Peço aos meus filhos
que esqueçam o quanto sou desarrumada
os cozinhados sem jeito, as sopas queimadas, os bifes de cavalo e de coração,
a chatinha das contas e dos orçamentos apertados,
o precipício das palavras,
o feitio mais difícil aos sábados de manhã,
etc
etc
etc
etc
Lembrem antes a alegria de ser mãe de dois filhos absolutamente únicos,
repito,
dois filhos absolutamente únicos
E esta procura que há-de ser a vida toda de melhorar a performance já que não há manuais para mães e não sabemos mesmo nada quando vocês nascem
nem porque é que choram quando acabaram de mamar e têm a fralda mudada
e não queremos acreditar nas nossas mães que sempre souberam mais qualquer coisa, muito mais mesmo, mas são as nossas mães e sempre temos que as contrariar, porque parece-nos «que nós é que sabemos»
Lembrem a confusão e a alegria das vossas festas de anos
o entusiasmo dos presentes de Natal
as viagens intermináveis para Tibaldinho com os vossos amigos, histórias e cantigas
O como peguei ao colo em cada um para vos mostrar o mar, lembro-me bem!
e procurei que não tivessem medo e aconcheguei-vos ao peito para que não tremessem nem tivessem frio
E vocês nasceram para a vossa vida
cresceram
têm alegrias
e também sofrimentos.
Muitos.
Aí dói de que maneira e chego a dizer «que não é assim tão complicado»
e dói-me ainda mais
Coisas de mãe.
Nunca ninguém nos disse nem vos disse que a vida é fácil.
Mas vale muito e é boa, porque é VIDA.
Às mães gostavam de o dizer, mas não podem. E têm tanta pena.
Este texto é para os meus filhos, que são a maior benção da minha vida.
Por eles,
fiz muitas sopas,
muitas compras
talvez canseiras,
li pouco ou menos do que tinha querido
escrevi pouco
mas sei que é por eles que também eu continuo a obra da criação.
E pela vida dos meus filhos toco a eternidade.
E agora deixo este texto de Gibran em jeito de partilha.
Diz assim:
Dos Filhos
E uma mulher que carregava o filho nos braços disse ao profeta: “Fala-nos dos filhos.”
E ele disse:
Vossos filhos não são vossos filhos.
São filhos e filhas da vida .
Vêm através de vós, mas não de vós.
E, embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis dar-lhes o vosso amor, mas não os vossos pensamentos,
Pois eles têm os seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar os seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois o arco dos quais vossos filhos, quais setas vivas, são arremessados.
O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e dá-vos a Sua força para que as suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que o vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja a vossa alegria:
Pois assim como Ele ama a flecha que voa, ama também o arco, que permanece estável.
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