muitas despesas de saúde, afirmou-me ontem convicto no supermercado "Vamos votar. Vamos, claro. Não ficamos mais pobres por ir de taxi". E de certeza, vão. Que indiferença, que inércia deixa p'raí tanta gente sentada e adormecida no sofá da sala? A televisão serve. Prende-nos numa gaiola QUE NÃO É A VIDA. A vida hoje está na rua. Ainda que com muita abstenção. MAS RESISTENTE.

Saturday, September 28, 2013

VOU VOTAR, MAS NÃO É UMA FESTA

Vou votar. Vou votar mesmo. Luto académico de 62. Desde sempre a Vida se teceu em causas. Em valores. Em muita teimosia. E muita convicção. Hoje ir votar é uma consciência. Mas não é uma Esperança. Não é uma Alegria. Como estarão amanhã as ruas do meu bairro?

Wednesday, September 25, 2013

GOSTAR DE FRANCÊS

Não é difícil encontrar uma boa notícia em cada dia. No sábado, foi tão inesperado. A Mãe tinha-me dito que o Manuel estava a gostar de Francês. Com sorrisos, o do rapaz é mesmo lindo, provoquei-lhe duas frases. Boa pronúncia mesmo. E na segunda-feira lá estava eu no Instituto Francês a subir uma escada, com a minha linda bengala e o entusiasmo dos meus dezasseis, dezassete anos para comprar um livrito ao Manuel.Nesse dia e no outro e no outro talvez, tu foste, no és também o meu alento. UMA BOA NOTÍCIA.

Sunday, September 22, 2013

OUTONO

Estamos tão cansados deste calor. Estamos mesmo tão cansados. De viver assim. Amanhã ou hoje mesmo é sempre um dia tão incerto e tão difícil. Cansam-me até as ruas do meu bairro. Os rostos sem sorriso. Espelho dos meus. A vida sem Esperança. Ou quase. A vida sufocada. E chega assim o Outono. Quase certa é a alegria de poder pisar as folhas secas. E agarrar a serenidade de um qualquer vento fresco. Que há-de vir.

POR UM QUILO DE CENOURAS

No fim de semana passado fui ao encontro do Pedro Nunes - o euro, Portugal, a Europa. E o meu liceu. Aí fui aluna. Uma década depois fui professora. "Estou em casa". Mas, o assunto desta postagem é o euro. Foi para mi uma aprendizagem muito básica. Eu tinha ido à praça na véspera. As cenouras custavam 80 escudos. O euro passa a ser a nossa moeda. Volto à praça. As cenouras custam 80 cêntimos. Insurjo-me. A resposta que recebo é "Mas é muito barato. Nem custa 1euro."Não sei se esta é a razão por que estamos neste estado. Mas é também uma razão. Pensar não é coisa muito complicada. Parece-me. Não, tenho a certeza.

Tuesday, September 10, 2013

Sunday, September 01, 2013

NO FUNDO DA GAVETA, UM POEMA

Em Tibaldinho, entre tarefas bem pouco agradáveis, tarefas que me passavam ao lado porque alguém as fazia por mim, há pequenos/grandes milagres em gestos de nada como por exemplo abrir uma gaveta. Foi naquela da mesa da televisão que encontrei, como recordação do casamento da Cláudia e do Luís, este poema de Eugénio de Andrade. Deixo-o aqui. O meu sustento de poesia. Hoje. "Aqui e estão as mãos./ São os mais belos sinais da terra./Os anjos nascem aqui:/frescos, matinais, quase de orvalho,/ de coração alegre e povoado.(...)/Alguns pensam que são as mãos de deus,/ - eu sei que são as mãos de um homem,/trémulas barcaćas onde a água,/a tristeza e as quatro estações/penetram, indiferentemente./ Não lhes toquem:são amor e bondade./Mais ainda:cheiram a madressilva./São o primeiro homem, a primeira mulher./E amanhece."

Thursday, August 29, 2013

ANDRÉ

Esperámos-te na noite. Há quarenta e seis anos. Ansiosos. Felizes. O Pai e a Avó Alice ali comigo. Não foi um parto só da Mãe. Também no nascimento da tua irmã lá estavam os dois. Sem falar nos Avós. No Tio João. MEU AMOR. E inconscientes sonhávamos, supúnhamos que nascias para uma Vida sem dor. E que te havíamos de dar a eternidade. Demos-te a Vida. A tua Vida. A condição humana. E em tudo o que podemos, partilhada. Nesta noite teço os teus dias em contas de oração. E de louvor. E onde quer que o Pai esteja, ele está perto.

PUDÉSSEMOS NÓS INVERTER A CORRENTE

Ontem recebi um mail que dizia "O dia que Albert Einstein tanto temia chegou". A seguir seis imagens com situações várias em que cada pessoa tinha um telemóvel e, ainda que rodeada de outras pessoas ou de paisagens, só o telemóvel era o seu comunicador. Fala-se com o telemóvel, ainda que ao lado esteja o amigo, o namorado, quem quer que seja, ou se esteja à mesa, na praia, num museu! Sim, chegou o dia. O mail enviava também o texto de Eintein "Tenho medo do dia em que a tecnologia se vai sobrepor à interação humana. O mundo terá uma geração de idiotas." Sei o que é a dependência do telemóvel. Faço uma ligação, envio um SMS, trago-o na carteira. Se o esqueço em qualquer lado, fico inquieta. Realmente ...que cadeias prendem a vida! Estou em Tibaldinho, a aldeia da vida toda. Sempre escrevi postais. É um impulso quase obsessivo ou mesmo obsessivo. Dantes algumas senhoras de Campo de Ourique, quando eu voltava de férias, diziam-me "Sabe, tenho os seus postais numa gaveta com uma fitinha."Isto era muito bom. Agora ainda escrevo alguns. Poucos. Vou a Mangualde ou a Viseu, entro no Museu de Grão Vasco ou numa papelaria, pergunto por postais, é quase estranho. Espero. E lá aparecem alguns. Neste pequeno gesto, julgo que rumo contra a maré. Com palavras escritas p'lo meu punho, um postal procurado, um sêlo que é preciso comprar. Tempo. De ser pessoa. Para outra pessoa. E acho que vale.

Thursday, August 22, 2013

DE COMBÓIO

Volto a Tibaldinho. De combóio. Já não é "o pouca-terra, pouca-terra", nem tem fagulhas que nos sujem. Mas tem a mesma serenidade, suspeita dos pinhais, do verde que sempre procuramos. Que nos hão-de suportar em todos os ruídos. Em todos os gêlos. Suportar? Não, "que hão-de ser antes a essência dos dias." De todos os dias.