Hoje faz anos a Bé Frazão,
a mais velha desta família, os «Amaral Frazão»,
a família do Manuel que por muitas razões, muitos afectos, se tornou também minha.
A Bé é a sua coluna maior.
Procurei palavras que dela fossem dignas.
Aí vão, de Álvaro de Campos
«No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...»
Parabéns, Bé Frazão
Thursday, February 18, 2010
Thursday, February 11, 2010
O SOL AJUDA

É que está sol e isso é bom.
Antes de começar a escrever,
ou a fazer o almoço (as horas avançam, logo se vê)
enquanto espero que o Manel chegue de mais uma consulta
folheio o que me vem à mão Sophia, Brel,….
E transcrevo de Sophia palavras ditas na Sociedade Portuguesa de Autores em 64
«Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo.
(…)
E é por isso que a poesia é uma moral.
(…)
A moral do poema não depende de nenhum código, de nenhuma lei, de nenhum programa que lhe seja exterior, mas porque é uma realidade vivida, integra-se no tempo vivido.»
Sublinho
«a poesia é uma realidade vivida».
E assim lá vou eu para o poema do dia a dia.
Tão banal.
E tão real
Sunday, February 07, 2010
POSTAIS ILUSTRADOS

Toda a gente sabe que gosto de os escrever.
Às vezes em Tibaldinho escrevo sessenta e tal,verdade, sem exagêro.
A N também sabe.
Às vezes também ela me escreve um, «Para a amiga que ainda os escreve.»
Hoje telefonou-me. Por causa da saúde do Manel.
Em desabafo, quase em desespêro, contou-me que no verão tinha ido a França e procurou um para me escrever.
Disse-me «Sabes que não havia.»
Se eu sei N.
Em Tibaldinho, vou
e torno a ir
ao Museu de Grão Vasco para comprar os tais postais, os únicos razoáveis.
Tenho sessenta e nove anos, quase setenta.
Os postais que ainda encontro são os mesmos desde a infância.
Os mesmos.
E cada vez menos variados.
Compro imensos iguais, os que há.
E desespero.
Não é mesmo lindo este, a praça de D. Duarte junto à Sé?
FIM DE SEMANA, POIS CLARO

Fartos de estar em casa,
o Manel, as dores, mais fortes, menos fortes,
vagamente e sem muita atenção um livro (finalmente a «Vida de Teresa de Jesus», esta que já me convence da santidade e não a que me «venderam» em criança,
obediente sempre,
caladinha,
«Vês Teresinha, é assim que deves ser»),
a televisão a ocupar IMENSO espaço.
Em todos os canais só futebol.
Política
em stand by.
Fim de semana
tão ao gosto português.
TENHO MUITA PENA.
MUITA.
Friday, February 05, 2010
SMS

Ontem escrevi à Z para justificar a minha ausência e lá disse que o Manel tinha que fazer exames para se encontrar a causa do tal líquido na pleura.
Recebi de volta estas palavras
amigas
sábias.
«As notícias não são boas, mas abrem caminho. Que fique bem e depressa.»
Respondi:
«Caminho é sempre bom. Só que estamoss a vida toda a aprender a caminhar.»
Tal qual.
Aprender o passo certo em cada dia.
O passo certo em cada situação
em cada melodia.
Wednesday, February 03, 2010
PARABÉNS MEU AMOR
É que eu não tinha qualquer intenção de abandonar este espaço,
agarro-me a todos os espaços de comunicação e de partilha.
Respiro assim. Comunicando.
O que me deu foi sofrer situação difícil de enfrentar. Ver o Manel cheio de dores, frequentes e fortes e eu aqui a procurar fazer-lhe tudo.
E impotente.
Custou-me muito. Era mais por aí o «abandono». Durante semanas e semanas, o homem a fazer todos os exames possíveis. E causa não detectada.
Por fim, parece que estamos lá quase, esperamos bem. Líquido na pleura. Com a medicação alterada e uma ida ao barbeiro, cabelinho cortado, está com menos dores e até muito giro. O cabelo branco fica-lhe muito bem, verdade
Agora é preciso fazer exames, saber a causa. Ja é caminho.
Parece estranho escrever tudo isto no dia abençoado em que o Bernardo faz dezanove anos.
Nosso neto primeiro.
Vou plagear o André que escreve aos Marias PARABÉNS, MEU AMOR.
Com a vida dos meus filhos
e com a vida dos meus netos,
sei que toco a eternidade.
A continuar...
agarro-me a todos os espaços de comunicação e de partilha.
Respiro assim. Comunicando.
O que me deu foi sofrer situação difícil de enfrentar. Ver o Manel cheio de dores, frequentes e fortes e eu aqui a procurar fazer-lhe tudo.
E impotente.
Custou-me muito. Era mais por aí o «abandono». Durante semanas e semanas, o homem a fazer todos os exames possíveis. E causa não detectada.
Por fim, parece que estamos lá quase, esperamos bem. Líquido na pleura. Com a medicação alterada e uma ida ao barbeiro, cabelinho cortado, está com menos dores e até muito giro. O cabelo branco fica-lhe muito bem, verdade
Agora é preciso fazer exames, saber a causa. Ja é caminho.
Parece estranho escrever tudo isto no dia abençoado em que o Bernardo faz dezanove anos.
Nosso neto primeiro.
Vou plagear o André que escreve aos Marias PARABÉNS, MEU AMOR.
Com a vida dos meus filhos
e com a vida dos meus netos,
sei que toco a eternidade.
A continuar...
Saturday, January 23, 2010
Thursday, January 07, 2010
VALE-ME O CACHE-COL DO FRANCISCO
- A avó podia fazer-me um cache-col preto e laranja?
Valeu-me o teu pedido este natal.
O Natal foi bom naquelas queixas que fazemos todos os anos. Dizemos «para o ano vou p'ra fora» e são as inúmeras correrias, é que é milagre não querer mesmo deixar de ver ninguém, estender-se até sei lá, p'ra lá de tudo. Os embrulhitos que abrindo-se dizem a ternura e ninguém pensa em valores.
E também foi muito triste.
Na minha idade ou sempre batem-nos à porta mortes. Doenças. Na minha idade ou sempre,...
Mas aquele cache-col Francisco, que está quase (dois metros e meio e é preciso chegar aos três). É que fazer estas e outras malhas me dá a sensação de ligar sempre fios,
vidas,
ternura
Fios que nunca se cortam.
Um bem-haja grande, Francisco
Natal
Valeu-me o teu pedido este natal.
O Natal foi bom naquelas queixas que fazemos todos os anos. Dizemos «para o ano vou p'ra fora» e são as inúmeras correrias, é que é milagre não querer mesmo deixar de ver ninguém, estender-se até sei lá, p'ra lá de tudo. Os embrulhitos que abrindo-se dizem a ternura e ninguém pensa em valores.
E também foi muito triste.
Na minha idade ou sempre batem-nos à porta mortes. Doenças. Na minha idade ou sempre,...
Mas aquele cache-col Francisco, que está quase (dois metros e meio e é preciso chegar aos três). É que fazer estas e outras malhas me dá a sensação de ligar sempre fios,
vidas,
ternura
Fios que nunca se cortam.
Um bem-haja grande, Francisco
Natal
Sunday, December 06, 2009
DE «FIOSSOLTOS»
Gostei tanto,
que ouso copiar de «fiossoltos»
e transcrever
"Aqueles que passam por nós não vão sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós."
de Antoine de Saint-Exupéry
que ouso copiar de «fiossoltos»
e transcrever
"Aqueles que passam por nós não vão sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós."
de Antoine de Saint-Exupéry
Saturday, November 28, 2009
ADVENTO E HONESTIDADE
O que é que neste país é honesto?
Verdade, qualquer coisinha serve.
Porque começa o Advento
E há-de vir o Natal.
Recebi uma proposta de encontro com o tema
«SOMOS NÓS QUE FAZEMOS O PRESÉPIO OU É O PRESÉPIO QUE NOS FAZ?»
«Isto» já vale. Pudéssemos nós passar esta pergunta pela cidade e talvez...
É que A DESONESTIDADE NÃO É UMA FATALIDADE.
Não é mesmo.
Verdade, qualquer coisinha serve.
Porque começa o Advento
E há-de vir o Natal.
Recebi uma proposta de encontro com o tema
«SOMOS NÓS QUE FAZEMOS O PRESÉPIO OU É O PRESÉPIO QUE NOS FAZ?»
«Isto» já vale. Pudéssemos nós passar esta pergunta pela cidade e talvez...
É que A DESONESTIDADE NÃO É UMA FATALIDADE.
Não é mesmo.
Friday, November 20, 2009
MÃE
Amanhã é dia da Apresentação de Nossa Senhora.
E como calha bem que seja também o dia em que a minha mãe faria anos.
Para lhe louvar a vida.
A coragem.
Essa inteireza que, entendo hoje, lhe escondia o sofrimento.
A senhora nunca confessava. Dizia coisas como «não tem importância» ou «não é nada, vais ver».
Quando a dor foi mais forte porque o pai morreu, a mãe olhou-me, olhos nos olhos, sem fugas, sem mentiras. E disse «Acontece a todos».
Esse olhar, essa frase, essa dor partilhada comigo. E só assim. «Acontece a todos».
Hoje, que os meus filhos são homens e mulheres cujas vidas não devo controlar e os meus netos seguem o mesmo caminho, percebo-a bem melhor.
Olhe, deve lembrar-se daquele arroz doce que só a mãe fazia e nunca conseguiu ensinar-me. Não sabia ao certo a quantidade dos ovos, nem do leite.
Disse-me «Vais vendo».
Esse foi talvez o segredo maior que me ensinou «Vais vendo».
Tenho-o presente
e procuro aplicá-lo.
Dia a dia.
De situação em situação.
Sem regras.
E sem medida certa.
Calha tão bem esta festa.
É que foi com estas frases de aparência neutra que a minha mãe me apresentou à vida.
E como calha bem que seja também o dia em que a minha mãe faria anos.
Para lhe louvar a vida.
A coragem.
Essa inteireza que, entendo hoje, lhe escondia o sofrimento.
A senhora nunca confessava. Dizia coisas como «não tem importância» ou «não é nada, vais ver».
Quando a dor foi mais forte porque o pai morreu, a mãe olhou-me, olhos nos olhos, sem fugas, sem mentiras. E disse «Acontece a todos».
Esse olhar, essa frase, essa dor partilhada comigo. E só assim. «Acontece a todos».
Hoje, que os meus filhos são homens e mulheres cujas vidas não devo controlar e os meus netos seguem o mesmo caminho, percebo-a bem melhor.
Olhe, deve lembrar-se daquele arroz doce que só a mãe fazia e nunca conseguiu ensinar-me. Não sabia ao certo a quantidade dos ovos, nem do leite.
Disse-me «Vais vendo».
Esse foi talvez o segredo maior que me ensinou «Vais vendo».
Tenho-o presente
e procuro aplicá-lo.
Dia a dia.
De situação em situação.
Sem regras.
E sem medida certa.
Calha tão bem esta festa.
É que foi com estas frases de aparência neutra que a minha mãe me apresentou à vida.
Thursday, November 19, 2009
O ESPANTO E O FRACASSO
Bati-me a vida toda por causas.
Talvez muitas.
Causas pela justiça, por todas as formas de humanidade.
Hoje, numa conversa, no mínimo estranha,
pergunto
O QUE VALE?
A PALAVRA DADA?
OU O JOGO EM QUE
GANHA O MAIS NOVO e supostamente O MAIS FORTE?
Não gosto de dizer «que não estou neste mundo», mas é só ver
só ouvir.
ONDE ESTOU?
DÒI-ME A MINHA GERAÇÃO
PS - Ninguém há-de perceber nada desta postagem. E não dá para explicar.
Às vezes,
é assim.
Talvez muitas.
Causas pela justiça, por todas as formas de humanidade.
Hoje, numa conversa, no mínimo estranha,
pergunto
O QUE VALE?
A PALAVRA DADA?
OU O JOGO EM QUE
GANHA O MAIS NOVO e supostamente O MAIS FORTE?
Não gosto de dizer «que não estou neste mundo», mas é só ver
só ouvir.
ONDE ESTOU?
DÒI-ME A MINHA GERAÇÃO
PS - Ninguém há-de perceber nada desta postagem. E não dá para explicar.
Às vezes,
é assim.
Saturday, November 07, 2009
SEM LUGAR NA PARÓQUIA DO TEU BAIRRO
Nem sequer é teu «o espaço que te cabe neste latifúndio».
Para que não se confunda,
Sou católica e escolhi.
Por isso,
Por amor a esta Igreja que escolhi,
Devo dizer, devo denunciar sempre que me parece incorrecto o seu agir.
Foi o que aconteceu ontem.
Mesmo aqui.
No prédio ao lado.
Na paróquia do meu bairro.
Tinhas idade e estavas muito doente. Vi que por ti se multiplicavam os cuidados, por exemplo no café, pequeno e sem notícia, aqui em frente.
Esperávamos este desenlace.
Deu-se ontem. (em desabafo, fazes-nos falta, tanta falta...)
E a paróquia que é a tua,
ali onde sempre foste tantas vezes,
que provavelmente ajudaste a manter,
recusou a entrada e a vela do teu corpo sem vida.
É que era dia da festa do seu padroeiro.
Vinham muitas entidades.
Civis, militares e religiosas.
Pompa e muita circunstância.
O teu corpo não pode entrar na quase invisível porta lateral das capelas mortuárias.
Talvez um corpo morto não ficasse bem…
A ti já te não dói.
Mas doeu a tantos de nós, ao bairro quase todo e não condiz com cristianismo.
O que é isto?
E neste episódio lastimável, doloroso,
Não encontro o rosto de Jesus.
Quem devo responsabilizar?
A agência funerária?
Alguém que da igreja deu ousou tal insensata e cruel proibição?
Jesus Cristo que chorou a morte dos amigos
chorou ontem por ti
e chorou com grande dor pela Sua Igreja.
Para que não se confunda,
Sou católica e escolhi.
Por isso,
Por amor a esta Igreja que escolhi,
Devo dizer, devo denunciar sempre que me parece incorrecto o seu agir.
Foi o que aconteceu ontem.
Mesmo aqui.
No prédio ao lado.
Na paróquia do meu bairro.
Tinhas idade e estavas muito doente. Vi que por ti se multiplicavam os cuidados, por exemplo no café, pequeno e sem notícia, aqui em frente.
Esperávamos este desenlace.
Deu-se ontem. (em desabafo, fazes-nos falta, tanta falta...)
E a paróquia que é a tua,
ali onde sempre foste tantas vezes,
que provavelmente ajudaste a manter,
recusou a entrada e a vela do teu corpo sem vida.
É que era dia da festa do seu padroeiro.
Vinham muitas entidades.
Civis, militares e religiosas.
Pompa e muita circunstância.
O teu corpo não pode entrar na quase invisível porta lateral das capelas mortuárias.
Talvez um corpo morto não ficasse bem…
A ti já te não dói.
Mas doeu a tantos de nós, ao bairro quase todo e não condiz com cristianismo.
O que é isto?
E neste episódio lastimável, doloroso,
Não encontro o rosto de Jesus.
Quem devo responsabilizar?
A agência funerária?
Alguém que da igreja deu ousou tal insensata e cruel proibição?
Jesus Cristo que chorou a morte dos amigos
chorou ontem por ti
e chorou com grande dor pela Sua Igreja.
Monday, October 26, 2009
SALVOS PELA MEMÓRIA
Agora
é já pedir-te demais.
Nos teus olhos eu nunca tinha visto tanta dor.
Vi
mas também a disseste.
Talvez a memória nos possa salvar.
É um «talvez» tão esforçado e duvidoso.
Melhor seria aceitar
ou poder aceitar
que não é só de Caim que nós falamos
E uma notícia te dissesse, com verdade, que «somos mesmo muitos»,
que somos «uma multidão»
e que talvez «da dor o fogo nasça».
Sonho um outro brilho nesse olhar
Gostava de dizer-te a madrugada de tudo quanto nasce.
De qualquer jeito,
gostava,
de salvar-te.
Melhor do que gostava,
quero.
Deixa só a harmonia de tudo quanto é simples.
Deixa só
algumas palavras
Só algumas.
é já pedir-te demais.
Nos teus olhos eu nunca tinha visto tanta dor.
Vi
mas também a disseste.
Talvez a memória nos possa salvar.
É um «talvez» tão esforçado e duvidoso.
Melhor seria aceitar
ou poder aceitar
que não é só de Caim que nós falamos
E uma notícia te dissesse, com verdade, que «somos mesmo muitos»,
que somos «uma multidão»
e que talvez «da dor o fogo nasça».
Sonho um outro brilho nesse olhar
Gostava de dizer-te a madrugada de tudo quanto nasce.
De qualquer jeito,
gostava,
de salvar-te.
Melhor do que gostava,
quero.
Deixa só a harmonia de tudo quanto é simples.
Deixa só
algumas palavras
Só algumas.
Sunday, October 25, 2009
UMA HORA A MAIS
Hoje, à conta da mudança de hora, tivemos uma hora a mais.
Frigorífico descongelado e lavadinho
e tantas, tantas palavras por escrever.
Nem um pezinho na rua.
Lá encontrei Sebastião da Gama
certinho
hoje
Aqui vai com um nó na garganta,
um novelo talvez,
por tudo «o que fica por...»
Lá vai então:
«Poema da minha esperança
Que bom ter o relógio adiantado!...
A gente assim, por saber
que tem sempre tempo a mais,
não se rala nem se apressa.
O meu sorriso de troça,
Amigos!,
quando vejo o meu relógio
com três quartos de hora a mais!...
Tic-tac... Tic-tac...
(Lá pensa ele
que é já o fim dos meus dias.)
Tic-tac...
(Como eu rio, cá p'ra dentro,
de esta coisa divertida:
ele a julgar que é já o resto
e eu a saber que tenho sempre mais
três quartos de hora de vida.)
Serra-Mãe (1945)»
Mais três quartosd de hora...
Uma hora a mais...
Frigorífico descongelado e lavadinho
e tantas, tantas palavras por escrever.
Nem um pezinho na rua.
Lá encontrei Sebastião da Gama
certinho
hoje
Aqui vai com um nó na garganta,
um novelo talvez,
por tudo «o que fica por...»
Lá vai então:
«Poema da minha esperança
Que bom ter o relógio adiantado!...
A gente assim, por saber
que tem sempre tempo a mais,
não se rala nem se apressa.
O meu sorriso de troça,
Amigos!,
quando vejo o meu relógio
com três quartos de hora a mais!...
Tic-tac... Tic-tac...
(Lá pensa ele
que é já o fim dos meus dias.)
Tic-tac...
(Como eu rio, cá p'ra dentro,
de esta coisa divertida:
ele a julgar que é já o resto
e eu a saber que tenho sempre mais
três quartos de hora de vida.)
Serra-Mãe (1945)»
Mais três quartosd de hora...
Uma hora a mais...
Tuesday, October 20, 2009
SARAMAGO NÃO MERECE SARAMAGO
Toda a gente sabe,
diz,
deixa-se incomodar comigo «A teresa é tão atenta e tão crítica»
Sempre e em todo o lado assim.
Muito mais se amo aquilo que critico.
Pois sempre fui muito critica com a Igreja e só quando morrer é que hei-de parar esta tentativa de a tornar o rosto de Jesus Cristo.
Mais ou menos fico indiferente ou não me toca o que se diz «de fora»
Respondo «Falar de fora é fácil» e... natuuralmente não é, que a gente não sabe bem o que é «de fora».
Mas as afirmações de Saramago ultrapassam tudo.
Altivez
Ignorância que parece total
Orgulho
Arrogância
Que nos quer dizer «este senhor»?
Vender um livro que obviamente vende porque o tem como autor?
Ou será que é o grito de «quem não está de fora?»
Só não dá ser tão deseducado.
Parece que estou zangada.
E tenho muita pena.
Mesmo muita.
Saramago não merece Saramago.
diz,
deixa-se incomodar comigo «A teresa é tão atenta e tão crítica»
Sempre e em todo o lado assim.
Muito mais se amo aquilo que critico.
Pois sempre fui muito critica com a Igreja e só quando morrer é que hei-de parar esta tentativa de a tornar o rosto de Jesus Cristo.
Mais ou menos fico indiferente ou não me toca o que se diz «de fora»
Respondo «Falar de fora é fácil» e... natuuralmente não é, que a gente não sabe bem o que é «de fora».
Mas as afirmações de Saramago ultrapassam tudo.
Altivez
Ignorância que parece total
Orgulho
Arrogância
Que nos quer dizer «este senhor»?
Vender um livro que obviamente vende porque o tem como autor?
Ou será que é o grito de «quem não está de fora?»
Só não dá ser tão deseducado.
Parece que estou zangada.
E tenho muita pena.
Mesmo muita.
Saramago não merece Saramago.
SERENAMENTE OUTONO
Li este belo texto que deixo em jeito de partilha
serenamente
neste país e nesta «estranha forma de vida»
confusa
atribulada
que é a nossa.
Faz-nos falta escrever ou ler assim:
« O sol despede-se lentamente nos dias cada vez mais breves de finais de Setembro. Esmaecem os doirados cabelos de Apolo. E as vinhas, os milheirais, os grandes plátanos dos jardins das cidades amolecem em tons amarelados e sanguíneos.
É o tempo das colheitas. Das vindimas e da apanha da fruta. Arrancam-se as batatas dos lameiros. Debulham-se os cereais. Descasca-se a amêndoa e secam-se os figos. A terra entrega generosamente ao homem o resultado do seu trabalho. Chegam as primeiras chuvas e despedem-se as aves migratórias. Límpidos horizontes. O mar, desocupado, exprime agora toda a brancura das suas ondas. Um cão vadio que corre atrás das gaivotas. Um par de namorados sentados na areia da praia. Avança o outono por Outubro. Desprendem-se as primeiras folhas. Pelos campos queimam-se as ramas secas. E o fumo levanta-se numa liturgia final de um ciclo que se encerra. Terminaram as últimas romarias do ano. Depois de Nossa Senhora dos remédios de Lamego, é a Feira das Colheitas em Arouca e S. Mateus em Viseu. Vem aí Novembro com as castanhas e o vinho novo. As árvores cada vez mais despidas. Os insectos entontecidos. E os primeiros frios de uma noite que se torna mais longa e ávida.
Revolvemos os armários em busca de roupa quente. O sono aumenta. Depois das beladonas, florescem os crisântemos e acorremos ao cemitério para recordar os nossos mortos. Chove muito. E lembro-me muito de ti ao cair da tarde. Não consigo evita este roxo, esta ansiedade, este advento que me conduz a Dezembro e ao nascimento de uma luz que auguramos desde o princípio do mundo.
Deslizamos por outono docemente e na verdade esta convulsão meteorológica e natural parece afinar-nos a sensibilidade. Os amanheceres breves e límpidos, com fiapos de nuvens avermelhadas atravessados pelo primeiro sol, são inesquecíveis, como aquela árvore cor de fogo, hirta e soberana que parecia reunir toda a luz do entardecer e que eu te pedi que fotografasses, naquela viagem para o longínquo norte.»
Manuel Hermínio Monteiro (1952-2001)
serenamente
neste país e nesta «estranha forma de vida»
confusa
atribulada
que é a nossa.
Faz-nos falta escrever ou ler assim:
« O sol despede-se lentamente nos dias cada vez mais breves de finais de Setembro. Esmaecem os doirados cabelos de Apolo. E as vinhas, os milheirais, os grandes plátanos dos jardins das cidades amolecem em tons amarelados e sanguíneos.
É o tempo das colheitas. Das vindimas e da apanha da fruta. Arrancam-se as batatas dos lameiros. Debulham-se os cereais. Descasca-se a amêndoa e secam-se os figos. A terra entrega generosamente ao homem o resultado do seu trabalho. Chegam as primeiras chuvas e despedem-se as aves migratórias. Límpidos horizontes. O mar, desocupado, exprime agora toda a brancura das suas ondas. Um cão vadio que corre atrás das gaivotas. Um par de namorados sentados na areia da praia. Avança o outono por Outubro. Desprendem-se as primeiras folhas. Pelos campos queimam-se as ramas secas. E o fumo levanta-se numa liturgia final de um ciclo que se encerra. Terminaram as últimas romarias do ano. Depois de Nossa Senhora dos remédios de Lamego, é a Feira das Colheitas em Arouca e S. Mateus em Viseu. Vem aí Novembro com as castanhas e o vinho novo. As árvores cada vez mais despidas. Os insectos entontecidos. E os primeiros frios de uma noite que se torna mais longa e ávida.
Revolvemos os armários em busca de roupa quente. O sono aumenta. Depois das beladonas, florescem os crisântemos e acorremos ao cemitério para recordar os nossos mortos. Chove muito. E lembro-me muito de ti ao cair da tarde. Não consigo evita este roxo, esta ansiedade, este advento que me conduz a Dezembro e ao nascimento de uma luz que auguramos desde o princípio do mundo.
Deslizamos por outono docemente e na verdade esta convulsão meteorológica e natural parece afinar-nos a sensibilidade. Os amanheceres breves e límpidos, com fiapos de nuvens avermelhadas atravessados pelo primeiro sol, são inesquecíveis, como aquela árvore cor de fogo, hirta e soberana que parecia reunir toda a luz do entardecer e que eu te pedi que fotografasses, naquela viagem para o longínquo norte.»
Manuel Hermínio Monteiro (1952-2001)
Tuesday, October 13, 2009
NÃO SE PERCEBE NADA
A Joana comentou a postagem anterior e perguntou-me «o que é que aquilo dizer».
O Manel disse-me que realmente não se percebia nada.
Naturalmente, foi só um desabafo, depois dos resultados das legislativas.
Só um desabafo...
Talvez um alívio...
A ver...
O Manel disse-me que realmente não se percebia nada.
Naturalmente, foi só um desabafo, depois dos resultados das legislativas.
Só um desabafo...
Talvez um alívio...
A ver...
Monday, September 28, 2009
BOM SENSO... E TAMBÉM BOM GOSTO
Hoje
estou aliviada.
Louvo algum bom senso que superou tanta divagação pouco prudente.
estou aliviada.
Louvo algum bom senso que superou tanta divagação pouco prudente.
Sunday, August 30, 2009
É UM RAPAZ
«- É um rapaz.
Tá a ver, tem aqui o seu rapaz.»
Foi assim que o médico me pôs em cima da barriga agora insensível, um rapaz cooooooooooompridíssimo, um molho de líquidos que eu não percebia, misturados com uns que me pareciam sangue.
Um rapaz.
Levaste um tempozito que me pareceu enorme até que gritasses muito. MESMO MUITO.
(nunca foste de falar à primeira, era isso, talvez)
Depois vi-te as mãos muito abertas e enormes.
Os pés, a mesma coisa.
Esquisito. Parecias-te com o médico.
Foi quando desatei a chorar. Também estava certo comigo e não te deve ter surpreendido. Disseste mais tarde «A minha mãe até chora com anúncios».
Sei lá porque é que choramos. Vem de dentro.
Diz também a vida.
E a alegria tornada mais serena e mais conforme...
«Faz o favor de seres feliz.» (plágio que vale)
O pai quis chamar-te André. Hoje já gosto, mas levei um tempão. Sou sempre demorada.
O pai tinha razão.
André.
Tá a ver, tem aqui o seu rapaz.»
Foi assim que o médico me pôs em cima da barriga agora insensível, um rapaz cooooooooooompridíssimo, um molho de líquidos que eu não percebia, misturados com uns que me pareciam sangue.
Um rapaz.
Levaste um tempozito que me pareceu enorme até que gritasses muito. MESMO MUITO.
(nunca foste de falar à primeira, era isso, talvez)
Depois vi-te as mãos muito abertas e enormes.
Os pés, a mesma coisa.
Esquisito. Parecias-te com o médico.
Foi quando desatei a chorar. Também estava certo comigo e não te deve ter surpreendido. Disseste mais tarde «A minha mãe até chora com anúncios».
Sei lá porque é que choramos. Vem de dentro.
Diz também a vida.
E a alegria tornada mais serena e mais conforme...
«Faz o favor de seres feliz.» (plágio que vale)
O pai quis chamar-te André. Hoje já gosto, mas levei um tempão. Sou sempre demorada.
O pai tinha razão.
André.
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