Wednesday, March 21, 2007

DA POESIA

Antes que o dia se preencha de tarefas e eu à espera das palavras ajustadas para dizer que este dia, sim, este dia vale a pena, fica só o título que lhe dei,
fica o desejo de que tudo, mas tudo, hose e sempre, seja POESIA, daquela, como dizia a Natália, QUE É PARA COMER.

Tuesday, March 13, 2007

O ESTADO DA NAÇÃO

É que é só ver o novo programa da TVI «A Bela e o Mestre»!!!

Depois, talvez um anti-depressivo assim dos bons para nos aguentarmos por aí.

Saturday, March 10, 2007

TORRADEIRA VIRGEM E OUTRAS VIRGINDADES

Estrgou-se a torradeira que o André nos deu pr'aí há vinte anos.
Estragou-se há seis meses.

O Manel, que adora torradas, foi logo comprar uma. Torradeira últimmo grito.
Mas estamos há seis meses à espera que ele leia as instruções. parece que é preciso estar montes de tempo ligada, antes de usar.
Isto para nós, é o símbolo da impossibilidade.
Lá está ela na cozinha. Linda!
Mas virgem
E nós a comermos torradas pelo bairro.

Temos de certeza uma tendência para deixar tudo assim. Virgem. Sem uso. Na mesma está a câmara digital que o André deu ao pai no dia de anos... Dezembro, 23, 2006!!!

Quem é que acredita na mudança?

NÃO CONSIGO RESPONDER A ALGUNS COMENTÁRIOS

Também eu gosto de responder a todos os que por aqui escrevem um comentário, dizer-lhes um bem-haja, dizer que li, que assim ou que assado.
E esbarro com uma série de dificuldades.
Hoje, gostava tanto de ter respondido a NO PAÍS DAS MACIEIRAS. mas lá vinha aquela confusão.
Fica um protesto (protestar a vida inteira, é cansativo, mas ....) E para todos, a certeza de que os leio com atenção e gratidão.
E também de que o meu dia se torna logo mais feliz.

Thursday, March 08, 2007

CINQUENTA ANOS DA RADIO TELEVISÃO

Pois lembro-me de tudo.
E nós com tanto para contar sobre esta fantástica caixa mágica.

O meu pai foi o primeiro morador de Campo de Ourique a comprar um aparelho de TV.
Como resultado, serões todas as noites com imensos amigos.
Sempre razão de festa.
No Verão – tentem ver o filme! – o meu pai virava o aparelho para as traseiras do prédio e nós todos nas escadas de serviço.

Saber que o Manuel e eu nos conhecemos em casa da Maria Armanda Falcão (depois, Vera Lagoa)!

E o que o Manuel trabalhou a vida inteira naquela casa. As traduções do Gato Félix, os anúncios da Tofa (vá lá, lá passaram os jingles da Tofina e do Mokambo!) e depois durante quinze anos, o «Setenta vezes Sete».

Os serões dos festivais, com totó-canção, a ida à Lua a noite inteira, as crianças ao colo do pai.

O Vinte e Cinco de Abril entre a esperança e o medo.

Hoje, não gosto de muita coisa. De muita mesmo.

Mas tenho um grande, um enorme BEM HAJA para dizer à Rádio Televisão Portuguesa.
Faz parte de mim.
Faz parte de nós.

SOMENTE IGUAIS

Porque é que me irrito com este Dia, chamado «dia internacional da mulher»?

Talvez por causa da utopia de «sermos iguais».
Tão só iguais.
Esse desejo humilde.
Apenas isso.
Iguais.

Monday, March 05, 2007

COMO SE APENAS ATRAVESSÁSSEMOS O MUNDO SEM OLHAR

De Teresa de Calcutá deixo por aqui esta inquietação que tanto dói.

«Estamos nós prontos para partilhar os sofrimentos dos outros, (...)?
Parece-me que a grande miséria e o sofrimento são mais difíceis de resolver no Ocidente.
Ao encontrar alguém esfomeado na rua, oferecendo-lhe uma tigela de arroz ou uma fatia de pão, posso apaziguar-lhe a fome.

Mas aquele que foi pisado, que não se sente desejado, amado, que vive no medo, que se sente rejeitado pela sociedade, esse experimenta uma forma de pobreza bem mais profunda e dolorosa. E é muito mais difícil encontrar remédio para ela. (...)As pessoas estão ávidas de amor.
Será que vemos isso quando o nosso olhar se passeia sem se fixar?
Como se apenas atravessássemos o mundo...»

Sunday, March 04, 2007

TABOR


«Esta busca constante do belo é o que mais nos aproxima do absoluto»

Ouvi ontem, fim da tarde na cidade.
E julgo que entendi, ao menos em parte.


Sei muitos poemas de cor. Muitas palavras.
Foi então que me lembrei deste que guardo desde menina, julgo que de Mário de Sá Carneiro:

«Um pouco mais de sol e fora brasa
Um pouco mais de azul e fora além
Para atingir faltou-me um golpe de asa.
Ah, se ao menos eu permanecesse aquém!»

Nunca quis «ficar aquém». A vida toda.
Sabendo como dói «o pouco mais de sol» que falta, «o pouco mais de azul» que não alcanço.

Mas já lá está.
Inteiramente em mim.
Porque sonhado, querido, tentado a custo.

Cravada a dor de nunca alcançar.

Monday, February 26, 2007

Sunday, February 25, 2007

DAVID MOURÃO FERREIRA

Ontem o professor, o poeta teria feito oitenta anos.
Foi bom lembrá-lo.
É bom dizê-lo aqui.

Como me espantei, no primeiro ano da faculdade de ir ter uma cadeira, que ele ensinava, com o nome de «Teoria da Literatura». Eu, refilona sempre «Teoria da Literatura, não podia ser».
E com que arte ele nos conseguiu fazer perceber que tudo, tudo, se trabalha. Muito.
As palavras parecem «tão espontâneas».
Parecem.
E vamos sempre buscá-las muito fundo.
Muito fundo, professor.

DESABAFOS A PROPÓSITO DE «O GRANDE SILÊNCIO

Fomos ver «O grande silêncio». Tal qual esperávamos.
Tivemos saudades deste silêncio que por dentro nos povoa.
Tivemos saudades duns tempos de retiro, bons para nós, e que faziam felizes a Maria e o André com a casa toda enfim por sua conta.
E tivemos saudades do Mário. Amigo único. Monge eremita,
na cidade, numa capela ao pé da Sé, onde quando alguém entrava, estava sempre em primeiro lugar. Parava tudo. Mesmo as missas . E quem chegava, era acolhido de forma única.
Quando o Bernardo nasceu e a Maria e o Paulo o levaram lá, ele fez uma festa enorme. O Mário tocou os sinos. Tocou-os durante muito tempo. Tocou-os de forma que se ouvissem muito. Na cidade.
Quando a minha mãe morreu o Mário, de hábito branco, apareceu na basílica da Estrela para me dizer «Teresa, canta Aleluia». Talvez eu ainda hoje não tenha percebido. Mas o Mário afirmou o mistério. E eu não me esqueço.

Monday, February 19, 2007

CEGO É O QUE NÃO VÊ O ROSTO DA POBREZA

A nossa empregada acaba de telefonar. Que não vem. Que tem gipe e está cheia de febre.
A X nasceu na Madeira. Por causa da extrema pobreza foi muito criança para a Venezuela. Aí casou.
E também por causa da pobreza veio para Portugal. Ela, o marido, três filhos e os sogros.
Trabalha numa limpeza desde as seis da manhã. Chega a casa às dez da noite.
Disse-nos há uns dias que nunca tinha estado doente.
É uma mulher alegre e cumpridora.

Às vezes, tantas vezes, somos cegos ao rosto da pobreza, que cruza as nossas vidas.
Que cruza a cada passo as nossas vidas.

Monday, February 12, 2007

A ARCA DE CÂNFORA

Hoje abri a arca dos bordados. Toda a gente estava lá. Tudo e todos bem misturadinhos. Como a vida.
A «parure» de casamento da minha mãe («parure» é a roupa interior), o meu fato de primeira comunhão, a envolta que a avó Alice fez para a Laranjinnha e o seu fato de baptismo. Uma capa do André se mascarar, Zorro parece. A amostra de que fiz o xaile dos meus netos mais velhos.
Lençóis - só dois - ainda por estrear. Amarelitos, claro.
E eu a desdobrar cada peça devagarinho, deixando escorrer entre os dedos memórias e ternura. E a dizer cada nome. Também devagarinho.

Quando era nova, eu achava aquela arca horrível mesmo, pirosíssima. Tinha vindo de África. É difícil de limpar.
O que a gente muda!
E como é bom saber que a vida a tudo nos ensina a dar sentido.
Hoje, foi a vez da arca.

Sunday, February 11, 2007

O DOM DA MEMÓRIA

Lembro-me de muitas coisas, parece que às vezes vêm do fundo, uma espécie de arca mais arrumada do que a das roupas.
A minha avó paterna vivia com muitas dificuldades económicas, muitas mesmo. Como na época todas as avós.
Mas naquela visita que lhe fazíamos aos domingos, os meu primos e eu, lá estava SEMPRE, SEMPRE um bolo para os netos.
Outro dia, dei comigo a dizer para mim que estes tempos modernos nos trouxeram conquistas, mas quantas de nós, e é só por mim que falo, esquecemos este ritual do BOLO DOMINICAL PARA OS NETOS.
E cá estou eu, feliz nesta noite de sábado, bolinho pronto para os rapazes. Lindo, sobre um pano branco bordado à mão (de Tibaldinho, claro).
E à conta do referendo, os Marias vêm almoçar.
Boa!
Vivam os referendos!
E tudo o que é razão para a mesa posta, ainda que só um bolo.

Wednesday, February 07, 2007

COMO SE TECE UMA ORAÇÃO

Vou tricotar uns casaquinhos pequenos que só costumam servir durante a primeira semana de vida das crianças, que o digam a Maria e a Aninhas.
É que três amigas minhas vão ter netos lá para o Verão.
Eu teço malhas. Coisa que me dá muita serenidade.
Gesto cheio de memória. Gesto cheio de história e de histórias.
Prece que se faz também p'las minhas mãos.

Tuesday, February 06, 2007

IINTERMEZZO

Este tempo todo sem escrever, não é normal.
É verdade que o Manuel atacou a Net a tempo inteiro e que me levanto mais tarde.
É verdade que tive uma gripe ou virose (que confusão!!! ) que me deixou mesmo tão down. Mas já estou boa. Ou bem melhor.

Entre 18 de Janeiro (o dia dos anos da Maria) e hoje, 7 de Fevereiro, aconteceu muita coisa que ficou por anotar. E as coisas «invisíveis» vão ficar por dizer, esquecidas ou apenas por um tempo retidas entre a mente e as palavras.

O mais importante foi que NO DIA 3, O NOSSO NETO PRIMOGÉNITO, O BERNARDO, FEZ DEZASSEIS ANOS
Aquele rapaz fantástico que me escreve comentários no blog. O grande amigo do avô Manel. E meu, claro. Esta é a grande notícia deste intermezzo.
Para ti, toda a ternura da avó Teté. Que às vezes te chateia com verbos, cadernos passados a limpo, «se eu fosse tua professora, ...», «tira os cotovelos de cima da mesa», «não fales tão alto», «tudo desarrumado, Bernardo», «não me respondes assim»... e tu, super bom e generoso como és e como vais ser a vida toda, a perguntares se a avó está zangada. E eu a dizer-te UM AMOR DO TAMANHO DO MUNDO. E tu a saberes que é mesmo isso que eu te estou a dizer. SEMPRE.

Wednesday, January 17, 2007

MARIA LARANJINHA


«Temos uma menina! Tão bonita e tão gordinha! Pesa um quilo e trezentos.»
Meia a dormir de uma anestesia (a nossa menina tirada a ferros, coisas doutros tempos… ), eu conseguia mesmo assim perceber que aquela conversa não batia certa.
Quando a avó Alice chegou como sempre antes do horário permitido, lá consegui pedir-lhe «Mãe, vá ver a menina, deve estar na estufa. Pesa um quilo e trezentos.»
E a minha mãe «Que não, tão linda, pesa três quilos e cem».
Meu querido Manuel a alegria da vida dita no primeiro choro da nossa Maria ao romper da manhã e as duas noites em branco não conseguiam deixar que dissesses as palavras certas.
Foi assim que mostraste a felicidade.
Foi então a vez da avó Céu «Tão redondinha! Parece uma laranjinha!»

E deste modo ficaste, querida filha, «a Maria Laranjinha».

Vou pedir ao pai que ponha aqui uma «fotografia histórica» que com estas palavras e outras, muitas, te hão-de dizer PARABÉNS no dia de hoje
e sempre.

Saturday, January 13, 2007

OS MAIORES PORTUGUESES

Quase choro.
Feliz.
Tocamos a eternidade.
VIEIRA DA SILVA
NATÁLIA CORREIA
MIGUEL TORGA
GIL VICENTE
LOBO ANTUNES
(estamos no intervalo. Vou deixar de os mencionar)

Dizemos assim a vida.

Tuesday, January 09, 2007

O PRINCÍPIO E O FIM

Deixo-vos de e José de Mendonça, a Oração da Manhã emitida ontem na RR, de que gostei tanto, tanto::

«Estarás no princípio e no fim,à porta da nossa casa e à janela dos caminhos,
na partida e nos regressos.
A nosso lado, farás cada trilho,como companheiro que vai permanecendo até se tornar um de nós,
tornando suave a difícil pausa
e uma descoberta cada desvio.
Brilharás como a estrela da manhã
e serás o ponto mais silencioso da noite
quando mesmo o assobio do tempo se suspende.
Então pousarás sobre nós o teu imenso olhar,como uma mãe ou um pai
que se levantam na casa recolhidaapenas para vigiar o precioso filho que dorme.
E quando acordarmos já tu penteaste de verde os longos cabelos das árvores,
e ensinaste ao pássaro cantor a sua alegria.»

Wednesday, January 03, 2007

AQUELA SENHORA QUE CONHEÇO DO CAFÉ

Pois fui com ela à consulta. E eu com os exames na mão, a lê-los. «Um cancro no esófago«.
Ela a dizer me que era muito corajosa. A repetir. Que faria tudo o que fosse preciso. Eu incomodada, estranha com aquela coragem dita, repetida.
Foi quando o médico com jeito (jeito como ??) esclareceu «que não tinha boas notícias, que seria melhor repetir ali no hospital todos os exames. E que só depois haviam de tomar uma decisão.»
E ela a insistir na coragem com o olhar, a dizer que o «senhor doutor é muito simpático. Sabe, foi tudo por causa da zona». E a contar-lhe como é que não conseguia comer. E «que aquele chá da ervanária é que ajudava ...»

Hoje veio cá a casa. »Que tinha que sair. que estava sol». E trazia um presente. Um embrulho enorme, cheio de pegas que fizera.
Amanhã lá vai repetir um dos exames.
E a ensinar-me, a ensinar-nos que os dias, que a vida só se faz de afectos.